Na penúltima sessão da Competição Internacional do Curtas Vila do Conde 2021 podemos contar com produções de qualidade, que ora nos levam para dramas emotivos, ora chamam a nossa a atenção para problemas sociais.
Nesta análise poderão encontrar a animação suíça “Le Journal de Darwin” de Georges Schwizgebel, o documentário americano “Buried News” de Bill Morrison e as ficções belga e francesa “L’enfant Salamandre” de Théo Dégen e “A Questo Punto” de Pablo Cotten e Joseph Rozé.
A Questo Punto

“we meet in the winter and break up in the summer.”
Uma paixão imediata, um encontro marcante, um twist cruel e um coração partido. Em apenas 20 minutos esta curta conta-nos uma história simples mas completa, que nos acompanha mesmo após os créditos terminarem.
A cinematografia sem filtros aliada à música faz-nos lembrar os anos 90, e por outro lado também é mais real ao presente e revela-nos autenticidade ao invés de fantasia.
Pablo Cotten e Joseph Rozé estreiam-se na realização com esta curta-metragem e criam algumas ondas no género de romance simplista e genuíno. Andranic Manet (“Eiffel”, “Mes provinciales”) e Edwina Zajdermann (“Mon bébé”, “Speakerine”) protagonizam nesta curta-metragem. E a Tabo tabo films ficou ao encargo da produção.
Classificação: 70/100
Buried News

“Buried News” leva-nos numa viagem do passado ao presente, e sentimo-nos como se estivéssemos a folhear um livro de recortes de um jornal.
Com produção da Hypnotic Pictures o premiado realizador americano Bill Morrison é um importante nome no Festival de Vila do Conde, tendo em 2016 o Curtas co-produzido o seu filme “O Sonho do Estivador”. Nesta curta Morrison regressa às imagens de arquivo que encontrou em Dawson City e que deram origem a um dos seus trabalhos mais conhecidos, “Dawson City: Frozen Time”.
Inserido no crescente movimento Black Lives Matter e na tumultuosa era Trump nos EUA, “Buried News” retrocede umas décadas para recordar que os problemas raciais, de direitos humanos e o egocêntrico e violento ímpeto de fazer justiça pelas próprias mãos são problemas enraizados que existem praticamente desde a fundação da chamada “terra da liberdade”.
Se no 2º vídeo temos um exemplo das tantas marchas que marcaram a luta pela igualdade e liberdade nos EUA, sendo uma das mais famosas a marcha de Selma a Montgomery liderada por James Bevel, Hosea Williams, Martin Luther King Jr. e John Lewis, já a 3ª narrativa lembra a personagem de Atticus Finch no livro “To Kill a Mockingbird”. A última história assim como as imagens dos créditos fundem-se numa moral que pode ser resumida pela famosa frase “Quem não aprende com o passado vive preso a ele.”
A banda sonora com as músicas “Testimony” composta por Charlton Singleton e “Little Black Book” composta por Jlin é uma peça do puzzle que encaixa na perfeição com as imagens que assistimos.
Classificação: 84/100
Le Journal de Darwin

Sem falas e numa rápida sequência de animações (utilizando técnicas de pintura e de animação 2D), a curta usa a Viagem de Darwin no Beagle (“A Viagem do Beagle”, 1839) para de uma forma livre nos contar uma crua verdade, que se passou no fundo da história principal de Darwin.
A mancha do colonialismo é aqui recordada, estando patente toda a arrogância da imposição da chamada “civilização” aos povos nativos. O rapto, a doutrinação e a chacina dos habitantes da Terra do Fogo é uma versão sem o final feliz que ocorre na “Pocahontas”.
O realizador de cinema de animação suíço, Georges Schwizgebel, é já uma referência na animação contemporânea e tem marcado presença regular no Festival Curtas Vila do Conde. Com mais de 20 filmes realizados, uma das suas obras mais conhecidas é o filme de animação pintada em vidro de 2004, “L’Homme sans ombre” (O Homem Sem Sombra) que ganhou vários prémios.
Classificação 76/100
L’enfant Salamandre

“Once upon a time, there was an invisible world.”
Théo Dégen é um estreante no Curtas e um realizador pouco ou nada conhecido, tendo em 2019 realizado “L’isola dei sogni”, mas o cineasta belga é um nome a apontar e cujo futuro promete e merece ser seguido. A produção foi uma colaboração entre a INSAS e a L’atelier de réalisation.
O humor e a estranheza desta curta-metragem assemelham-se um pouco ao estilo da série “The End of the F***ing World”. Por vezes ficamos sem saber se havemos de rir ou chorar, mas o estímulo para continuar a assistir e saber mais está sempre presente. A realidade, a ficção ou a fantasia não se distinguem bem em “L’enfant Salamandre”, mas esse é um dos seus encantos, a narrativa é tanto para ser vista como sentida e não tanto compreendida. O novato ator Florian Villez tem um papel sólido como protagonista e apresenta potencial que se espera que seja aproveitado.
Classificação 75/100
A programação acima teve estreia no dia 23 de Julho, domingo, pelas 19h30, na Sala 1 do Teatro Municipal de Vila do Conde. Haverá exibições também no Cinema Trindade no Porto e no Cinema Ideal em Lisboa. O Festival Curtas Vila do Conde 2021 decorre até dia 25 de Julho. As sessões também podem ser vistas online recorrendo ao “Online Pass Curtas“.
