Ana Moreira em "Sombra" (2021) ©NOS Audiovisuais

Sombra, em análise

O novo filme de Bruno Gascon, “Sombra” é um relato histórico e emotivo que presta homenagem às famílias de crianças desaparecidas e que toca nos sentimentos de todos que o assistem.

“Não consigo. Fazer o que as pessoas querem que faça. Que me esqueça dele.”

Na segunda longa-metragem de Bruno Gascon, depois de ”Carga” (2018), o realizador continua a pegar em temas pesados, onde os mais básicos direitos humanos são violados e onde se expõem teias do pior que o ser humano tem para oferecer. Em “Sombra”, Gascon baseou-se em histórias verídicas de desaparecimentos de crianças, conversando com mães que viveram esta indiscritível situação, nomeadamente com a mãe de Rui Pedro, Filomena Teixeira, no infame caso do menino de 11 anos que desapareceu em 1998.

Sombra” teve estreia nacional a 14 de Outubro de 2021, mas começou a criar impacto mesmo antes disso, arrecadando dois prémios na sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Barcelona-Sant Jordi em Abril. Soma já várias seleções em festivais internacionais, entre os quais na 24.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Xangai, no Festival de Cinema Ischia em Itália, no Mastercard Off Camera na Polónia e no festival de cinema francês Les Reflets du Cinéma Ibérique et Latino-Américain. Para além disso, marcará ainda presença no Festival de Cinema Raindance, onde Gascon se encontra nomeado ao Prémio de Melhor Realizador e onde Ana Moreira está nomeada para Melhor Performance.

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O drama tem à sua frente a atriz Ana Moreira (“Adriana”, “Tabu”), sendo o elenco ainda composto por estrelas como Miguel Borges, Vítor Norte, Ana Bustorff, Lúcia Moniz, Joana Ribeiro, Ana Cristina Oliveira, Tomás Alves e com a participação especial da modelo portuguesa Sara Sampaio.

O filme contou com a produção da Caracol Protagonista e o apoio da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas. Tendo a distribuição ficado ao encargo da NOS Audiovisuais e os direitos televisivos foram adquiridos pela RTP.

Ana Moreira
Ana Moreira em “Sombra” (2021) ©NOS Audiovisuais

 “A polícia não fez nada. O culpado continua à solta. E ele ainda está vivo.”

A narrativa debruça-se sobre o abater da tragédia na família de Isabel (Ana Moreira), quando o seu filho Pedro, de 11 anos, desaparece misteriosamente em 1998. Quando é tempo de seguir em frente? Existirá sequer altura para isso? Estas são algumas das perguntas que o filme explora e onde se retrata a infinita esperança de uma mãe em reencontrar o seu filho, que ao longo de 15 anos vai encontrando forças para não desistir e enfrentar todos os obstáculos.

Segundo os produtores a película trata de “uma história de amor, força e coragem, sobre uma mãe que não desiste de procurar o seu filho que desapareceu”. Já nas palavras de Sara Sampaio o filme “é dedicado às mães que lutam todos os dias para trazer os seus filhos para casa”. Na opinião de Ana Moreira, e após o encontro com Filomena Teixeira, a mãe do verdadeiro Rui Pedro, que a atriz descreve como um momento muito especial com uma mulher cheia de uma luz enorme, o “título é ‘Sombra’, mas ela [a mãe] está sempre à procura da Luz”.

Vítor Norte
Vítor Norte em “Sombra” (2021) ©NOS Audiovisuais

“Quando ele desapareceu foi como se me cortassem os dois braços.”

Numa primeira parte, “Sombra” apoia-se muito na exposição visual e no toque emocional, descurando um pouco a narrativa verbal e não investindo tanto na substância informativa. No entanto, à medida que o filme avança os componentes equilibram-se e a força da mensagem é exponenciada, o que resulta num comovente filme que não irá deixar ninguém indiferente.

