Viúvas, em análise

Viúvas” é o primeiro filme de Steve McQueen depois do sucesso de “12 Anos Escravo” e representa uma incursão do cineasta britânico por um panorama de cinema mais comercial, mas não por isso menos sublime que as suas outras obras.

O que é que aconteceu a este mundo, onde o normal agora se faz passar por excelência? Assim pergunta o reverendo afro-americano da maior congregação evangélica do 18º bairro de Chicago. Assim também Steve McQueen, através de “Viúvas”, interroga os seus colegas cineastas, autores de thrillers de ação, histórias de crime e dramas policiais que tantas vezes se reduzem à mediocridade banal e nunca se arriscam a tentar alcançar um panteão superior de excelência cinematográfica. McQueen está pronto a tomar esses riscos, abandonando os seus estudos de personagem severos por um enredo digno de um blockbuster que, no entanto, não mostra qualquer tipo de sacrifício em termos de rigor formalista ou ambição. Assim é “Viúvas”.

Logo na primeira sequência, o realizador demonstra a sua audácia. Aqui violência e paixão andam de mãos dadas, o assalto fracassado que ceifa as vidas dos esposos das viúvas titulares fragmenta-se por entre rasgos de quotidiano, dor e afeto matrimonial. Veronica Rawlings beija Harry, seu marido, na cama de casal e tiros explodem nos nossos ouvidos. Alice lida com mais uma nódoa negra dada pelo seu marido e os ladrões trocam de viatura. Amanda despede-se do marido com um bebé de poucos meses nos braços e as balas da polícia dilaceram a carcaça de uma carrinha transformada em câmara de morte. Linda confronta de novo o marido pelas suas dívidas e uma bola de fogo engole os corpos dos criminosos.

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Uma narrativa de blockbuster filmada com o rigor artístico de uma proposta de festival.

Esta é uma maneira elétrica de dar início a esta adaptação de uma minissérie britânica dos anos 80, agora transposta para os EUA dos nossos dias. McQueen não poupa o espectador e imerge-o imediatamente num mundo de violência imperdoável e dor agonizante. Não há aqui a tensão de um divertimento passageiro nem, por agora, a catarse que dá lugar a suspiros e entretenimento. “Viúvas” não deixa ninguém respirar descansado ou tirar prazer gratuito das suas atrocidades, precipitando imediatamente a sua narrativa para o luto e para as teias de corrupção de uma cidade podre de ganância e amoralidade. Só pausa quando contempla os efeitos deste universo inglório nos seres humanos que têm o infortúnio de o habitar.

Entre torrentes de enredo, Viola Davis canta toda uma ópera de emoção num grande plano de Veronica, a tentar conter as lágrimas antes de ir ao funeral do marido. A construção dessa máscara social estoica está longe de ser o maior dos seus problemas, pois, ainda está ela a perder-se nas memórias espectrais do seu marido, quando alguém lhe vem bater à porta. Há dívidas para pagar, dois milhões de dólares roubados a um criminoso das ruas tornado candidato político. A alternativa ao saldar da dívida é a morte. Bendito seja o aparecimento de um caderno de apontamentos de Harry, pois aí está a chave para a salvação na forma de um assalto a uma misteriosa caixa-forte. Veronica só precisa de uma equipa disposta a perder tudo, tal como ela.

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Tal equipa é, como o título indica, formada pelas outras viúvas dos criminosos chacinados, Alice e Linda, sendo que Amanda se mantém relutante e a esconder segredos bem maiores do que primeiro aparenta. Elas estão desesperadas e os laços de irmandade que forjam são marcados pela certeza que só desgraça as espera em caso de fracasso. McQueen tudo documenta nos seus esquemas, suas manipulações, suas mentiras e uso dos preconceitos sociais para com a sua feminilidade para passar a perna a toda uma patriarquia que se põe entre elas e o dinheiro. Quando o assalto climático ocorre, temos quase duas horas de investimento emocional nos eventos e o resultado é um ataque cardíaco de suspense e temor para o espectador e mais uma façanha de virtuosismo imaculado para McQueen e companhia.

