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Thor: Amor e Trovão, em análise

“Thor: Amor e Trovão” é apenas a segunda – e provavelmente última – obra cinemática do popular MCU este ano. O regresso de Natalie Portman gerou imensa curiosidade, principalmente pelo surpreendente facto de retornar como Mighty Thor, mas Christian Bale juntar-se como antagonista também aumentou tremendamente as expetativas. Com Taika Waititi novamente no leme, serão Chris Hemsworth e companhia capazes de subir o nível em comparação com “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”?

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Resposta binária: sim. Resposta mais completa: sim, mas tal como muito do conteúdo recente do MCU, não consegue aproveitar todo o seu potencial. “Thor: Amor e Trovão” reduz os números de comédia que, por exemplo, tomaram controlo total do ecrã em “Thor: Ragnarok”, focando-se mais em temas bastante pesados, complexos e sensíveis como saúde/doença, solidão, amor e luto – este último tem sido brilhantemente abordado em todo o conteúdo pós-“Vingadores: Endgame”, sendo claramente o tópico emocional que rodeia toda a Phase Four. O argumento de Waititi e Jennifer Kaytin Robinson deixa-se embrulhar por estes assuntos e é quando o filme se permite ser mais intimista e pessoal que funciona melhor.

Talvez devido às várias linhas de enredo de Thor: Amor e Trovão”, nem todas as personagens e respetivos arcos recebem o desenvolvimento profundo que mereciam. Um exemplo positivo é o paralelismo entre como o herói Thor (Hemsworth) e o vilão Gorr (Bale) lidam com a perda das pessoas que amavam de forma distintamente oposta, mas com pequenos detalhes muito semelhantes. Gorr encontra-se numa fase parecida com Thor a seguir a “Vingadores: Guerra do Infinito”, onde os sentimentos de raiva e vingança estão presentes. Tal como Thor queria matar Thanos para tentar corrigir os erros do passado, Gorr deseja que todos os Deuses desaparecam depois de perceber da pior maneira que a sua devoção religiosa em nada o beneficiou.

Em “Thor: Amor e Trovão”, o personagem epónimo enfrenta um antagonista com motivações compreensivelmente traumáticas e vulneráveis a qualquer tipo de influência. Basicamente, uma versão de si próprio que não conseguiu escapar à espiral emocionalmente negra. No que toca a atores de um só filme (?), Bale entrega uma das melhores prestações dentro do MCU, incorporando de corpo e alma a insanidade que se apodera de Gorr, sendo mesmo o destaque absoluto acima de Hemsworth e Portman. Literalmente, todas as cenas com o ex-Batman demonstram ser os melhores momentos do filme devido à sua presença fascinantemente assustadora e ameaçadora, mas nunca deixando de conter sentimentos bem humanos.

Thor Love and Thunder
©2022 Marvel Studios

Em relação a Hemsworth, Thor tornou-se num papel tão natural que “perfeito” é a palavra ideal para descrever a sua performance. Na minha humilde opinião, é um dos atores mais subvalorizados em Hollywood, com um talento e alcance fenomenal que espero que sejam bem aproveitados num futuro pós-Marvel. Em “Thor: Amor e Trovão”, Thor já se encontra numa fase mais avançada em relação ao luto que o levou a engordar e a fingir que “está tudo bem”. No entanto, o personagem continua com dificuldades em deixar alguém se (re)aproximar dele e ele próprio de outras pessoas, com o intuito de fugir ao sofrimento que viveu e ainda vive. O seu arco de paz interior, procura do amor e aceitação dos eventos da vida tem tanto de cativante como de divertido, mas…

A sua relação com Jane Foster podia e devia ter sido melhor explorada, principalmente do lado da personagem de Portman. A atriz entrega uma excelente prestação, demonstrando que realmente estava com vontade de voltar a interpretar uma personagem que merecia mais tempo de ecrã. Apesar de apreciar o facto de “Thor: Amor e Trovão” não tentar resolver problemas sérios da vida real com simples magia nem fazer piadas sobre o tema em concreto, o tom geral permanece demasiado leviano e a comédia não deixa de estar presente em praticamente todos os outros pontos de enredo. O balanço tonal entre as várias narrativas faz com que o terceiro ato não possua nem uma fração da emoção que supostamente devia poderosamente emanar.

