Virginie Efira, directora de um lar de idosos nos arredores de Paris. ©Soudain

Em “Soudain”, o realizador japonês Ryūsuke Hamaguchi troca a estrada de “Drive My Car” por um lar de idosos nos arredores de Paris e assina um dos filmes mais delicados, políticos e emocionantes da Competição. A Palma de Ouro ainda vai no adro, mas já tem aqui uma candidatura muito séria.

“Soudain”, de Ryūsuke Hamaguchi, é um filme que chegou à sala de cinema, entrou devagar. Sentou-se. Olhou-nos nos olhos. Começou a falar. E, quando damos por nós, estamos dentro de um filme de quase três horas e meia sobre velhice, morte, amizade, cuidado, capitalismo, tradução, teatro, demência, ternura e essa coisa cada vez mais rara chamada atenção ao outro. Dito assim, parece quase insuportável. Um simpósio com boa fotografia? Uma sessão de formação para almas sensíveis? Uma longa-metragem sobre a necessidade de sermos melhores pessoas, que é precisamente o género de frase que costuma fazer fugir qualquer espectador com instinto de sobrevivência? Mas Hamaguchi é Hamaguchi. E quando Hamaguchi põe duas pessoas a conversar, a conversa deixa de ser conversa: passa a ser acção, conflito, vertigem, revelação, viagem e sobretudo sensibilidade e humanidade.

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Quando Cannes se cala

O filme acompanha Marie-Lou, interpretada por Virginie Efira, directora de um lar de idosos nos arredores de Paris. Marie-Lou não administra apenas camas, turnos, medicamentos e funcionários exaustos. Tenta defender uma ideia simples, quase escandalosa: os velhos são pessoas. Convém repeti-lo, porque o mundo moderno, sempre tão ocupado com inovação, inteligência artificial, produtividade e outras palavras que dão jeito em conferências, parece esquecer-se frequentemente desse detalhe. No lar, Marie-Lou procura aplicar a Humanitude, uma filosofia de cuidados baseada no olhar, na palavra, no toque e no respeito pela dignidade dos residentes. Parece óbvio. Não é. Porque cuidar demora tempo, e o tempo, no capitalismo contemporâneo, é uma coisa que deve render, facturar, justificar-se em Excel. Um corpo idoso demora. Um corpo doente interrompe. Um corpo dependente obriga-nos a parar. E parar, hoje, é quase um acto de contra-corrente.

Soudain
“Soudain”  pode parecer insuportavelmente solene e aborrecido, mas não é. ©Soudain

Hamaguchi percebe isto muito bem. Por isso, o lar não é cenário piedoso nem decoração sociológica. É um pequeno país. Um laboratório moral. Uma zona de guerra silenciosa onde se confrontam a boa vontade, a falta de meios, a exaustão, a burocracia e a violência polida das instituições que falam de bem-estar enquanto contam tostões.

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Duas mulheres, uma conversa, uma vida inteira

É neste contexto que Marie-Lou conhece Mari, interpretada por Tao Okamoto, dramaturga e encenadora japonesa com cancro em fase terminal. A morte aparece, mas não entra pela porta aos gritos. Não há violinos a implorar lágrimas, nem planos de manipulação emocional descarada. Mari sabe que o seu tempo mudou de natureza. Já não é futuro. É urgência. Já não é projecto. É presença. Entre as duas mulheres nasce uma amizade inesperada, daquelas que não precisam de explicação psicológica nem de música sublinhada. Não é romance, não é substituto de família, não é ternura decorativa. É encontro. E há encontros que chegam tarde, mas chegam a tempo. Há pessoas que aparecem quando já não esperávamos nada e, sem prometerem salvação nenhuma, mudam a forma como respiramos.

Marie-Lou e Mari conversam muito. Em francês. Em japonês. Na língua uma da outra. E esse esforço é essencial. “Soudain” é também um filme sobre sair do lugar confortável, tropeçar na língua alheia, aceitar a tradução, a lentidão, o mal-entendido. Num mundo onde toda a gente comunica depressa e entende pouco, Hamaguchi filma a escuta como se fosse uma forma de resistência.

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Virginie Efira, finalmente imensa

Virginie Efira está num momento admirável. O Festival de Cannes 2026 parece confirmar aquilo que já se percebia há algum tempo: deixou definitivamente de ser apenas uma actriz luminosa para se tornar uma actriz de grande densidade. Em “Soudain”, carrega Marie-Lou sem a transformar em santa. Graças a Deus. Santos são aborrecidos, sobretudo no cinema.

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A sua Marie-Lou é generosa, cansada, obsessiva, irritável, lúcida, teimosa, por vezes injusta, quase sempre comovente. É uma mulher que acredita tanto no que faz que está à beira de ser esmagada por essa própria crença. Quer cuidar melhor, mas não tem tempo suficiente. Quer transformar uma instituição, mas a instituição tem regras, contas, hierarquias, medos. Quer salvar uma ideia de humanidade, mas a humanidade, como sabemos, raramente vem com orçamento aprovado. Tao Okamoto responde-lhe com uma presença mais aérea, mais suspensa, mas nunca etérea no mau sentido. Mari não é uma moribunda poética à espera de nos ensinar lições de vida. É uma artista, uma mulher inteligente, uma pessoa que sabe que vai morrer e, precisamente por isso, se recusa a tornar-se apenas “a doente”. Entre Efira e Okamoto há uma química delicada, feita de atenção, pudor e risco.

