Eleanor (Kristen Bell) e Chidi (William Jackson Harper) formam a improvável parelha romântica de "The Good Place" |©Netflix

The Good Place, série completa em análise

“The Good Place”, uma das mais originais séries de comédia dos últimos anos, disse adeus aos seus fãs no passado dia 30 de janeiro. Deixa um legado imenso, que procuramos agora analisar. 

Atenção: Contém spoilers relativos à totalidade da série (temporada 1 a 4)

Esta comédia absurdamente deliciosa é uma criação de Michael Schur – ou Mike Schur para os amigos – para a NBC, o canal mítico situado no famoso edifício “30 Rock” – 30 Rockefeller Plaza. Em Portugal, esta série foi exibida pela plataforma de streaming Netflix com estreia dos episódios no dia seguinte à sua emissão nos Estados Unidos da América.

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Mike Schur, a mente que imaginou “The Good Place”, é, para quem desconheça, uma das mais proeminentes figuras atuais no campo da comédia televisiva norte-americana. O produtor, argumentista, realizador e ocasional ator é conhecido por ter  co-criado a versão americana de “The Office” (2005), “Parks and Recreation” (2009)  e  “Brooklyn Nine-Nine” (2013). Os seus créditos incluem também a escrita de mais de 130 episódios do aclamado programa de sketches “Saturday Night Live“.

Com tamanho pedigree, e com um historial longo na NBC, não é surpreendente que Schur tenha recebido luz verde para criar uma comédia capaz de escapar a quaisquer definições fáceis. Como alavanca promocional, “The Good Place” acolheu como protagonistas dois veteranos da televisão norte-americana: Ted Danson (“Cheers”) e Kristen Bell (“Veronica Mars”).

The Good Place S01
Ted Danson (Michael) e Kristen Bell (Eleanor) na primeira temporada |©Netflix

Contudo, esta é uma verdadeira série de elenco onde os restantes interpretes centrais  – relativamente desconhecidos – tiveram a oportunidade de brilhar e evoluir. A construção de personagens não foi rápida, mas ao longo de 50 episódios divididos em quatro temporadas o neurótico Chidi Anagonye (William Jackson Harper), a arrogante Tahani Al-Jamil (Jammela Jamil), o aluado Jason Mendoza (Manny Jacinto), a “não rapariga” Janet (D’Arcy Carden) e claro a despachada Eleanor Shellstrop (Bell) e o demoníaco Michael (Danson) tornaram-se quase de carne e osso.

Um pouco à semelhança do que aconteceu em “Parks and Recreation”, os nossos heróis evoluíram, ao longo das temporadas, de estereótipos até personagens robustas e repletas de pequenas idiossincrasias ,defeitos, qualidades, colorindo o espectro das emoções que nos tornam a todos humanos.Essa humanidade está bem presente, não tanto na premissa inicial mas com o desenrolar da história.

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Com “The Good Place” procurou-se fazer o quase impossível. Criar uma série leve, criativa, cómica e a pender para a comédia do absurdo que simultaneamente fosse fundamentada em bases filosóficas. Todos os ingredientes desta receita pareciam prometer colidir entre si, mas não foi esse, de certo, o caso.

Um conteúdo bem recebido pela crítica especializada, pelos espectadores e com algum sucesso em termos de prémios, seria tentador arrastar “The Good Place” para lá do necessário. Não foi esse o caso, e as quatro temporadas correspondem a um arco claro e ponderado do início ao fim.

A primeira temporada foi, desde logo, promissora. Conhecemos Eleanor, a nossa protagonista. Depois de morrer, chega ao “The Good Place”. É este uma versão imaginativa e detalhada do que será o céu. O único problema é que Eleanor não pertence a este local. A sua vida foi comum e repleta de pequenos pecados, e este “céu” apenas é reservado aos melhores dos melhores, os que viveram uma vida perfeitamente ética.

