"Mulheres de Abril" | © Madame Filmes

IndieLisboa ’26 | Mulheres de Abril, a Crítica

Este ano, celebraram-se 52 anos desde o 25 de Abril de 1974, mas quem supuser que a Revolução dos Cravos é coisa do passado está muito equivocado. Os valores de Abril perduram, mesmo quando em risco, ameaçados por forças políticas e populares que tentam menorizá-los, quiçá numa tentativa de promover o esquecimento e, por consequência, a nostalgia de um passado idealizado que em nada corresponde à realidade. Perante isto, a memória torna-se uma arma política e uma necessidade social. A luta continua e a melhor maneira de fazê-la vingar é valorizar aqueles que lutam desde os tempos do Estado Novo.

O novo projeto de Raquel Freire surge no meio deste dilema, manifestando-se contra o esquecimento sob a forma do testemunho de quem ainda se recorda. Nomeadamente, as mulheres que fizeram a revolução e a quem, muitas vezes, a História oficial ignora em prol da celebração de mais uns tantos homens heroicos. Para quem só conheça a cineasta pela violência dramática de “Rasganço,” o documentário poderá parecer algo estranho. Contudo, trata-se de uma continuação de intenções artísticas e ativistas já patentes em “Dreamocracy” e nas “Mulheres do Meu País,” estreados em 2014 e 2020 respetivamente.

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Longe de começar com alguma filmagem de arquivo, algum vislumbre do passado, esta nova fita inicia-se num registo quotidiano, simplesmente observando algumas das suas sujeitas documentais enquanto caminham junto ao mar. São elas uma coletânea de nomes sonantes e de outros mais desconhecidos, tanto em Portugal como nas antigas colónias. Afinal, convém reforçar que não haveria Revolução de Abril sem as revoltas anticoloniais e que a história da nossa liberdade teve início em África. Nesta pluralidade, “Mulheres de Abril” evita conclusões monolíticas sobre as figuras que procura homenagear, seu tempo, sua luta.

Também foge àquele erro típico do discurso feminista mainstream e confronta, diretamente, a interseção entre misoginia e racismo, especialmente no contexto de um império colonial como o de Portugal. Essa sagacidade não significa que o documentário se desenrole como palestra ou que se estruture como alguma tese, algum tratado académico ou simpósio panfletário. Aliás, mais do que entrevistas, estas intervenções entre a realizadora e as revolucionárias e, por conseguinte, entre a audiência e seu passado coletivo, surgem como conversas. Não há nenhuma daquela teatralidade do estúdio, do vácuo, de uma black box desligada do mundo.

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À conversa com as revolucionárias de Abril.

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© Madame Filmes

Toda a encenação busca esse nível de intimidade, até mesmo a sonoplastia, com ênfase nos sons de fundo, no jardim que canta sua canção enquanto Margarida Tengarrinha fala de sua juventude, entre muitos outros exemplos. Desse jeito, conseguimos momentos como a partilha da história de ter sido castigada na escola por dizer a verdade, por ser livre. Nessa tarde de punição, a menina não se sentia triste. Pelo contrário, estava feliz e essa felicidade ressoa na memória e agora no cinema, também na nação que superou a ditadura e, oxalá, nunca a ela regresse. Há aqui uma cumplicidade dependente da palavra e reforçada pela forma cinematográfica.

Outras escolhas de Freire merecem reconhecimento. Os grandes planos mais extremos formam imagens belíssimas, a face das revolucionárias convertida em paisagem da alma portuguesa. Pensemos ainda nas fotos de arquivo, raramente apresentadas com scans. Em vez disso, tendem a surgir através do olhar da câmara ao ombro, ligeiramente instável e volátil, mais pessoal que num registo formal. Nem sempre isto ocorre, mas confere uma dimensionalidade inesperada à fita. Então, quando são filmagens de fotos emolduradas, sente-se a profunda intersecção entre o pessoal e o político, essas ideias indissociáveis que muitos insistem em separar.

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Nem a situação de entrevista ou de conversa, nem os modelos de produção escolhidos por Freira reúnem estas mulheres no mesmo espaço. Contudo, há momentos de sinergia onde a montagem as une, como quando vemos três senhoras separadas no cabeleireiro. Algumas nem estão em Portugal continental. Contudo, neste momento, o cinema proporciona a comunhão da gente. “Mulheres de Abril,” enquanto exercício, é muito sobre esse sentido de comunhão que pode surgir tanto dentro do engenho cinematográfico como na experiência de ver um filme, a coletividade de uma audiência reunida para ver o ecrã iluminar-se numa sala escura e partilhar algo maior que si.