Desde a explicação dos poderes de Mighty Thor concedidos a Jane até ao clímax do filme, o arco da personagem de Portman contém várias decisões criativas bem corajosas, mas simultaneamente divisivas. A ausência da personagem – já lá vão mais de dez anos – também acaba por contribuir negativamente para uma possível desconexão com os espetadores. Em jeito de comparação, até King Valkyrie (Tessa Thompson) e Korg (Waititi) conseguem ter um maior impacto no público. Aproveitando a menção dos mesmos, “Thor: Amor e Trovão” não podia ter acompanhantes secundários mais engraçados. Thompson mantém-se como uma das minhas atrizes secundárias favoritas do MCU, ao passo que Korg nunca perde a sua piada, apesar de já não ser novidade.

Thor Love and Thunder
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A nível técnico, os visuais afastam-se da paleta genérica do MCU, contendo inclusive uma sequência longa a preto-e-branco absolutamente deslumbrante. É aqui que “Thor: Amor e Trovão” entrega uma das melhores sequências de ação de todo o universo cinemático num confronto entusiasmante e elevado pela escolha de cor. É difícil de ignorar a banda sonora única que aproveita o seu ênfase no rock para dar um toque especial aos momentos de ação, apesar de repetir demasiadas músicas ouvidas anteriormente. O primeiro ato é, de longe, o mais consistente. Estabelece todas as personagens, tal como o enredo principal da narrativa e os arcos secundários, tudo de forma eficiente, mantendo um excelente balanço com o humor que, durante este ato, resulta muitíssimo bem.

Infelizmente, o potencial de “Thor: Amor e Trovão” fica por ser alcançado. Pessoalmente, a comédia que me provocou lágrimas de tanto rir no filme anterior não só perde o impacto do passado como afeta severamente os arcos acima descritos. Numa sala cheia, apenas por duas vezes fui capaz de ouvir um riso coletivo, algo tremendamente incomum neste tipo de filmes, especialmente do MCU. A minha desfrutação pode ter sido influenciada pelo silêncio constrangedor do público, mas a verdade é que a vasta maioria das piadas saíram ao lado, principalmente após o início do segundo ato onde o humor segue um rumo pouco criativo.

Uma piada em particular envolvendo um meme bem conhecido é repetida diversas vezes ao longo do tempo de execução, rapidamente tornando-se algo irritante – funcionou duas vezes. O balanço é melhor conseguido em “Thor: Ragnarok”, apesar deste último possuir mais cenas cómicas. A componente emocional de “Thor: Amor e Trovão” é muito mais forte que na obra anterior, logo a comédia constante retira esse mesmo valor emocional que alguns espetadores têm vindo a criticar nos anos mais recentes. O problema não está na comédia em si, mas no facto deste filme possuir um enredo mais dramático que merecia maior atenção.

Thor Love and Thunder
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Em relação à história em si, “Thor: Amor e Trovão” não inova e segue a estrutura e fórmula habituais do estúdio. No entanto, existe um ponto de enredo que prova ser inútil e irrelevante para a narrativa global, sendo meramente uma estratégia de marketing para vender o próximo filme. O objetivo principal dos protagonistas não é cumprido neste desvio e algo que supostamente seria essencial acaba por virar uma espécie de MacGuffin no terceiro ato. A set piece de ação é facilmente esquecível e a interpretação de Russell Crowe vira uma caricatura insuportável, empregando um sotaque tão absurdo que acaba por remover toda a seriedade ao seu personagem, danificando uma eventual presença poderosa em obras futuras.

