MONSTRA 2026 | Terroranim, em análise
A MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa está de volta à capital entre os dias 12 e 22 de março para aquela que é a sua 25.ª edição. Na sexta-feira 13, como veio mesmo a calhar, foi exibida a sessão Terroranim, dedicada ao melhor da animação com cunho de terror e sobrenatural.
Como é já hábito nesta sessão que é programada na MONSTRA ano após ano (e que temos já a tradição de acompanhar), as 8 curtas exibidas apresentam temáticas, estilos visuais e proveniências geográficas completamente díspares, criando uma experiência de sala única e prazerosa. Deixamos algumas impressões acerca dos filmes vistos.
1 – Closing Hour (Países Baixos, Tim Smink, 9′)

Pontuação: 68/100
“Mia, uma assistente de loja, trabalha sozinha numa bomba de gasolina, quando recebe uma visita do seu velho namorado, Damon. O seu encontro tenso é interrompido quando Damon foge para a casa-de-banho após ver algo na rua. Mia verifica as câmaras de segurança e vê uma figura mascarada armada, que faz com que ela se esconda. Mas na realidade, esta figura mascarada está à caça de um monstro…”
Com um estilo de animação 2D digital interessantíssimo e uma excelente caracterização das criaturas grotescas que aparecem no grande ecrã, “Closing Hour” é um dos destaques evidentes desta sessão de TerrorAnim na MONSTRA. Foi também o filme escolhido para a inaugurar.
A construção de tensão é outro trunfo evidente da obra, embora na nossa opinião a história careça de algum contexto e aprofundamento para que o seu arco narrativo atinja o verdadeiro potencial.
Antes de chegar ao Festival de Animação de Lisboa, o filme passou pelo Netherlands Film Festival, como parte da Competição de Estudantes. Foi ainda nomeado ao EY Talent Award em 2025, premiação que distingue talento emergente na realização. Sendo esta a primeira entrada na filmografia de Tim Smink, não deixamos de antecipar o que aí vem na sua carreira.
2 – Bread Will Walk (Canadá, Alex Boya, 12′)

Pontuação: 90/100
“Uma irmã dedicada corre para salvar o seu irmão mais novo, um pedaço de pão zombie. Uma multidão de vivos esfomeados persegue-os de boca aberta. As ruas transformam-se em labirintos, a racionalidade desmorona. Poderá o amor fazer frente ao apetite?”
Do Canadá chega à MONSTRA uma curta-metragem que nos encantou em todos os sentidos – do seu conceito algo tosco mas puramente criativo, ao seu nome sugestivo, passando pelo estilo de animação. E se uma mutação genética fizesse com que as pessoas se transformassem em zombies não violentos feitos de pão? E se fossem antes os seres humanos a atacar e devotar esses pães zombie? A premissa de “Bread Will Walk” é tão hilariante quanto distópica e também largamente inovadora devido à sua inversão de expectativas.
Com uma resolução macabra que vem mesmo a calhar no caso de uma sessão como o TerrorAnim, “Bread Will Walk” enche-nos também as medidas, como mencionado, devido ao seu estilo de animação apelativo e que combina múltiplas técnicas tal como desenho à mão, 2D digital ou ainda colagens.
A animação aqui empregue associa técnicas tradicionais a outras mais contemporâneas, numa mescla perfeita. Além disso, o filme de Boya tem uma veia verdadeiramente autoral, casando surrealismo com humor e uma estética quase artesanal.
Como prova do sucesso desta curta, “Bread Will Walk” passou por dois dos locais com maior prestígio no mundo do cinema: foi exibida e competiu no Festival de Cannes e esteve também na competição em Annecy – o mais afamado festival de animação do mundo.
3 – God is Shy (França, Jocelyn Charles, 16′)

Pontuação: 60/100
“Durante uma viagem de comboio, Ariel e Paul passam o tempo a desenhar os seus maiores medos. Este jogo toma um rumo inesperado quando Gilda, uma passageira misteriosa, se intromete – a sua relação com o medo parece muito menos inocente do que os desenhos divertidos de Ariel e Paul.”
Dois ilustradores deslocam-se num comboio e vão desenhando os seus maiores medos, enquanto especulam acerca de quais são os potenciais terrores da sua existência. Uma senhora de idade senta-se junto deles e depressa precipita a personalização desses mesmos receios, à medida que a insanidade e o caos vão galopando ao longo da curta.
“God is Shy” é uma história complexa, pesada, com conotações religiosas fortes como o seu nome deixa desde logo transparecer. O seu maior pecado é que o arranque da história é muito mais interessante do que a conclusão. Enquanto a ação inicial se passa no mundo da especulação, há uma qualidade quase lírica que acaba por se perder pelo caminho.
Quanto ao estilo de animação, não há nada de particularmente interessante ou memorável no 2D empregue. E não obstante a nossa desilusão com a progressão da curta, a verdade é que a obra de Jocelyn Charles tem tido uma rota de festivais muito proveitosa e que incluiu o Festival de Cannes. Além disso, foi indicada para Melhor Curta de Animação nos César – os prémios da Academia Francesa de Cinema.
4 – My Little Space (Coreia do Sul, Seungmin Han, 8′)

