Wonderstruck

Wonderstruck | Uma montra para o génio da figurinista Sandy Powell

Vencedora de três Óscares e detentora de mais nove nomeações, Sandy Powell é uma das figurinistas mais celebradas do cinema contemporâneo. Mesmo assim, “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” provou ser um desafio complicado para a cineasta inglesa.

wonderstruck sandy powell

Devido à influência esmagadora da teoria de autor na cinefilia contemporânea, é raro olhar-se para alguém que não o realizador como uma força criativa cuja visão individual se manifesta no filme. Tal perspetiva, sobre uma arte tão geralmente colaborativa como o cinema, resulta em conclusões redutoras que, a longo curso, nos roubam a oportunidade de olhar para o trabalho de pessoas como diretores de fotografia, cenógrafos e mesmo atores e nele ver o desenvolvimento de uma voz artística. Tais ideias são especialmente aplicáveis a um filme como “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas”, que, apesar de ser claramente um projeto com o cunho pessoal do realizador Todd Haynes, contém em si uma panóplia de outras vozes criativas em preciosa harmonia, entre elas a da figurinista Sandy Powell.

Para quem esteja familiarizado com a carreira de Powell, “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” depressa se revela como uma fascinante anomalia, ou talvez como um passo evolutivo enquanto cineasta. Para começar, o filme marca a primeira vez que Powell trabalha como produtora. Especificamente, foi quando estava a trabalhar com Martin Scorsese na adaptação ao grande ecrã de “A Invenção de Hugo” que Powell conheceu Ben Selznick e se cruzou pela primeira vez com o livro que viria a inspirar este novo filme. Vendo na história ilustrada a perfeita base para um filme, a figurinista convenceu Selznick a escrever um argumento baseado no seu próprio livro. Argumento esse, que Powell levou a Haynes, um realizador com que a figurinista já havia muitas vezes trabalhado.

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É fácil olhar para os trabalhos passados de Powell, como a orgia de estilo glam rock em “Velvet Goldmine”, o pastiche híper colorido dos melodramas dos anos 50 em “Longe do Paraíso”, o fausto isabelino de “A Paixão de Shakespeare”, ou o glamour da Velha Hollywood de “O Aviador”, e supor que “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” representa um capítulo pouco desafiador na sua vida profissional. Tal não podia estar mais longe da verdade, sendo que, não só pelos seus deveres como produtora, o filme propôs a Powell uma série de complicações inéditas. Para começar, temos a divisão da narrativa em duas histórias separadas por 50 anos, assim como a abordagem estilística de Haynes, que filma a Nova Iorque de 1927 como um filme mudo a preto-e-branco e a mesma cidade em 1977 como o cenário de uma fantasia juvenil sob uma constante pátina de ocre alaranjado.

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Se há algo que sempre caracteriza um filme com figurinos assinados por Sandy Powell é o seu uso magistral de contrastes cromáticos, especialmente evidentes no seu amor por padrões coloridos. Em metade de “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas”, Haynes e o diretor de fotografia Ed Lachman roubam a Powell uma das suas ferramentas principais, o que forçou a figurinista a encarar o desenho deste guarda-roupa de um modo inédito. Segundo a própria artista, o processo criativo de Powell começa com escolhas de cores, normalmente com altos níveis de contraste, mas tonalmente harmoniosos. Aqui, tal abordagem provou-se catastrófica, sendo que as usuais escolhas da figurinista, quando drenadas de cor, resultavam em amálgamas de cinzas indefinidas.

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Com isso em mente, Powell concebeu a secção de 1927 da narrativa como um jogo de texturas e padrões, tentando, ao mesmo tempo, evocar a ideia de uma Nova Iorque embriagada pela prosperidade efémera da América pré-Grande Depressão. Quando Rose, a protagonista dessa parte do filme, se aventura pelo distrito financeiro, à sua volta o mundo desdobra-se em figuras masculinas de linhas retas, com fatos listados e pastas de negócios, enquanto as mulheres se passeiam quais casulos de lã rematados a pelo, com chapéus de feltro e uma geral atmosfera de riqueza material. Em direto contraste com isso, para os anos 70, Powell e companhia basearam-se em fotos das ruas da época e tentaram reproduzir uma ideia de caos, tão belo e decadente como sujo e visualmente ruidoso. Se os anos 20 foram uma época de prosperidade e esperança para a Grande Maçã, a década de 70 foi, sob o olhar de Powell, um jardim de subculturas urbanas a florescer num ambiente degradado.

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Estas duas estéticas dançam entre si ao longo de “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas”, mas a sua coreografia metafórica não se constrói somente desses contrastes entre estilos históricos e paletas cromáticas radicalmente diferentes. Há que também ter em conta a relação entre as personagens e o pano de fundo humano vestido por Powell. Veja-se, por exemplo, o modo como a figurinista coloca a pequena Rose e Ben, o herói da história de 1977, em destaque no meio da urbe. Para ela, Sandy Powell escolheu um vestido axadrezado com uma saia pregueada, coberto com um casaco em tons de creme e laranja num corte curto e incomum, mas não incorreto para os anos 20.

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O jogo visual entre a textura listada do casaco e o xadrez do vestido atraem o olho do espectador para Rose, mesmo em planos gerais sem, no entanto, traírem a integridade da sua personagem, uma jovem crescentemente rebelde depois de anos de opressão parental. Também o movimento do seu traje, com o baloiçar da saia pregueada cuja bainha nunca é coberta completamente pelo casaco curto, a destacam no meio dos homens de negócios e casulos femininos da rua nova-iorquina. Se Rose é vestida para se destacar por movimento e ruído visual, Ben ganha o seu protagonismo pelo processo inverso. Usando cores suaves e materiais humildes com pouco contraste tonal entre si, Powell define a figura do rapaz como uma mancha de simplicidade infantil na selva urbana, como que o borrão meio apagado de uma borracha num desenho cheio de padrões coloridos.

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Tal como os dois protagonistas, a maioria das outras personagens de “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” só possui um figurino. A mãe de Ben, cuja morte é a primeira faísca que o lança na sua aventura nova-iorquina, tem apenas como figurino um robe de seda com um estilo nipónico. Num elemento só com motivos gráficos orientais e um design antiquado, Powell tentou sugerir uma vida de gostos meio excêntricos e poucas posses económicas. De modo semelhante, a personagem de Julianne Moore nos anos 70 enverga roupas démodé, mais próximas de estilos dos anos 50, com pormenores meio boémios e bolsos largos que sugerem uma vida passada num atelier.

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A escolha da cor da túnica de Moore também é importante, pois coloca-a em perfeita harmonia com o mundo em seu redor e sua aura calorosa. Ela é uma presença reconfortante, como um sol humano. Por outro lado, quando Moore aparece na secção dos anos 20, na pele de outra personagem, Powell exacerba a sua diferença do mundo em redor. Ela enverga um figurino teatral reminiscente da moda setecentista para ser usado em palco, uma explosão de artifício ostentoso que em nada sugere conforto, ou uma presença maternal. Há que entender que este está longe de ser o guarda-roupa mais vistoso da carreira de Sandy Powell. Isso não significa, no entanto, que não possa, ao mesmo tempo, ser um dos seus melhores, mais subtis e complicados feitos enquanto cineasta.

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Certamente que, para o ano que vem, “Wonderstruck – O Museu das Maravilhas” acabará por entrar na nossa lista dos melhores guarda-roupas de cinema. Entretanto, dá uma olhadela à lista deste ano, se desejares encontrar mais alguns festins visuais do grande ecrã.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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