Kidman é Anna em Birth, de Jonathan Glazer

TOP Interpretações Nicole Kidman | 2. Birth – O Mistério

                   

Em Birth – O Mistério, Nicole Kidman oferece-nos uma das mais misteriosas e intrigantes performances da sua carreira. E não admira nada que, com isso, a tenha catapultado para o nosso 2º lugar do top.

Normalmente, quando celebramos o trabalho de atores, existe uma tendência a celebrar quem consegue telegrafar a interioridade de uma personagem com claridade e potência. Transparência emocional é recompensada, enquanto opacidade é criticada como uma falha do intérprete. O problema nesta lógica de absolutos é que, por vezes, um filme não precisa de claridade, mas de mistério, de uma muralha escarpada a proteger o âmago de uma personagem e a deixar o espectador na dúvida.

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Nicole Kidman é bem capaz de sugerir universos de emoção com um mero olhar ou minúscula variação do registo vocal, mas algum do seu melhor trabalho nasce do impulso contrário a tais mecanismos. Em “Birth”, uma muito incompreendida obra-prima de Jonathan Glazer, formalismo gélido é a ordem do dia. Kidman, no papel principal de uma viúva confrontada com um menino pré-adolescente que diz ser a reencarnação do seu antigo marido, tem de ser uma cifra e fá-lo com todo o virtuosismo com que noutras ocasiões nos mostrou o coração pulsante de mulheres complicadas.

A sua personagem é um miasma de fragilidades quase infantis em comunhão com as barreiras de uma mulher que fez das suas cicatrizes emocionais uma armadura. Ela é alguém que está sempre fora do alcance do espectador, seus desejos só ocasionalmente se fazem sentir e quando realmente se manifestam é como se a personagem os quisesse voltar e engolir e enterrar bem fundo no seu ser onde mais ninguém os poderá encontrar. Trata-se de uma caracterização construída à base do que não é dito, uma pintura definida pelo espaço negativo onde a tinta não tocou, um exercício sublime em atuação enquanto autoapagamento.

Tudo isto dizemos em celebração deste mais misterioso dos feitos de Nicole Kidman, mas também devemos referir como, num momento crucial, a atriz sabe inverter o seu jogo. Não falamos da infame cena em que a viúva traumatizada dá banho ao menino de 12 anos, mas sim ao mais extraordinário grande plano no cinema do século XXI. Aí, Glazer acorrenta o espectador à expressão da atriz e deixa-nos mirar, sem cortes, sem interrupção, o modo como sua face se transforma ao ouvir o êxtase da ópera. No meio de tanta opacidade, o momento serve como uma explosão nuclear de emoção a ruir a fachada de porcelana com que esta mulher se armou. Bravíssima!

 

                   

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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