The Card Counter/©78ºFestival de Veneza

78º Festival de Veneza | The Card Counter

O veterano Paul Schrader, regressou à competição com ‘The Card Counter’. Tal como o seu protagonista, neste filme também o veterano realizador, parece ter-se tornado um jogador metódico, que há cinquenta anos vem descobrindo as suas cartas no grande casino do cinema americano.

O veterano realizador e argumentista norte-americano Paul Schrader não se tem poupado a analisar nos seus filmes, tal como agora em ‘The Card Counter’, a questão da culpa e da expiação, como em No Coração da Escuridão, apresentado aqui em Veneza em 2018 e com excelente interpretação de Ethan Hawke. Schrader já o fez isso em vários filmes, abordando esses temas, tanto nos drama urbanos de Martin Scorsese (‘Taxi Driver’, ‘Beyond Life’) de que é uma espécie de homem-sombra ou mesmo nos seus filmes, desde o duro e lívido ‘Hardcore’ ao glamouroso noir ‘American Gigolo’, passando pelo dolorido ‘The Drug Dealer’, do qual este ‘The Card Counter’, vai buscar muitas referências. Paul Schrader tem sido aliás como realizador um visitante regular da Mostra, pois apresentou aqui ‘The Canyons,’ ‘Affliction’, ‘Estranha Sedução’, este último baseado num dos romances mais fascinantes de Ian McEwan, ambientado numa Veneza misteriosa e elegíaca. ‘The Card Counter’, conta a história de William Tell (Oscar Isaac),  um homem solitário, seco e preciso, que vive num quarto de motel, com os móveis todos forrados. Após a saída da prisão, torna-se num cauteloso e tranquilo jogador profissional de poker e esta é a sua forma de matar o tempo e ganhar dinheiro. Para fazer isso Tell, vai contar com a ajuda de Linda, que, graças aos seus conhecimentos, vai envolver Will nos lucrativos circuitos de jogos de casino. À partida a sua personalidade é quase que uma contradição em relação à maioria dos personagens do cinema de Schrader: quase todos homens e mulheres, atormentados por um conflito interno. Contudo também Tell carrega um pesado fardo do passado: é um ex-militar que torturava os presos de Guantánamo e que não se livrou de uma pena de prisão, embora estivesse a cumprir ordens. A nova e controlada vida de Tell, é então abalada quando conhece o jovem Cirk. Descobrem que têm em comum um indivíduo que lhes é hostil e de quem se querem vingar. E Este é o grande ponto de inflexão, que vai reacender as memórias sombrias deste anti-herói, que procura redimir-se do passado.

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Assente num género clássico, do filme de vingança com conotações de film noir, ‘The Card Counter’ conta ainda com um protagonista peso e um dos mais talentosos e activos atores deste momento histórico do cinema americano: Oscar Isaac. Em Veneza o actor divide-se em três interpretações, entre o cinema de autor de Schrader, ‘Dune’, o blockbuster de ficção científica — para esquecer diga-se — passando pelos 5 episódios da série de televisão, ‘Cenas de um Casamento’, onde se confronta com a pesada e estimulante herança bergmaniana. Neste jogo, as cartas e a mesa são naturalmente uma metáfora e um pretexto para algo muito mais importante e complexo está um elenco soberbo: Willem Dafoe — um ator que tem trabalhado com Schrader, desde que foi argumentista — que interpretou Jesus de ‘A Última Tentação de Cristo’, de Martin Scorcese, a jovem esperança Tye Sheridan (Ready Player One) e a bela Tiffany Haddish, finalmente num papel onde pode demonstrar o seu talento.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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