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O filme que podia ser aborrecido e nunca é

A grande proeza de “Soudain” está aqui: podia ser insuportavelmente solene. Podia ser um daqueles filmes onde se fala de morte, capitalismo, utopia, cuidado e loucura com ar de tese universitária vestida para festival. Podia ter cheiro a café frio, biblioteca e culpa europeia. Mas não tem. Porque Hamaguchi filma ideias através de corpos. E quando uma ideia passa por um corpo cansado, por uma mão trémula, por uma mulher que sabe que vai morrer, por um residente que perdeu a memória ou por uma cuidadora que já não aguenta mais um turno, deixa de ser tese. Passa a ser vida. O filme é longo porque precisa de tempo. Precisa de nos ensinar o seu ritmo. Precisa de nos tirar da pressa. Precisa de nos lembrar que há coisas que não se resolvem em cenas curtas, diálogos funcionais e montagem nervosa. A amizade demora. O luto demora. O cuidado demora. A escuta demora. Até a emoção, quando é verdadeira, precisa de espaço para chegar sem fazer batota.

E chega. Sim, chega. Ao ponto de nos apanhar desprevenidos. Ao ponto de fazer cair uma lágrima a quem, por profissão ou autodefesa, já treinou bastante a arte de fingir distância. Os críticos também choram. Não convém espalhar muito, porque estraga a reputação da classe, mas acontece. E em Cannes acontece de forma ainda mais perigosa, porque o cinismo está sempre à mão: filas, empurrões, cafés caríssimos, filmes sobrevalorizados, aplausos estratégicos, gente a dizer “obra-prima” antes de verificar se dormiu metade da sessão. Mas há filmes que atravessam essa couraça. “Soudain” é um deles.

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Porque pode ganhar a Palma

É cedo, claro. Estamos ainda nos primeiros dias da Competição. Há Almodóvar,Farhadi, há Pawlikowski, há muitos nomes, muitos interesses e muitas armadilhas. Cannes nunca é apenas sobre o melhor filme. Também é sobre equilíbrios, política interna, consensos possíveis, pequenas vinganças, grandes reparações e aquele estranho momento em que um júri descobre que precisa de concordar em alguma coisa antes do jantar.

Soudain
Marie-Lou (Efira) e Mari (Okamoto) conversam muito. Em francês. Em japonês. ©Soudain

Mas “Soudain” tem algo que costuma pesar muito: parece o filme certo no momento certo. Fala de uma Europa envelhecida sem transformar a velhice em postal de compaixão. Fala de cuidados num tempo em que quem cuida está esgotado. Fala da morte sem pornografia emocional. Fala do capitalismo sem panfleto. Fala de amizade sem sentimentalismo barato. Fala de linguagem, tradução e escuta num mundo cada vez mais cheio de ruído. E, acima de tudo, é cinema. Não é apenas um bom tema. Não é apenas uma causa nobre. Não é apenas um assunto urgente. É cinema pensado, respirado, vivido. A câmara de Alan Guichaoua observa sem esmagar, aproxima-se sem violar, deixa que os rostos existam. Os residentes do lar não aparecem como adereços de realismo. São presenças. Têm ritmos, ausências, fragilidades, pequenas iluminações. Hamaguchi filma-os como raramente o cinema filma os corpos velhos: sem piedade fácil e sem crueldade.

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Viver até ao fim

No fundo, “Soudain” não é um filme sobre morrer. É um filme sobre viver até ao fim. Sobre continuar a caminhar quando seria mais cómodo ficar quieto. Sobre aceitar que uma pessoa pode aparecer na nossa vida não para nos resolver, mas para nos deslocar. Marie-Lou seguia numa direcção. Mari aparece. E, de repente, a vida muda de eixo.

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A palavra “de repente” é importante. Porque as grandes mudanças nem sempre chegam com fanfarra. Às vezes chegam numa conversa, numa peça de teatro, num corredor de hospital, num lar de idosos, numa língua que não dominamos, numa mão que tocamos com cuidado. A vida, essa argumentista frequentemente incompetente, tem por vezes lampejos de génio. É por isso que “Soudain” fica. Não apenas como um favorito à Palma de Ouro 2026, embora seja difícil não o colocar já nessa linha da frente. Fica porque nos devolve uma sensação rara: a de que o cinema ainda pode tornar-nos menos cínicos durante algumas horas. Menos apressados. Menos fechados. Menos mortos por dentro, que também é uma forma bastante contemporânea de doença. Quando as luzes se acendem, Cannes regressa ao seu circo habitual. Telemóveis, comentários, prognósticos, press releases, corridas para a próxima sessão. Mas alguma coisa permanece. Um olhar. Uma conversa. Uma mulher que cuida. Outra que se despede. Uma ideia simples, quase infantil, quase impossível: talvez ainda valha a pena tratar os outros como humanos. E, se uma Palma de Ouro também serve para premiar isso, então “Soudain” já está perigosamente perto.

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