The Good Place Pilot
Chegados ao “céu”, Michael exemplifica o aparentemente redutor sistema de pontos |©NBC

Estes primeiros treze episódios são dominados por uma lógica de cliffhangers – momentos múltiplos nos quais os nossos heróis são colocados em situações extremas que se arrastam para o início do episódio seguinte. Apesar da sua criatividade na criação de um mundo de raíz, repleto de detalhes sarcásticos, cenários improváveis como camarões voadores, referências a cultura pop e inteligentes jogos de contrastes, algo continuava a faltar na dinâmica da série.

A base moral parecia excessivamente simples: o que é ser bom ou mau? Os conceitos éticos soavam demasiado simples e redutores. Seriam aulas capazes de mudar algo? Teriam os diálogos filosóficos aplicabilidade prática? Não obstante o seu carácter viciante e original, aceitar o universo a 100% revelava-se uma tarefa inglória. Algo parecia faltar…

Com a reviravolta do final da primeira temporada tudo se tornou mais interessante. Afinal, este “céu” não era senão uma enorme mentira designada para torturar humanos. Foi aqui que a inteligência emocional aguçada que a série exibe se começou a manifestar.

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A partir daqui, “The Good Place” evoluiu para algo diferente. Tornou-se uma história sobre resiliência, onde os nossos heróis assumem inclusive o nome “Team Cockroach” (Equipa das Baratas). Usando como escudo a natureza crítica do ser humano, os protagonistas – cientes das suas limitações mas também do seu valor enquanto indivíduos –  procuram, durante as restantes temporadas, a forma de chegarem ao verdadeiro “Good Place”.

Chidi
Chidi (William Jackson Harper) , o Professor de Ética, é confrontado com a materialização dos seus dilemas |©NBC

A segunda temporada apresenta episódios fortíssimos. A certo ponto, os nossos protagonistas são obrigados a aprender filosofia “na prática”. O dilema moral “The Trolley Problem” (Problema do Eléctrico) – matarias uma pessoa conscientemente, puxando uma alavanca, para salvar cinco outras ou deixarias as cinco morrer sem decidir um rumo de acção e sem intervir no evento que se desenrola  – é demonstrado uma e outra vez, de forma diabólica. Para além de hilariante, este pequeno momento demonstra uma perícia na arte de contar histórias. Todos ouvimos falar deste dilema em contexto de sala de aula, mas aplicá-lo visualmente através do recurso à comédia acrescenta algo mais a uma velha e cansada questão.

No decurso deste segundo conjunto de treze episódios, Janet – a entidade omnipresente e sapiente –  com as suas falhas e os seus atos de ligeira rebeldia – propõe uma abordagem distintas das questões relativas à Inteligência Artificial.  Esta “não rapariga” começa como uma mera enciclopédia antropomórfica e acaba por se transformar num ser complexo e empático.

Já a história procura, a partir de metade da segunda temporada, respostas para duas questões complexas. Como chegar ao verdadeiro “Good Place” e como conseguir ser uma melhor pessoa. A terceira temporada, quiçá a mais fraca, traz-nos outra gigante reviravolta. Os nossos protagonistas regressam à terra, e aqui continuam a ter lições de ética.

O ritmo da série quebra-se aqui durante alguns episódios, talvez devido a alguma lógica de repetição. Não obstante, existem trunfos inegáveis. Destaque para o episódio 9 da terceira temporada, Janet(s)Neste, uma Janet cada vez mais aperfeiçoada transporta os humanos (novamente mortos) para o seu vazio. Aí, todos eles se materializam em Janet e D’Arcy Carden entrega uma prestação genial, ao encarnar os maneirismos de cada um dos seus companheiros de cena. O vazio é tão existencialista quanto hilariante, e difícil de esquecer.

D'Arcy Carden Janet
D’Arcy Carden como todos os protagonistas de “The Good Place” |©NBC

A última temporada pode ser caracterizada através da sua lógica evolutiva, com alguns altos e baixos. Inicialmente, os nossos humanos enfrentam um desafio significativo. Provar que os seres humanos conseguem sempre  evoluir , isto depois da complexidade da vida na terra e a não linearidade da existência humana ter sido já reconhecida. No décimo de 13 episódios regressamos ao vazio de Janet e lá se toma a decisão mais importante da série. Serão os nossos protagonistas finalmente capazes de chegar ao “The Good Place”?

