© Soudain

Depois do sucesso de “Drive My Car” em 2021, que ganhou a Palma de Ouro para melhor argumento e o Óscar de Melhor Filme Internacional, Ryusuke Hamaguchi regressa ao Festival de Cannes para apresentar o seu novo filme, “All of a Sudden”.

O filme acompanha a diretora de uma residência para idosos, que tenta introduzir uma filosofia inovadora com o objetivo de melhorar a rotina dos residentes.

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Contudo, o budget e alguns dos trabalhadores da residência estão contra esta novidade. O seu encontro inesperado com uma encenadora que está a lutar contra o cancro vem mudar o seu rumo, as suas escolhas enquanto esta nova amizade vem tentar “fazer o impossível possível”.

O filme tem inspiração numa obra que conta com cartas trocadas entre uma filósofa que está a lutar contra um cancro e uma médica antropologista. Ryusuke Hamaguchi transforma estas cartas numa história de 3h16 que recebeu uma ovação de quase quinze minutos em Cannes.

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A obra a bater no Festival de Cannes

Numa altura em que estamos a passar por tempos negros, com várias guerras a alastrar pelo mundo e tempos incertos, Ryusuke Hamaguchi traz-nos algo que precisávamos, esperança num mundo melhor.

Não faltam adversidades neste filme para as suas personagens, estamos a falar de temas pesados e difíceis de abordar, mas o realizador fá-lo com uma leveza extraordinária. Um filme que aborda o luto e finitude da vida é sempre emocional mas nunca triste.

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Vi este filme na presença do realizador e do elenco, na premiere do filme, e para qualquer lado que olhasse havia pessoas a chorar. Contudo, no momento seguinte estavam a rir. É a maravilha deste argumento, desta realização e dos atores.

“All of a Sudden” é, sobretudo, um filme profundamente humano, com problemas reais. É “arte imitating life”, com o seu quê de fé numa humanidade que esperamos ainda existir na realidade.

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É sobre a forma como podemos mudar a vida dos outros com pequenos atos, pela forma como somos e a empatia que mostramos. Em vez de passarmos a vida a procurar um momento grandioso que nos eternize.

Três horas que podiam ser cinco

Virginie Efira
Virginie Efira, directora de um lar de idosos nos arredores de Paris. ©Soudain

Não me importo que um filme seja grande quando é bem feito. Mas confesso que fui para a sessão com algum receio destas três horas e dezasseis minutos, sendo que “Drive My Car” não me tocou tanto quanto esperava.

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Contudo, acabei de sair com uma grande surpresa e muitas lágrimas. Em “All of a Sudden” sentimos que Ryusuke Hamaguchi faz uma qualquer magia com o tempo. Este filme é, em certa medida, sobre a falta de tempo, sobre a corrida contra o tempo. O pouco tempo que estas personagens têm na vida uma da outra para se conhecer.

O espectador sente esta necessidade de mais tempo para estar com as personagens, contudo também sente o tempo suspenso, com a magia dos diálogos e momentos gentis entre elas.

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Nesse sentido, não podemos dizer que não se percebe que este filme tem mais de três horas, mas o objetivo é sentirmos a presença do tempo tal como as personagens o sentem.

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Podiam ser mais de cinco se isso significasse que podíamos estar mais tempo a conhecer estas personagens. O que pretende também refletir a forma como muitas vezes não conhecemos verdadeiramente pessoas que estão próximas de nós.

Ryusuke Hamaguchi arrisca-se entre o francês e o japonês

Este é o primeiro filme do realizador em língua francesa. Aliás, é uma mistura entre o francês e o japonês. O realizador fez os seus atores aprenderem as duas línguas, que não conheciam antes, para estarem em pé de igualdade e sentirem uma experiência coletiva que os aproximou enquanto elenco.

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Durante a conferência de imprensa no Festival de Cannes, os atores partilharam que foram filmagens exaustivas pois após gravarem durante o dia, ensaiavam em conjunto as falas do dia seguinte. Assim, com esta dinâmica, conseguiram criar uma linguagem própria, enquanto elenco, que tornou o filme mais realista e credível para o público.

All of a Sudden não podia ter outros atores

Antes deste filme não conhecia qualquer um dos atores. À exceção de Virginie Efira, que conheci em “Parallel Tales” no dia anterior. Assim, consegui entrar ainda mais na história e surpreender-me com as suas atuações.

As duas personagens principais são interpretadas por Virginie Efira e Tao Okamoto. Duas personagens muito diferentes, com problemas e vidas muito diferentes. Mas que partilham o cuidado com os outros, a empatia e gentileza com que levam a vida.

Marie Bunel tem o papel difícil de ser a personagem antagonista, que nos aterroriza com a forma como contesta qualquer decisão. Uma aparente falta de empatia que vem a desconstruir ao longo do filme.

E Kodai Kurosaki é uma autêntica surpresa. O jovem ator  interpreta um rapaz com autismo severo e é extremamente credível. Não consegui deixar de me lembrar da performance de Leonardo DiCaprio em “What’s Eating Gilbert Grape”. O que é um grande elogio para Kodai Kurosaki.

Overall
9/10
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