Pormenor da capa de Welcome to Conceptual Beach (2020)

Young Jesus, Welcome to Conceptual Beach | em análise

Welcome to Conceptual Beach até pode ser um refúgio, mas não permanente. Com o álbum, os Young Jesus incentivam-nos a enfrentar a vida.

Assim classificado pelo próprio John Rossiter, vocalista e guitarrista dos Young Jesus, Conceptual Beach é um local de refúgio. Rossiter até o descreve minuciosamente como “uma linha de costa isolada, esculpida a partir do continente, sem terra ou água a ladear, uma crosta de possibilidade, uma fronteira da cor da lua entre a terra e o mar, conhecido e desconhecido”. Este é o ponto de partida para o álbum Welcome to Conceptual Beach, onde, como o nome indica, temos acesso a este lugar, o refúgio mental de John Rossiter, mas cedo percebemos que não é um local de alheamento. Se, por um lado, o experimentalismo do registo convida a perdermo-nos no instrumental, as letras, por outro lado, falam-nos de amadurecer, enfrentando os demónios e tentações que a vida real nos apresenta.

O álbum abre com “Faith”, uma faixa que reúne todas as principais características de Welcome to Conceptual Beach (e que, de certa forma, faz lembrar LCD Soundsystem na voz de Jeff Buckley). Com referências subtis a episódios bíblicos (um motivo que reaparecerá mais tarde no álbum), a letra da canção impressiona. Mesmo com alguns versos mais intrincados, é fácil perceber que o tema é o processo de crescimento, nem que seja pela repetição final da linha “We just might grow”. Metamorfoseando-se ao longo de sete minutos, “Faith” oferece espaço a todos os músicos do grupo, juntando a um baixo stacatto e uma voz com autotune guitarras que correm livremente e desencontradas com a paisagem envolvente. É logo desde o início que o tema do álbum é exposto: os obstáculos da vida fazem-nos crescer, nomeadamente as dores e tentações que vão sendo superadas.

YOUNG JESUS | “(UN)KNOWING”

Por volta de metade do álbum é-nos apresentada “Root and Crown”, a balada folk que nos vai ficar na cabeça e em loop no Spotify por uns dias. Apesar dos invernos serem necessários ao amadurecimento, Rossiter deixa uma mensagem de perseverança e compromisso para com as flores e cores da primavera (“I know the music of the winter time but to the spring I give my love and life”). Depois da repetição intensa da linha “I wanna be around and live it” no final da faixa anterior “Meditations”, “Root and Crown” abre com a frase “Every record needs a thesis”. Pode-se dizer que o core de Welcome to Conceptual Beach passa precisamente por isso: uma vontade gritante de viver, da forma mais real possível. É também em “Meditations” que, por entre os improvisos com os seus tons de jazz que preenchem o álbum, Rossiter entoa a frase central à mensagem deste registo: “Quite the openness to loss”. Rossiter, dentro do seu refúgio mental, percebe que central para crescer não é a alienação mas superar adversidades.

Conceptual Beach é um local de reflexão sobre o mundo real, mas observamos de fora, envolvidos num ritmo e paisagem diferentes, que nos são comunicados pela coesão sonora do álbum. São várias as faixas que nos convidam a mergulhar nos aspetos sonoros, tanto ou mais a fundo do que nas suas letras. Depois de uma primeira parte onde a melodia calma nos agarra tanto como a componente lírica, chegada a ponte da canção “(un)knowing” é impossível não se deixar embrulhar no turbilhão sonoro. As duas últimas faixas do álbum são compostas maioritariamente por partes instrumentais. No entanto, em “Magicians”, estas estão melhor doseadas do que em “Lark”. Nesta última, aproximando-se o final, os motivos vão-se repetindo, obrigando o ouvinte, gradualmente, a ir deixando de prestar atenção, como se estivesse a ser suavemente transportado do álbum para o mundo real. Em “Magicians” já é diferente.

YOUNG JESUS | “ROOT AND CROWN”

No final da faixa, os motivos sonoros também se vão repetindo, mas nunca se tornam repetitivos, ficando o ouvinte (se dedicado ou já habituado a procurar os detalhes) com a atenção na música. No último verso, a voz vai morrendo, deixando-nos na expectativa; se irá acabar naquele decrescendo ou se, pelo contrário, segue para um forte súbito (pista: não é a primeira opção). Ainda assim, o que não prevíamos de todo era que fosse acabar tão cedo.

Tal como a inaugural “Faith”, “Magicians” também pode ser tomada como uma demonstração do que Welcome to Conceptual Beach tem para oferecer. Nela, os Young Jesus apresentam-nos uma melodia fácil de entrar e agradável de ouvir, representando o lado pop do álbum que já tínhamos sentido em “Pattern Doubt” e, claro, “Faith”. O experimentalismo e o forte destaque dado aos instrumentos é também uma característica que define tanto o álbum como “Magicians”. Por fim, os poemas que servem de letra a estas canções são mais uma marca deste registo. Em “Magicians” talvez seja onde o texto é mais imediato, comparando com as restantes canções. E, ainda assim, é impossível que não fiquemos a refletir nestas letras quando terminado o álbum.

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Em Welcome to Conceptual Beach, os Young Jesus falam-nos de amadurecimento e do quão natural é. Rossiter refugia-se em Conceptual Beach mas cedo percebe que o crescimento faz-se nas batalhas de cada dia, com monstros e dor, e que isto não é algo negativo. Rossiter mantém o seu foco sempre na primavera, sabendo que a mudança faz-se do conjunto de cada um dos dias, como ele põe num dos últimos versos: “You know it, the way you move and the holiness of every single day”.

Young Jesus, Welcome to Conceptual Beach | em análise

By Artist: Young Jesus

Album name: Welcome to Conceptual Beach

Genre: Pós-punk, Jazz rock, Rock experimental

  • Pedro Picoito - 85
85

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