O argumento de Gascon é uma viagem por várias emoções, que segue fielmente as histórias de origem, acrescenta novas informações e desperta sentimentos tão devastadores que é difícil reter quer as lágrimas, quer o sentimento de revolta. A passagem entre os arcos de 1998, 2004, 2011 e 2013 é realçada pelo trabalho da banda sonora, da maquilhagem, do  guarda-roupa e da cinematografia, jogando com: luzes e sombras, um espetro de cores oscilando entre o amarelo e o cinzento; o envelhecer e o renascer; o silêncio e a música. Tudo isto com Ana Moreira no centro num papel de tal entrega e exposição, que o fingimento é tão palpável que parece real.

Miguel Borges
Miguel Borges em “Sombra” (2021) ©NOS Audiovisuais

A longa-metragem é repleta de cenas fortes e pesadas, tornando-a numa peça não de fácil visualização, mas que devia ser quase obrigatória. Entre os destaques mais marcantes lembramos: o momento de atingir o limite do pai, Mário (Miguel Borges), que é sentido como uma dor dilacerante; e na investigação com Kamyla (Joana Ribeiro), as imagens que não são vistas, são preenchidas pela imaginação com os piores dos horrores.

Pode aqui ser feito ainda um certo paralelismo entre “Sombra” de Gascon e “Listen” de Ana Rocha, ambos explorando, de uma forma consciente e bastante exigente emocionalmente, a luta de famílias portuguesas pelos seus filhos. Se esperamos que este novo filme tenha mais sorte na corrida aos Óscares, temos muitas expectativas que se vá distinguir a nível nacional e poderá ser um dos grandes vencedores dos Prémios Sophia 2022.

Sombra
Tomás Alves e Ana Moreira em “Sombra” (2021) ©NOS Audiovisuais

Depois da melhoria que vimos de “Carga” para “Sombra”, estamos muito entusiasmados pela próxima longa-metragem de Bruno Gascon, “Evadidos”, um filme distópico sobre o fascismo que se encontra em pós-produção. E depois de créditos e elogios em “Os Mutantes”, “Adriana”, “Transe” e “Tabu”, com “Sombra” Ana Moreira lança-se na corrida a um novo Globo de Ouro e a uma distinção nos Prémios Sophia.

TRAILER | UMA VERDADEIRA HISTÓRIA DE AMOR, FORÇA E CORAGEM, DE UMA MÃE QUE NÃO DESISTE DE PROCURAR O SEU FILHO!

Temos candidato aos Óscares 2022?

Sombra, em análise
Sombra

Movie title: Sombra

Movie description: Anos depois do desaparecimento do seu filho uma mulher continua a fazer de tudo para o encontrar após um rapto que a justiça não consegue resolver.

Date published: 14 de October de 2021

Country: Portugal

Director(s): Bruno Gascon

Actor(s): Ana Moreira, Miguel Borges, Vítor Norte

Genre: Drama

  • Emanuel Candeias - 83
83

CONCLUSÃO

“Sombra” de Bruno Gascon é uma obra cinematográfica de ficção que se mistura com o documentário, de forma a comunicar a realidade, e a não deixar esquecer os casos de crianças desaparecidas que nunca chegaram a ser resolvidos. É também uma forma de homenagem às famílias e em particular ás mães que nunca desistem. Ana Moreira entrega-nos um dos papeis mais emocionalmente complexos da sua carreira, numa interpretação merecedora de uma ovação em pé.

Pros

  • Bruno Gascon entrega-nos a sua melhor produção até à data
  • A interpretação de Ana Moreira é arrepiante
  • A complementação do guião, com a cinematografia, a banda sonora, a maquilhagem e o  guarda-roupa tornam o filme numa verdadeira experiência emotiva e envolvente

Cons

  • Uma primeira parte mais lenta e refletiva atrasam ligeiramente a entrega do público à obra
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