Já muito bom seria este exercício em cinema de crime se as suas ambições se ficassem por um enredo feminista e uma construção cénica formalmente requintada. No entanto, “Viúvas” vai muito mais longe, começando pelo elenco que reúne para dar vida à sua complicada trama. Davis, como já mencionámos, está no seu melhor a interpretar uma mulher pragmática e em aflição, disposta a tudo para se salvar e dominada por uma crescente raiva para com todo o ecossistema de injustiças que lhe pintaram a vida como uma tragédia. Elizabeth Debicki faz de Alice uma figura de constante adaptação, uma especialista em sobrevivência e dissimulação social. Michelle Rodriguez, por outro lado, faz de Linda uma inalterada supernova de furiosa resignação, incapaz de se render ao mundo que a quer derrotar.

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O elenco é sublime, com especial destaque para os esforços assassinos de Daniel Kaluuya.

Só esse trio já tornaria “Viúvas” num dos filmes mais bem interpretados do ano, mas com uma história tão complicada como esta, onde campanhas locais se mesclam com os dramas das viúvas, há muitos mais atores de excelência a referir. Robert Duvall, Colin Farrell, Cynthia Erivo, Carrie Coon, Liam Neeson, Garret Dillahunt, Adepero Oduye, Brian Tyree Henry, Lukas Haas e Jacki Weaver marcam presença e acrescentam cor ao retrato coletivo de um universo doente. Contudo, é Daniel Kaluuya no seu primeiro grande papel depois de “Foge” quem realmente se destaca e quase rouba o filme ao trio de atrizes. Calmo e demoníaco, ele é um assassino que gosta de brincar com as suas vítimas como um gato brinca com a presa antes de a devorar. Só o seu olhar intenso e movimentação calma são suficientes para dar calafrios e pesadelos.

McQueen chega a construir inteiras cenas em volta de Kaluuya, documentando os seus gestos com a câmara em constante rotação, como que um outro predador em cena. Noutras ocasiões, ele prefere fixar a câmara a um carro e excisar montagem, enquanto um diálogo ocorre no interior. Aí, o cineasta usa o seu formalismo para sugerir toda a desigualdade social de um bairro. Ele força o espectador a ponderar a mudança drástica de descampados e casas pobres para a rua de casas ostentosas em que este verme da política vive. O que muitos cineastas precisariam de texto para expressar, McQueen explica com a sua câmara, ora predadora voraz ou observadora indignada.

Tirando a enorme saturação de enredo que, ocasionalmente, dá ao filme o aspeto de uma temporada de televisão enfiada à força num molde cinematográfico de 129 minutos, as ambições sociopolíticas de McQueen são o aspeto mais relativamente frágil e admiravelmente ambicioso do filme. Por um lado, temos sequências como uma morte racialmente motivada às mãos de um polícia, um grito de fúria que praticamente reverbera pelo cinema. Por outro, nem sempre os vários fios narrativos e concetuais coalescem num discurso coerente, especialmente no que se refere à figura de Kaluuya e o candidato que ele serve. Enfim, “Viúvas” pode não ser totalmente perfeito, mas chega mais perto desse patamar do que a maior parte do cinema. Cruel, eficiente e sofisticado, este filme merece uma salva de palmas.

Viúvas, em análise
Viúvas

Movie title: Widows

Date published: 2018-11-17

Director(s): Steve McQueen

Actor(s): Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Cynthia Erivo, Colin Farrell, Brian Tyree Henry, Daniel Kaluuya, Jacki Weaver, Carrie Coon, Robert Duvall, Liam Neeson, Lukas Haas, Garret Dillahunt, Adepero Oduye, Jon Bernthal, Manuel Garcia-Rulfo, Molly Kunz, Matt Walsh

Genre: Crime , Drama, Thriller , 2018, 129 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Rui Ribeiro - 83
  • Luís Telles do Amaral - 65
  • Daniel Rodrigues - 85
  • Inês Serra - 70
  • José Vieira Mendes - 60
  • Catarina Novais - 85
77

CONCLUSÃO:

“Viúvas” é cinema de crime e suspense em forma bombástica e sôfrega. Steve McQueen prova mais uma vez a sua mestria e traz consigo um dos melhores elencos do ano.

O MELHOR: Davis, Debicki, Kaluuya!

O PIOR: A saturação de enredo que dá ao filme uma densidade admirável, mas também sugere que uma escala mais épica teria oferecido maiores oportunidades para desenvolver certas ideias.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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