"A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou" | © Cinema BOLD

A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou, a Crítica | Quebram-se tabus no IndieLisboa

Joanna Arnow é uma revelação cómica que assina a sua primeira longa-metragem com “A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou,” também conhecido como “The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed.” A obra integra a Competição Internacional do IndieLisboa.

Quer acreditem ou não, é certo que vivemos num dos períodos mais assexuais do cinema, com o mainstream empenhado em rejeitar sexualidade adulta em prol de uma castidade juvenil que em nada corresponde à realidade humana. Até nas épocas onde a censura vingava, quando Hollywood se sujeitava à ditadura do Hays Code, o cinema parecia mais interessado em sexo enquanto parte das relações, da sociedade, da vida. É no mainstream que isto mais se nota, estando os dias do thriller erótico bem distantes na conjuntura de Hollywood. Sempre que alguma produção foge à castidade, é motivo de controvérsia, de discussão em redes sociais e tudo o mais.

Lê Também:   20 filmes essenciais sobre Sexo na Adolescência

Enfim, são tempos tristes para quem procura franqueza na arte, quem busca sensualidade na expressão audiovisual de artistas que, cada vez mais, parecem secundários em relação às demandas de coletivos empresariais. Felizmente, no foro dos festivais e do cinema independente, ainda há espaço para o sexo como parte da vida comum. E não tem que ser um espetáculo erótico, pois nem sempre estas vertentes do quotidiano se manifestam em tais termos. No melhor cinema com traços humanistas, a sexualidade pode existir como o assunto multifacetado que é. Assim, o desejo brilha na sombra, distante do público generalista e seus puritanismos.

a sensacao de que o tempo para fazer algo ja passou critica indielisboa
© Cinema BOLD

Será neste contexto que nos aparece a estreia de Joanna Arnow na longa-metragem, uma quebra de tabus sem vergonha, mas também sem o propósito de chocar só porque sim. A obra tem título comprido, mas evocativo – “The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed” no original e “A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou” em português – indicando as suas intenções tonais desde início. Trata-se da história de Ann e seus vários parceiros sexuais durante um período indeterminado de tempo, quebrado em fragmentos cómicos num estilo de colagem que remete para o mosaico.

Sem papas na língua ou vontade de iludir o espetador, Arnow interpreta Ann com candura absoluta. Ela é uma trabalhadora de escritório que desespera numa vida profissional insonsa e tornada ainda mais insuportável devido à fusão de empresas. De algum jeito, até parece que essa dormência laboral se estende para o foro privado. Uma visita da irmã desvenda outras insatisfações interpessoais sem, no entanto, tornar a intransigência entediante da personagem numa patologia. Quando tem tempo para isso, Ann experimenta com o fetichismo BDSM, gostando de ser submissa perante o domínio de figuras masculinas.




Apesar disso, há pouco que defina Ann enquanto alguém motivada pela desventura erótica ou algum desejo fora do vulgar. De facto, Arnow retrata a vida sexual da personagem com total casualidade, entendendo os desejos como parte normal da existência. A comédia resvala dos desentendimentos e azares do namoro e do gozo sem compromisso, a dificuldade em encontrar alguém sintonizado na mesma onda de vontades carnais. Há muito humor, pois o sexo pode ser mais ridículo do que é sensual, e a risada consegue ser tão importante como a provocação erógena. A franqueza possibilita um milieu em que nos rimos com o sexo, mas não do sexo.

A franqueza de Arnow tem um teor de secura que poderá perturbar espetadores à espera de um filme mais emocionalmente aberto ou sinceramente sensual. Ela não faz das explorações de Ann algum grotesco sensacionalista, encenando essas passagens com o mesmo distanciamento que se manifesta no local de trabalho. Por outras palavras, não há uma hierarquia de espetacularidade em “A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou”. Quanto muito, denota-se uma constância de desafeto e registo “deadpan”, sem grandes demonstrações ou palhaçadas, sem a tentativa de seduzir o espetador ou lhe incutir qualquer lição moral.

a sensacao de que o tempo para fazer algo ja passou critica indielisboa
© Cinema BOLD

Nesse e noutros aspetos, Arnow é uma das grandes retratistas de sexualidade em cinema recente. Ela repudia a noção de um segredo sujo e põe tudo à mostra, inclusive a amargura de uma desilusão ou a vulnerabilidade que vem aliada à comunhão de corpos. O trabalho de ator aliado a uma montagem marcada, à divisão clínica, quiçá literária, em capítulos, resulta num estudo muito humano. É a exploração das nossas necessidades e das nossas vontades mais inatas e primordiais, como essas coisas se desvendam e exploram, como a maravilha orgástica na nossa imaginação contrasta com a realidade vivida. Mas também como difere daquilo que esperamos de nós mesmos.

Ao longo de várias ligações, Arnow e sua Ann vão-nos mostrando uma procissão de homens e amantes, fogem ao cliché e invertem as conclusões esperadas. Ver “A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou” no cinema, com uma audiência cativa, é experienciar o modo como a cineasta controla a audiência como um maestro com sua orquestra. Por exemplo, a certa altura, o contraste entre as figuras interpretadas por Scott Cohen e Babak Tafti sugere que a fita vai capitular na convenção romântica. Mas Arnow troca as voltas, puxando pelo conforto de um romance mais tradicional para depois o rejeitar. Mesmo com uma estética meio desinteressante, as escolhas rítmicas e narrativas da cineasta demonstram grande audácia, enquanto algumas composições exibem a mestria noviça. Temos que lembrar o nome de Joanna Arnow, pois ela pode ser o futuro do indie Americano.

Lê Também:   10 realizadoras que já deviam ter ganho o Óscar

“A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou” ou “The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed” ainda volta a ser exibido dia 2 de junho como parte da programação do IndieLisboa. Depois disso, terá distribuição comercial com o Cinema BOLD e a Alambique.

A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou, a Crítica
a sensacao de que o tempo para fazer algo ja passou critica indielisboa

Movie title: The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed

Date published: 30 de May de 2024

Duration: 87 min.

Director(s): Joanna Arnow

Actor(s): Joanna Arnow, Scott Cohen, Babak Tafti, Alysia Reiner, Michael Cyril Creighton, Peter Vack, Parish Bradley, Rushi Birudala, Barbara Weiserbs, David Arnow

Genre: Comédia , 2023

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Joanna Arnow quebra tabus e desafia as convenções de um cinema cada vez mais casto. “A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou” é um fantástico estudo de personagem, cheio de franqueza sexual e a exultação do desejo complicado. Não há idealizações, mas também não se notam moralismos. Vinga a anarquia da vontade carnal e uma estrutura meio literária, por onde um elenco notável mostra a flexibilidade da comédia seca.

O MELHOR: O argumento que Arnow concebeu para a sua primeira longa, a coragem latente ao texto e a candura de todo o exercício. Quando se corta de um namoro para o princípio de novo ciclo, lá para o fim da fita, o choque é delicioso. Dá vontade de aplaudir a audácia da cineasta.

O PIOR: Como muitos trabalhos neste foro independente Americano, “A Sensação de Que o Tempo para Fazer Algo Já Passou” peca por uma certa displicência estética. As imagens são bem compostas, mas há pouco cuidado com a textura, com a expressividade da luz, da cor, do movimento. Enfim, é um daqueles filmes dominados pelo texto e ideias subjacentes.

CA

Sending
User Review
0 (0 votes)


Também do teu Interesse:


About The Author


Leave a Reply