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Rotterdam 2019 | Seus Ossos e Seus Olhos, em análise

Seus Ossos e Seus Olhos”, uma experiência verbosa sobre o corpo e a palavra, foi um dos filmes brasileiros exibidos no festival de Roterdão deste ano e, por tempo limitado, está disponível online no site do Festival Scope.

Tudo começa de modo estrondoso, quase violento, com um grande plano de um homem de telemóvel junto ao ouvido. Ele bufa e ofega, seus músculos faciais contorcem-se num esgar de raiva dramática com os dentes cerrados e o sobrolho franzido. De repente, tudo muda, a face relaxa, e ele pede desculpa por não conseguir ser violento antes de se desmanchar num discurso verboso sobre o corpo, a agressividade e tudo o mais. Ele é João e assim é “Seus Ossos e Seus Corpos”, um diálogo continuo entre corpo e palavra, entre a expressão física e o discurso, entre uma cara de músculos entesados e uma língua ágil.

Trata-se também de uma dança periclitante entre a banalidade do quotidiano e a elevação da Arte. João, interpretado pelo próprio realizador Caetano Gotardo, é uma figura que deambula pela vida sem grande nexo ou rumo, desdobrando-se em torrentes de verbosidade que parece dizer muito, mas no fim diz quase nada. Ele visita a amiga, é abordado por um pedinte na rua, recorda memórias eróticas de outros tempos e, ao fim do dia, relata tudo isso ao namorado. Vira o disco e toca o mesmo.

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Um gesto desfragmentado torna-se um espetáculo de desconforto.

Pelo menos, assim se assume a estrutura do filme que, talvez mais do que a representação de um fluxo cronológico e biográfico, parece assumir a forma de uma sessão se ensaios e improvisos, de ator e cineasta, usando a matéria prima da comunicação interpessoal, a relação entre o humano e o espaço que ocupa e o próprio aborrecimento da vida dita normal. Um simples gesto consegue ser desfragmentado e esmiuçado até que passamos minutos a fio a ver suas muitas possíveis permutações. Uma história básica é repetida com leves alterações, como que se a figura em cena estivesse a tentar apurar o melhor modo de interpretar aquela que supostamente é a sua vida.

Como exemplo destes interesses e mecanismos, basta vermos uma das primeiras sequências da obra. Logo na segunda cena, o espectador é convidado a ficar minutos a fio a observar como o protagonista muda de posição e se tenta por confortável, primeiro sentado num sofá, depois recostado, sentado no chão, deitado, meio no sofá meio no chão, com uma almofada na cabeça, de pernas abertas ou fechadas, joelhos fletidos ou esticados, vira-se ao contrário com os pés no sofá, de barriga para cima e para baixo, e por aí a fora. Há algo de hipnótico em tal atenção dada às contorções de alguém em busca de um conforto que não vai encontrar.

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Essa qualidade hipnótica ajuda muito a mitigar o pretensiosismo intelectual que permeia “Seus Ossos e Seus Olhos” tanto como uma sugestão suspirada que nada disto importa para além de um formidável exercício ensaístico para seus criadores. É através da melodia da voz a enrolar-se em discursos rebuscados, do ritmo de uma atriz a pintar um monólogo com emoção estudada, das imagens regularmente repetidas do corpo partido pela composição que o espectador vai sendo embalado. Talvez se possa até dizer que o filme traça o caminho para a grandeza através do aborrecimento do espectador, atordoando sua sede por dramaturgia até que o reduz a alguém aberto a um espetáculo sensorial primitivo, de sons e corpos em comunhão.

Além de tudo isso, este é um filme que transborda erotismo, como que, se pelo seu encantamento sensorial, estivesse também a tentar seduzir ou excitar quem o vê. Um dos exercícios mais recorrentes desta obra deliberadamente repetitiva é a tentativa meio fútil de reduzir experiências físicas e emocionais a expressão verbal. Há, por exemplo, uma longa conversa sobre uma ida à praia, sobre a sensação de se deitar na areia e ver o físico molhado de um namorado muito desejado, vestido só com cuecas singelas sobre o corpo erotizado.

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O filme transpira erotismo.

O oposto também acontece, com o corpo a contorcer-se em poses estranhas, enquanto outras vezes a voz tenta descrever sons que a sonoplastia se recusa a oferecer. São corpos a tentar fazer o que palavras fazem e palavras a tentar futilmente descrever a emoção e a experiência física. É cinema a brincar com seus sujeitos. Duas ou mais línguas a tentar descrever outras línguas, apagando-se a si mesmas em busca da síntese, da mimese, da expressão da efemeridade que é e experiência direta e a experiência lembrada, o presente e a memória. O que é o cinema, afinal, senão memórias construídas, projetadas, e vistas uma e outra vez, cristalizadas e eternas enquanto o suporte digital ou o celuloide, enquanto o nitrato de prata sobreviver? O que é crítica senão o mesmo tipo de exercício sem fim em tentar articular por palavras aquilo que se sente e experiencia?

Se tudo isto soa a alienação rarefeita em cinema, a experiências falhadas, convém dizer que “Seus Ossos e Seus Olhos” não está muito longe de tal realidade. Como já foi sugerido, os atores muito fazem para transcender a faceta potencialmente alienante dos diálogos teatrais e seus inerentes limites, imbuindo cada momento de emoção pulsante, dando vida ao que podia ser inerte. Um encontro casual, por exemplo, torna-se numa conversa sobre um homem gay a recordar-se seus traumas de infância, sua dor de criança a tentar entender quem é, o que é e a ser confrontado com a rejeição.

O discurso é floreado, a estrutura da cena e da fala é forçosamente artificial, mas há algo de eletrizante na dor que floresce entre linhas graças aos intérpretes. Trata-se de uma obra meio insular sobre arte e expressão interdisciplinar e interlinguística, mas há aqui Humanidade, há aqui uma raiva política que quer subverter a ordem conservadora, há valor e há ambição artística. Por isso mesmo, apesar de não podermos ovacionar o filme de pé, damos-lhe o respeito do aplauso.

Seus Ossos e Seus Olhos, em análise
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Movie title: Seus Ossos e Seus Olhos

Date published: 21 de February de 2019

Director(s): Caetano Gotardo

Actor(s): Caetano Gotardo, Malu Galli, Vinicius Meloni, Carlos Escher, Carlota Joaquina, Larissa Siqueira, Marina Tranjan, Wandré Gouveia, Irene Dias Rayck, Daniel Turini

Genre: Drama, 2019, 118 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Seus Ossos e Seus Olhos” representa uma proposta intrigante de cinema queer brasileiro que tenta explorar dinâmicas entre corpo e palavra, entre cinema e o banal, entre a arte e a tentativa de articular o que não pode ser articulado através de linguagem formal. O resultado final nem sempre chega ao potencial máximo das suas premissas, mas é, de forma geral, um esforço admirável que hipnotiza o espetador com seus encantamentos eróticos.

O MELHOR: Toda a sequência em casa da amiga e a dança de desconforto que se encena pelo sofá e tapete.

O PIOR: O filme é demasiado comprido para sua qualidade experimental. Assim o que poderia ser fascinante e inovador ganha o sabor azedo da indulgência indisciplinada.

CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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