Silêncio, em análise

Silêncio é a obra mais matura que Martin Scorsese alguma vez criou, assim como a sua mais austera, impeditiva e ideologicamente complexa.

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Os trailers e restantes materiais promocionais de Silêncio deviam vir com um aviso bem explícito: “Não esperem ver aqui um novo Tudo Bons Rapazes.” Dizemos isto porque, para alguém que se tenha habituado a apreciar a filmografia de Scorsese como um espetáculo de formalismo cinético, excessos violentos e ação energética, Silêncio será um cruel balde de água fria. Na verdade, este filme, que Martin Scorsese anda a desenvolver há cerca de 30 anos a partir do magistral romance de Shūsaku Endō, está mais próximo de uma homenagem à austeridade de Dreyer e Bresson do que dos grandes filmes de gangsters que trouxeram fama mundial a este autor. Efetivamente, esta é a obra de um realizador maturo, devoto, que em tempos estudou para ser padre e cujo estilo se mostra agora sintetizado, depurado e submisso à grandeza de um material ideológico superior a si mesmo.

De facto, Silêncio é uma incontornável reviravolta formal na carreira de Scorsese, abandonando os planos sequência frenéticos em prol de travellings horizontais à la Mizoguchi, primando cenas construídas em planos estáticos e sem grandes floreados, uma montagem ponderada e vagarosa – a não ser em algumas cenas de diálogo arrítmicas que marcam a presença autoral da editora Thelma Schoonmaker – e uma quase absoluta excisão de acompanhamento musical. Este novo tipo de abordagem, tão bem executada como os excessos dos seus filmes passados, chega ao seu píncaro nas cenas de extrema violência. Atente-se que esta narrativa retrata uma das mais sangrentas fases da História japonesa, as perseguições aos cristãos, mas, apesar disso, a câmara de Scorsese mostra apenas compaixão e recusa-se a tornar a violência sensacionalista no sujeito dos seus tableaux. Ao invés disso, o sofrimento humano, físico, mental e espiritual, é o centro de tais momentos solenes.

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Não que Silêncio e Scorsese estejam a erroneamente glorificar esse mesmo sofrimento martirizante numa espécie de epíteto propagandista religioso. Aliás, se há algo que define a atitude do realizador para com a Fé, no contexto desta obra, é a ambivalência crítica, que não incide tanto sobre as personagens japonesas, mas sim sobre as figuras portuguesas. Mais especificamente, dois padres jesuítas, Sebastião Rodrigues e Francisco Garrpe, que vão ao Japão em busca de um antigo mentor, Cristovão Ferreira, que alegadamente terá cometido apostasia, renunciando publicamente à Fé. Na viagem, eles encontram várias comunidades que praticam o cristianismo em segredo, ajudam-nas enquanto sacerdotes e acabam por ser eventualmente capturados pelas autoridades, sendo que grande parte da narrativa é uma sôfrega sequência de torturas que tentam forçar Rodrigues a apostatar.

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A já referenciada ambivalência crítica de Scorsese permite que Silêncio encare as ações iniciais destes missionários como algo propulsionado tanto pela bondade como pela hubris colonialista de uma nação europeia a disseminar os seus valores no Oriente. Mesmo a doutrina e os dogmas católicos não são poupados, sendo apresentados como algo próximo da futilidade ritualista, quando confrontados com a realidade visceral do sofrimento incompreensível. O próprio silêncio titular, que tem uma miríade de significados impossíveis de serem justamente examinados com brevidade, desassocia-se da inação divina e torna-se numa manifestação da teimosia do crente que tem a arrogância de colocar a sua integridade religiosa acima da possibilidade de terminar o sofrimento do outro ser humano. Contudo, Silêncio é a obra de um cineasta devoto, pelo que não temos aqui nenhuma espécie de ataque unilateral à Igreja Católica e à Fé cristã.

