Os melhores guarda-roupas da TV | 7. Stranger Things

As modas dos anos 80 estão de volta em Stranger Things, uma carta de amor nostálgica que, mesmo assim, tem espaço para surpreendente nuance.

 


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Há quem adore a sua história, se tenha apaixonado pelas personagens ou admire o trabalho do elenco recentemente galardoado com um prémio SAG, mas é inegável que a enorme popularidade de Stranger Things se deve principalmente a um só aspeto: a nostalgia. Inspirado por clássicos dos anos 80 de um modo tão enfático que podemos falar em pastiche ou momentos que sugerem quase o plágio, esta série da Netflix é carta de amor ao passado que desperta tanta nostalgia nos seus criadores como na audiência que vê Stranger Things e se recorda sonhadoramente da primeira vez que viu a aventura de Eliiot e o seu E.T. ou que experienciou os horrores de John Carpenter no auge da sua carreira.

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Em resumo, a recriação do passado é uma parte essencial de Stranger Things mas, como todos os aspetos da série, tem de haver uma monumental delicadeza nas ligações à cultura popular para que a série não se converta numa simples e pueril colagem nostálgica sem qualquer outro valor. Há quem argumente que é isso exatamente que aconteceu, mas há um grande charme na narrativa de ficção-científica que posiciona um grupo de quatro cromos de 12 anos no centro de uma aventura multidimensional. Para além disso, a execução formal dessa recriação do passado é impecável, com os figurinos a mostrarem particular excelência.

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Cada uma responsável por uma metade da primeira temporada, Kimberly Adams-Galligan e Malgosia Turzanska conceberam os figurinos de Stranger Things, usando como referência uma série de referências fotográficas e alguns filmes especificamente escolhidos para cada personagem. Em termos práticos, usaram maioritariamente roupas vintage encontradas numa série de lojas de roupa usada, mas, mesmo assim, algumas das suas ideias tiveram de ser construídas de raiz, quer seja pela sua especificidade ou pelas exigências da filmagem. O vestido cor-de-rosa dos anos 70 que Eleven veste, depois de ser resgatada pelo grupo de rapazes no centro da aventura, teve de ser feito à medida e em múltiplos suficientes para delinear a contínua degradação da peça ao longo dos vários episódios.

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Esse vestido cheio emparelhado com um casaco azul pode ser o conjunto mais icónico de Stranger Things (é certamente aquele que mais inspirou os cosplayers), mas está longe de ser o mais interessante. Atentem que nem nos estamos a referir às roupas que Eleven é forçada a usar ao longo das diabólicas experiências a que é submetida ou aos equipamentos de proteção usados para entrar noutra dimensão. Pelo contrário, referimo-nos aos figurinos mais discretos e “normais” de Stranger Things como os dos rapazes, Joyce (Winona Ryder), os vários adolescentes e até Hopper (David Harbour) e a sua secretária.

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É que, como qualquer atento fã de cinema de terror e fantasia clássico saberá muito bem, antes dos acontecimentos fantásticos se abaterem sobre o mundo das personagens, há que se estabelecer uma normalidade que é posta em risco. Ou seja, para que realmente sintamos a magia dos momentos mais mirabolantes de Stranger Things, é essencial que a realidade mundana seja visceralmente credível e os figurinos são essenciais para isso. Reparem, por exemplo, como as roupas dos quatro rapazes salientam as suas disparidades socioeconómicas, com as peças usadas por Mike (Finn Wolfhard) a serem notoriamente mais recentes e novas que as peças desgastadas de Will (Noah Schnapp), ou como as roupas de Joycve, especialmente as suas mais formais, são claramente dos anos 70.

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Para além disso e da criação de estilos pessoais maravilhosamente idiossincráticos (Barb!), as duas figurinistas usaram referências culturais com admirável inteligência. Não é por acaso que os estudantes mais populares da escola secundária parecem saídos de uma comédia dos anos 80, ou que, quando decide ir enfrentar sozinho um monstro sobrenatural, o jovem Lucas (Caleb McLaughlin) coloque uma bandana na cabeça a la Rambo. A cultura popular com que nos relacionamos e vivemos é uma influência enorme no modo como vemos o mundo ou confrontamos uma violação da nossa mundana realidade. Estas escolhas de guarda-roupa ilustram essa mesma relação, talvez de um modo ainda melhor que a própria história de Stranger Things.

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Na próxima página, saltamos da nostalgia focada nos anos 80  para a nostalgia associada ao Velho Oeste Americano . Não percas!

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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