Finalmente, a ação de “Thor: Amor e Trovão” cumpre os requisitos mínimos. A tal sequência a B&W leva o troféu, o primeiro ato com os Guardians of the Galaxy – como esperado, saem do filme rapidamente – traz bons níveis de entretenimento, mas tudo o que envolve monstros genéricos CGI nascidos de sombras… Entendo a intenção de tentar poupar tempo e dinheiro com “restos” de efeitos visuais, escondendo as imperfeições na escuridão da noite – workaround bem conhecido – mas, infelizmente, a maioria destas cenas tornam-se numa mescla por vezes incompreensível de CGI, onde se torna difícil de perceber o que realmente está a acontecer.

Dito isto, se o leitor tiver desfrutado de “Thor: Ragnarok”, dificilmente não apreciará “Thor: Amor e Trovão”. Dependendo das expetativas e proximidade de cada espetador com determinadas personagens, a opinião irá variar, mas provavelmente terá uma reação positiva.

THOR: AMOR E TROVÃO | DISPONÍVEL NOS CINEMAS A PARTIR DE 6 DE JULHO

Thor: Amor e Trovão, em análise
Thor: Amor e Trovão

Movie title: Thor: Amor e Trovão

Movie description: Thor empreende uma jornada diferente de tudo o que já enfrentou – a procura pela paz interior. Mas a sua reforma é interrompida por um assassino galáctico conhecido como Gorr, o Carniceiro dos Deuses, que procura a extinção de todos os deuses. Para combater a ameaça, Thor pede a ajuda da "Rei Valkiria", de Korg e da ex-namorada Jane Foster como a Poderosa Thor que – para surpresa de Thor – empunha inexplicavelmente o seu martelo mágico, Mjolnir. Juntos, eles embarcam numa angustiante aventura cósmica para descobrir o mistério da vingança do Carniceiro dos Deuses e detê-lo antes que seja tarde demais.

Date published: 6 de July de 2022

Country: EUA

Duration: 119'

Director(s): Taika Waititi

Actor(s): Chris Hemsworth, Christian Bale, Tessa Thompson, Jaimie Alexander, Taika Waititi, Russell Crowe, Natalie Portman

Genre: Ação, Aventura, Comédia

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  • Manuel São Bento - 75
75

CONCLUSÃO

“Thor: Amor e Trovão” possui uma história agridoce sobre encontrar paz e amor no sofrimento e dor, sem esquecer a necessária ação tempestuosa que atinge o seu melhor nível numa sequência longa totalmente envolvida por um preto-e-branco deslumbrante. Christian Bale destaca-se com uma prestação aterrorizadora de um dos melhores vilões recentes do MCU, ao passo que Chris Hemsworth e Natalie Portman partilham excelente química. Visualmente distinto e com uma banda sonora única, o argumento formulaico beneficia imenso quando se foca nos arcos complexos de cada personagem, mas a comédia constante sem o impacto de outrora proíbe uma maior aprofundação e retira valor emocional ao terceiro ato. A ação com monstros CGI genéricos tem problemas previsíveis e um desvio narrativo irrelevante apenas serve de teaser para futuro conteúdo. No geral, Taika Waititi consegue mais um sucesso, mas desta vez, fica aquém do potencial da sua premissa.

Pros

  • Prestações do elenco, principalmente Christian Bale.
  • Gorr: um dos melhores vilões do MCU recente.
  • Toda a sequência a preto-e-branco.
  • Valkyrie e Korg: duo sempre cativante.
  • Paralelismo entre Thor, Gorr e como estes lidam com o luto.
  • Primeiro ato praticamente perfeito.

Cons

  • Argumento formulaico fica aquém do potencial da sua premissa.
  • Arco de Dra. Jane Foster / Mighty Thor merecia mais atenção dramática.
  • Vasta maioria das piadas não resulta, afetando negativamente outros arcos mais emocionais.
  • Dependência excessiva de monstros genéricos CGI para criar ação.
  • Ponto de enredo irrelevante envolvendo Russell Crowe, entre outros.
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Manuel São Bento

Um jovem engenheiro de 28 anos com uma paixão tremenda por cinema, televisão e a arte de filmmaking. Opiniões baseadas numa perspetiva imparcial de quem não vê trailers desde 2016. Membro de associações de críticos internacionais como GFCA, IFSC e OFTA. Aprovado no Banana Meter. Redes sociais através de @msbreviews.

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