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Consequentemente, o cristianismo é apresentado como o sustento espiritual das comunidades empobrecidas que têm, na promessa de uma existência feliz depois da morte, uma legitimação do seu valor enquanto seres humanos. Em 1964, Pasolini edificou a vida de Cristo como a história do primeiro revolucionário socialista e esse género de abordagem sociopolítica ao cristianismo está bem presente nas entrelinhas de Silêncio, onde vemos quão ameaçadora tal ideologia igualitária pode ser para uma nação que, no século XVII, promovia um regime isolacionista e feudal. Não que a perspetiva dos nobres nipónicos seja facilmente descartada como discurso de vilão, pois, ao mesmo tempo que Scorsese olha com horror para a perseguição anticristã, também tem empatia suficiente para apresentar os seus contra-argumentos com justa inteligência. Desde a sua visão dos esforços missionários como veículo para o imperialismo e forma de consolidar o poder absoluto da Igreja, ao modo como apresentam o cristianismo japonês na forma de um hibrido, não católico, de valores locais e crenças estrangeiras, estas figuras japonesas são difíceis de ignorar no seu raciocínio.

Essa natureza multifacetada não é exclusiva responsabilidade da direção de Scorsese e do texto, pois o elenco japonês é simplesmente soberbo, muito graças à desenvergonhada especificidade nipónica dos seus estilos de atuação. Como um Judas renascido e personificação grotesca da humildade cristã, Yôsuke Kubozuka torna o traiçoeiro Kichijiro na figura mais complicada e de difícil interpretação da narrativa. Pela sua parte, Shin’ya Tsukamoto, Yoshi Oida e Nana Komatsu dão grande dignidade às vítimas martirizadas. Apesar disso, as estrelas desta coleção de atores são mesmo aqueles que têm os papéis mais antagónicos. Tadanobu Asano faz do intérprete um bailarino da palavra falada, usando ritmos de discurso claramente nipónicos para tornar as suas falas em inglês numa aberração ameaçadora e dissimulada. Por fim, Issei Ogata encarna o eloquente inquisidor Inoue com extrema teatralidade física – a certa altura ele parece encolher como um balão a perder o ar – e um registo vocal tão estridente como cortante, que nos recorda que o ator é conhecido maioritariamente como um comediante no seu país de origem.

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Em contrapartida, os atores anglófonos, apesar de sólidos, ficam a parecer tristes concessões artísticas quando comparados com os seus colegas japoneses. Adam Driver valoriza a sua presença como Garrpe com uma fisionomia cadavérica e Liam Neeson dá a sua melhor prestação em anos como o padre Ferreira, há muito anestesiado pela culpa e pelo sofrimento, mas não é sobre os seus ombros que cai a responsabilidade do protagonismo, mas sim nos de Andrew Garfield. Honestamente, o ator inglês tem momentos geniais, como a sua histeria animalesca ao ver no seu reflexo a face de Cristo, mas, de forma geral, as complexidades abismais inerentes à personagem do padre Rodrigues acabam por evidenciar consideráveis marcas de esforço. O outro grande problema do filme associa-se também a Garfield, sendo a voz-off constante uma escolha óbvia e pouco sofisticada, por muito nobre que seja a fidelidade literária do projeto.

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Em conclusão, Silêncio poderá muito bem ser a obra mais concetualmente complicada de Scorsese, mesmo que esteja longe de ser o seu melhor filme. Isso será certamente um problema que vai enfrentar na sua distribuição comercial no meio da Awards Season, quando narrativas de prestígio e fácil digestão intelectual são a norma, mas nada disso invalida a sua qualidade e importância. No panorama do cinema contemporâneo, Silêncio é uma anomalia preciosa, uma obra de ideias e não de espetáculo, que se recusa a agradar a gostos e valores contemporâneos (alguns dos gestos e rituais da época parecerão cómicos a muita gente) e a simplificar as suas indagações filosóficas. No final da sua carreira, quando muitos cineastas começam a entrar em espirais de desinspirado auto-plágio, Scorsese vem mostrar como ainda tem novos truques na manga. Se este fosse o seu último filme, seria um justo capítulo final a uma carreira ilustre, mas como não é, trata-se apenas de uma promessa de futuras glórias que, com sorte, serão tão fascinantes como esta elegia fílmica onde a compaixão e a empatia são a maior manifestação da grandeza divina entre os humanos.

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O MELHOR: A impetuosa complexidade ideológica do texto que foi, não obstante o mecanismo da voz-off, maravilhosamente adaptado da sua origem literária.

O PIOR: O modo como nenhuma das personagens, supostamente portuguesas, consegue pronunciar qualquer palavra lusófona de forma correta. Isto é uma distração diabólica e que conjura instâncias de humor terrivelmente acidental.



Título Original:
 Silence
Realizador: Martin Scorsese
Elenco:
Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Issei Ogata, Yôsuke Kubozuka

NOS | Drama, Histórico | 2016 | 161 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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