A resolução, com a chegada dos nossos heróis ao verdadeiro “céu”, foi muito esperada desde o final da primeira temporada. Quando chega é de rompante, e depressa vemos novamente os nossos planos trocados. Acabamos por compreender que a viagem é mais importante que o destino e…não poderia ter sido mais delicioso.

Para uma comédia criativa, absurda, inverosímil e por norma leve, o final entregue viu-se repleto de nostalgia inesperada. Quando chegados ao verdadeiro “Good Place”, os nossos heróis compreendem que nada é perfeito acerca do mesmo. A repetição, a possibilidade infinita de recuperar locais e memórias, o tempo não contado e a falta de objectivos concretos tornam os seres imortais indulgentes e desmotivados. O que fazer? Criar um novo sistema. Nada é mais humano do que a capacidade de melhorar, e, no final, é esta a grande (e simples) conclusão da série.

Good Place
Os nossos protagonistas chegam a um sítio melhor |©NBC

“The Good Place”, para lá da sua aparente leveza , enfrenta corajosamente questões filosóficas de gigante peso. Atreve-se a sugerir uma hipótese não para o que é, mas para o que poderia ser uma vida depois da morte. Atreve-se a propor uma visão bela e otimista daquilo que a humanidade poderia ser. Recupera, de forma emocionante, um texto basilar para a narrativa no final da mesma – “What We Owe To Each Other” de T.M Scanlon.

O episódio final é inesperado, munido de uma beleza e sensibilidade palpáveis, emocionante, e, acima de tudo, honra de forma perfeita a trajectória das personagens até então. A resolução é muito rápida, em especial se considerarmos o quanto a procurámos ativamente. Chegado o céu, o homem procura sempre mais. A vida é tão preciosa por conhecermos as suas limitações, e a sua fatídica tendência para terminar.

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Quando é que um ser humano se sente realizado? Ao ponto de não deixar quaisquer assuntos pendentes? As questões às quais o episódio final procura dar resposta são tão difíceis, já as respostas são simples mas eficazes. Dizem-nos muito sobre esperança, evolução, renovação. A espiritualidade e a moral dançam numa corda bamba, e o resultado final é suficientemente amplo para agradar a gregos e troianos.

Uma comédia não convencional, bela, repleta de cor, magia e orientada por uma bússola moral e ética genuína e livre de pretensão, assim foi “The Good Place”. Uma viagem repleta de reviravoltas e contratempos, uma ousada descoberta rumo ao eterno desconhecido. Uma pérola pronta para ser revisitada. 

The Good Place, série completa em análise

Name: The Good Place

Description: Após a morte, a egocêntrica Eleanor Shellstrop chega ao "Good Place" por engano. Decidida a ficar, tenta tornar-se uma pessoa melhor.

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  • Maggie Silva - 88
  • Inês Serra - 90
89

CONCLUSÃO

“The Good Place” é um conteúdo que marca pela diferença. A televisão tradicional norte-americana é atualmente esmagada pelos canais de streaming, especialmente no que diz respeito à qualidade. Michael Schur, depois de dar tantas provas no ramo da comédia, criou “a solo” esta pequena maravilha – situada no sítio imaginário onde a filosofia, a cultura pop e a comédia se encontram.

O MELHOR: Uma série que é tão atual quanto intemporal. “The Good Place” só poderia ter sido realizada no seu tempo. As referências remetem para eventos contemporâneos, e o registo do discurso e a diversidade étnico-racial dizem-nos que o Século XXI modela cada fibra desta comédia. Por outro lado, são atacadas as questões mais complexas e antigas da existência humana. A derradeira dúvida (a morte) e o derradeiro medo (o desconhecido).

O PIOR: Não obstante a sua criatividade atípica, não deixou de se pautar por algum desequilíbrio entre temporadas e até ao longo de cada uma delas. Episódios fortíssimos contrastaram por vezes com alguma repetição desnecessária – muitos “reboots”, mesmo muitas aulas de ética e alguns avanços e recuos narrativos que por vezes se conseguiam tornar extenuantes.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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