Pontuação: 80/100
“Os irmãos inseto, que sempre viveram esfomeados no ramo mais baixo da árvore, provam sangue e, lentamente, caem no abismo da ruína. Nunca mais ficarão verdadeiramente satisfeitos.”
Da Coreia do Sul chega-nos uma curta onde a narrativa é subjugada ao puro caos e à experiência sensorial. E que alegria é vivenciar esta invulgar experiência, cunhada a partir do ponto de vista inesperado de formigas sedentas de sangue.
“My Little Space” é exatamente o que uma curta de animação deve ser – uma explosão de pura criatividade que nos dá tudo o que a imagem real nunca seria capaz de representar. A música, a dança, a coreografia insana dos insectos. Tudo é cativante e hipnótico nesta curta.
5 – Luz Diabla (Argentina, Gervasio Canda, 12′)

Pontuação: 66/100
“Martín, um raver urbano e extravagante, vê-se envolvido num acidente estranho a caminho de uma festa, no meio das Pampas argentinas. Depois de encontrar refúgio numa mercearia misteriosa, albergado por dois locais, a paranóia de Martín começa a instalar-se. À medida que as horas passam, a sua perceção começa a alterar-se, desencadeando visões perturbadoras que levarão ao seu confronto com forças sobrenaturais, que se escondem no breu da noite.”
“Luz Diabla” oferece-nos o que fica a faltar muitas vezes no formato da curta: uma história coesa, com princípio meio e fim. Dá-nos também um interessante jogo de contrastes entre o nosso protagonista Martin e as personagens com as quais se vai encontrar durante a sua jornada rumo ao sobrenatural.
Uma curta com uma tensão de cortar à faca e uma atmosfera de medo, “Luz Diabla” brilha mais alto no decurso da sua sequência de sonho. Aqui, o nosso protagonista entrega-se à sua verdadeira catedral, a discoteca e a música eletrónica e temos direito a contemplar nesse momento alguns dos instantes mais bem criados da obra. Em particular devido à justaposição muito improvável entre cultura de rave, folklore argentino e terror.
A curta-metragem, estreada no Sundance Film Festival, permite, aliás, que o terror folclórico seja reinventado com recurso a uma estética moderna e queer. Por esta associação improvável de elementos, saudamos a sua criatividade.
6 – Entredentes (Portugal, Sofia Carmona, 4′)

Pontuação: 78/100
“Daniel, atormentado por uma dor de dentes, encontra-se num novo pesadelo quando a nova clínica dentária que visita se revela não ser exatamente o que parece.”
“Entredentes” é uma entrada abençoada neste Terroranim da MONSTRA 2026, devido ao seu humor negro particular, animação apelativa e acima de tudo por se tratar de uma curta portuguesa.
A pequena obra da autoria de Sofia Carmona é incómoda, sangrenta, repleta de pequenos elementos bizarros sedutores. O seu conceito é vencedor, mas infelizmente os quatro minutos de duração não nos enchem as medidas. O seu potencial é substancial, já a execução peca pela brevidade.
O ponto de partida da obra é também muito interessante: “Quando vamos ao dentista, para onde vão os nossos dentes?”. “Entredentes” pega nesta pergunta tão simples, tão inocente, quiçá até infantil, tornando-a numa reflexão onde a imaginação se liberta.
7 – Sisowath Quay (França, François Leroy, 16′)

Pontuação: 65/100
“Phnom Penh, Camboja. Nakry e Sothear encontram-se no cais de Sisowath para o seu primeiro encontro. Ao anoitecer, o romance torna-se num pesadelo quando a jovem rapariga se transforma numa estranha criatura…”
Uma curta francesa que se desenrola no Cambodja, “Sisowath Quay” é uma obra trespassante, repleta de sofrimento e onde o folclore é apresentado com verdadeiros laivos de terror. Destaca-se a sua atmosfera, sempre aterradora, bem como o estilo visual híbrido que cruza na perfeição rotoscopia e animação computarizada.
O folclore do Sudeste Asiático está aqui em destaque, com um género de terror profundamente alegórico . Ao longo da curta perdura uma sensação de estranheza e inquietação que se estende a todo o ambiente urbano. É neste cruzamento que se faz “Sisowath Quay” , no encontro entre o horror, o romance, o folclore e a cultura urbana asiática.
8 – DUCKS (Reino Unido, AJ Jefferies, 5′)

Pontuação: 78/100
“Um dia perfeitamente normal num parque…”
“Ducks” fechou na perfeição esta sessão de Terroranim na MONSTRA no ano de 2026. Embora a animação 3D digital empregue não seja de todo a mais empolgante entre o conjunto dos filmes, o seu conceito mais que compensa.
Como muitas das grandes curtas, “Ducks” baseia-se numa premissa simples e executa-a com brevidade e de forma incisiva. Aqui, especificamente, transmite-se o conceito de não alimentar os patos que vemos nos parques públicos. Quanto às consequências desse acto, são hilárias, improváveis, casando incómodo e estranheza com genuíno humor.
A curta é direta, concisa, conseguindo fazer muito com os seus meros cinco minutos de duração. O macabro é bem-vindo neste pequeno filme com um sentido perfeito de timing.
Desse lado, estás a planear visitar o Festival de Animação de Lisboa na sua 25.ª edição? Cá estaremos, até dia 22, com a nossa cobertura!

