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O Drama: Casar ou cancelar numa comédia romântica que devia vir com botão de emergência

Zendaya e Robert Pattinson entram no altar… e saem directos para uma terapia colectiva em “O Drama”, um filme que está a dividir a América e a reinventar — à bomba — a ideia de amor moderno.

“O Drama” não é apenas um filme ou uma comédia romântica com duas grandes estrelas do momento: é um pequeno incêndio emocional, mais uma vez produzido pela prolífica A24 e assinado pelo norueguês Kristoffer Borgli, um homem que olha para o desconforto humano como quem olha para um buffet livre e se serve generosamente. Se viu “Farta de Mim Mesma” (2022) ou “O Homem dos Teus Sonhos”, com Nicolas Cage, exibido no IndieLisboa 2024, já sabe ao que vem: Borgli não faz filmes, faz experiências sociais com atores famosos e espectadores indefesos.

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Pega em algo aparentemente banal — um relacionamento, um ego inflado, um sonho — e empurra-o até ao ponto em que começa a cheirar mal. E depois filma isso com um sorriso norueguês, frio, quase clínico, como se dissesse: “Vejam lá o que vocês são quando ninguém está a ver.” Desta vez, decidiu pegar na mais sagrada das instituições contemporâneas — o casamento — e transformá-lo num campo de tensão moral.

O amor em modo “e se eu te contasse tudo?”

A premissa é simples, o que é sempre suspeito: dois noivos, prestes a casar, jogam um daqueles jogos de mesa que ninguém devia levar a sério, “qual foi a pior coisa que já fizeste?”. E aqui, caro leitor, tudo muda. Não vamos estragar a surpresa. Até porque o próprio filme vive disso: do momento em que o chão desaparece debaixo dos pés e percebemos que estamos a ver outra coisa completamente diferente.

Uma comédia romântica? Sim. Mas há também um thriller emocional, um estudo sobre empatia e, sobretudo, um teste de resistência: até onde conseguimos amar alguém depois de saber quem essa pessoa foi antes? É aqui que Zendaya faz aquilo que poucos esperavam: pega na sua imagem de “queridinha da América” e torce-a com delicadeza cirúrgica. Não é uma transformação óbvia. É pior. É subtil. É aquele tipo de interpretação que nos obriga a desconfiar do sorriso, a ler os silêncios, a perceber que talvez — só talvez — o amor seja uma construção muito mais frágil do que gostaríamos de admitir.
E depois há Robert Pattinson, que já não tem qualquer interesse em ser normal. E ainda bem. O seu noivo neurótico, desajeitado e progressivamente em colapso é um dos grandes espectáculos do filme. Pattinson não interpreta um homem em crise; interpreta a própria ideia de crise e aquela sensação de que estamos a perder o controlo enquanto fingimos que está tudo bem. É desconfortável. É hilariante. É quase doloroso.

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Uma comédia romântica… sem romance (e com demasiada verdade)

O mais fascinante em “O Drama” é que percebe uma coisa que Hollywood tem evitado durante décadas: as comédias românticas mentiram-nos. Disseram-nos que o amor era feito de encontros fofinhos, mal-entendidos e reconciliações ao som de música indie ou romântica. Borgli vem dizer: não, meus amigos, o amor é sobre informação. Sobre o que sabemos e, pior ainda, sobre o que descobrimos tarde demais. E é aqui que o filme se torna perigoso.

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Porque não estamos apenas a ver um casal em crise. Estamos a rever todas as nossas relações. Todos os segredos. Todas as versões editadas de nós próprios que apresentamos aos outros. Quem nunca fez uma pequena edição da verdade num primeiro encontro? Quem nunca omitiu um episódio menos glorioso? Agora imagine que tudo isso vem à superfície…a uma semana do casamento. Pois.

A polémica americana: quando o cinema toca no nervo

Claro que um filme assim não podia passar despercebido nos EUA, quanto mais não fosse por juntar Pattinson e Zendaya. A reacção foi imediata, sobretudo devido à natureza da revelação que desencadeia o colapso narrativo. Sem entrar em detalhes, digamos apenas que toca num dos maiores traumas colectivos da sociedade americana contemporânea. E isso levanta uma questão interessante: pode uma comédia — mesmo que sombria — abordar temas que a própria realidade ainda não conseguiu digerir? Para alguns, a resposta é não. Para outros, é precisamente aí que o cinema deve entrar.

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Recorde-se que “Elephant” (2003), de Gus Van Sant, ou “Bowling for Columbine” (2002), de Michael Moore, já tinham feito algo semelhante, cada um à sua maneira, embora sem o humor ácido de Borgli. Mas aqui está o truque: “O Drama” não está interessado em provocar pelo choque. Está interessado em provocar pelo desconforto. E há uma diferença enorme. O filme não nos pede que ríamos do tema. Pede-nos que ríamos de nós — da nossa incapacidade de lidar com ele.

Zendaya e Robert Pattinson em The Drama
© 2026 – A24

O cinema do constrangimento (ou como sair da sala a rever a vida)

Há uma expressão inglesa perfeita para isto: cringe. Aquela sensação de vergonha alheia que nos faz encolher na cadeira. Borgli transforma isso numa estética. As cenas sucedem-se como pequenos acidentes sociais: jantares que correm mal, ensaios de casamento que parecem interrogatórios, conversas que começam banais e acabam em abismos existenciais.

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É como ver um acidente de carro em câmara lenta: queremos desviar o olhar, mas não conseguimos. E, no meio disso tudo, há ainda humor. Muito humor. Mas não aquele humor confortável, de gargalhada fácil. É um humor que dói um bocadinho. Que nos faz rir e pensar: “isto é engraçado… mas também sou eu.”

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O amor depois da verdade

No fim — ou melhor, ao longo do filme — a grande questão não é se “eles vão casar?”. Isso é irrelevante. A verdadeira pergunta é: o que fazemos com a verdade? Vivemos numa época obcecada com autenticidade, transparência, com “sermos nós próprios”. Mas “O Drama” sugere algo desconfortável: talvez não queiramos mesmo saber tudo. Talvez o amor dependa, em parte, de uma certa ilusão cuidadosamente mantida.

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E é aqui que Borgli dá o golpe final: não oferece respostas. Oferece um espelho. Um espelho torto e deformado, claro, mas ainda assim um espelho. “O Drama” é um filme provocador, irregular, por vezes irritante, mas nunca, em momento algum, indiferente ou banal, muito longe de fórmulas como “Os Fura-Casamentos” (2005). Se quiser uma comédia romântica clássica, talvez seja melhor rever “Notting Hill” (1999). Se quiser um filme que o faça rir, encolher-se, pensar e, quem sabe, mandar uma mensagem estranha ao seu parceiro depois da sessão… então este é obrigatório. Porque, no fim de contas, como parece sugerir Kristoffer Borgli: o verdadeiro drama não é o que fizemos. É aquilo que alguém descobre sobre nós, demasiado tarde. A não perder (mesmo que doa).

JVM

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