De facto, sem dramatizações ou outros artifícios, o filme consegue fazer-nos ver um thriller na nossa mente e sentir as emoções intensas de uma aventura de espionagem. Bastam as palavras destas mulheres, a convicção patente em cada verdade proferida. Consideremos a descrição de uma cena inquietante, explosiva até, quando Julieta Rocha, esposa de um pescador, viu o marido e os colegas presos pelo simples crime de se organizarem para falar com os patrões sobre o salário. Qualquer ameaça de sindicalização era punida. Quando as famílias vieram reclamar a detenção, nossa testemunha fala de pousar o filho de três anos no chão e avançar contra a PIDE.

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A memória é arma política e dever civil.

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© Madame FIlmes

Foi nesse dia que levou a primeira investida com o cunho da pistola, evento que deixou uma cicatriz que ainda se vê hoje. Ela fala dos três dias passados em vitimização da tortura e do interrogamento, a mortificação do corpo, o peito em sangue e ser assim forçada a limpar o estrume dos cavalos dos agentes. Essa visceralidade manifesta-se tanto no recontar de violência direta como indireta. Penso na materialidade e no impacto específico da legislação que ignora as necessidades e autonomia das mulheres. Abortos improvisados com agulhas e vinho quente e pé de salsa, dores que não se esquecem e as indignidades de tentar impedir a gravidez com métodos que causavam infeção.

Outras histórias apontam para como recensear-se para votar era visto como um ato criminoso aos olhos do regime. Os partidos em oposição viviam na clandestinidade, nascidos entre o corpo estudantil em Lisboa. O espírito revolucionário continua a arder no coração destas mulheres cujas convicções não acalentaram com a idade. Nada dessa baboseira sobre a velhice nos tornar mais conservadores. “A mulher deixou de ser o repouso do guerreiro para ser guerreiro também” dizia Isabel do Carmo, recordando-se as palavras de revolta como uma das primeiras raparigas a fazer discurso no pódio dos protestos estudantis. Hoje em dia, continua a ser guerreira.

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Haverá também alguma nota amarga pelo meio, boa dose de realismo em oposição a quem queira idealizar em demasia o processo que viu Portugal livrar-se dos seus opressores. Veja-se como as revolucionárias falam sobre como o interesse do português comum em pôr fim à guerra colonial, não se devia a razões ideológicas ou por reconhecer a causa e humanidade dos povos colonizados. Não, a razão eram os preços altos, o custo direto do esforço bélico no seu quotidiano. Isto cria um enorme contraste com as revolucionárias africanas, como Maria Teresa Loff Fernandes, como aquelas que ajudaram a pôr bombas debaixo de um carro da PIDE na Praça do Império e fizeram frente ao regime com fogo, suor e sangue.

Dando um passo atrás neste grande elogio, convém reconhecer algumas fragilidades. É certo que o registo conversacional acaba por resultar numa certa amorfia estrutural, uma falta de ritmo que pode frustrar espectadores e macular um pouco a qualidade do documentário enquanto objeto artístico. Contudo, não há como negar o valor do que aqui é dito, seu valor. Esta partilha sente-se essencial como uma conversa intergeracional por meio do cinema. Não querendo reduzir “Mulheres de Abril” a uma ferramenta educativa, este é o tipo de filme que deveria vir a ser incluído em currículos escolares.

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“Mulheres de Abril” termina com palavras destas heroínas sobre a necessidade de continuar a luta e a melancolia dessa luta ainda ser necessária. Sabemos que estas revolucionárias agora veem o retorno de forças populistas de direita e a nostalgia pelo fascismo doem. Ainda dói mais quando vemos que algumas das testemunhas aqui retratadas já morreram, deixando-nos nos últimos anos. O filme é dedicado a elas. “Tempos que foram e não voltam” – será? Hoje em dia, isso parece um otimismo sem fundamento, empolgado pela esperança, mas posto em dúvida pela razão. Por isso lutamos e perpetuamos o legado destas mulheres. 25 de Abril para sempre! Fascismo nunca mais!

Mulheres de Abril

Conclusão:

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Sem contrariar a convenção do género cinematográfico, “Mulheres de Abril” é um documentário precioso que afigura o ato de lembrar e preservar a memória como uma arma política e um suprassumo dever civil. Raquel Freire usa o seu engenho para criar noções de intimidade entre gerações e tempos, tentando comunicar as mensagens das revolucionárias de ontem para sensibilizar os cidadãos de hoje e os de amanhã. A luta continua e, no IndieLisboa, a luta passa pelo cinema.

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