O FEST – New Directors New Films Festival, ou Novos Realizadores Novos Cinemas, regressa a Espinho de 20 a 28 de junho com uma programação de luxo. Como sempre, este evento almeja celebrar aqueles cineastas que ainda contam com poucos títulos no cartório, elevando as vozes mais noviças no meio e dando-lhes mais projeção do que teriam noutros programas, onde os grandes mestres e nomes mais sonantes tendem a monopolizar a atenção de audiências e jornalistas por igual. Dito isso, este não é um festival de filmes menores ou, de qualquer modo, menosprezáveis. De facto, diria que é nestas novas vozes que se encontram os cineastas que vão definir o futuro da sétima arte.
E, afinal, já há alguns novatos consagrados entre os vários artistas convidados a apresentar o seu trabalho no FEST. Note-se, por exemplo, o filme que abre as festividades. Trata-se de “Yellow Letters” ou “Cartas Amarelas” com que o realizador turco-alemão İlker Çatak conquistou o Urso de Ouro em Berlim. Este ano, a Berlinale foi o epicentro de várias discussões sobre a relação complicada entre arte e política, com o Presidente do Júri, Wim Wenders, a afirmar-se em defesa de um cinema apolítico, muito à revelia do que defendia no início da carreira. Talvez por isso, ele e seus jurados tenham decidido refletir uma continuação desse debate nos palmarés.
De Istambul a Hamburgo, da Berlinale ao FEST.

Depois de ganhar a atenção do público com “A Sala de Professores” há três anos, Çatak continua a trabalhar num registo de provocação deliberada. Desta vez, o seu foco estende-se desde as escolas germânicas até à sua Turquia ancestral, examinando a situação política atual e os seus gestos repressivos. Nomeadamente, o realizador dramatiza as revelias de uma companhia de teatro contra um Estado censório que corta fundos à cultura quando os artistas ousam questionar quem está no poder. Estas pressões vão arruinando, aos poucos, o casamento entre dois atores e, através do apocalipse doméstico, Çatak propõe um retrato da Turquia em jeito de sinédoque.
Só que, como seria de esperar, este tipo de trabalho em ativa interrogação do Governo vigente de Erdoğan não poderia ser rodado à alçada da sua autoridade. Enquanto cineasta dissidente, Çatak é forçado a contar a história de um país sem lá pôr os pés. Mas, ao invés de se fazer cinema de estúdio e cenários ambíguos, “Yellow Letters” não tem papas na língua nem qualquer coisa a esconder. Os atores em cena interpretam as suas personagens e a Alemanha interpreta a Turquia, com direito a texto explicativo a creditar cidades como se elas fossem vedetas. Hamburgo faz de Istambul, Berlim de Ancara e por aí fora.
Como é evidente, contudo, este jogo presume outra dimensão ainda. Pois, ao situar esta narrativa de opressão política no coração de uma tão celebrada democracia alemã, Çatak convida o espetador a reconhecer quanto estes temas e preocupações não estão assim tão distantes dos espaços em que se encenam. Nesse sentido, o realizador faz um jogo de crítica direta e indireta, e é com essa justaposição que vai ao Óscar. Digo isto porque, a partir deste ano, novas regras significam que o vencedor de Berlim se qualifica automaticamente para a corrida ao prémio de Melhor Filme Internacional. A Alemanha e a Turquia ainda poderão selecionar outros títulos, mas este já cá canta.
Comparado com todo este furor, o filme que o FEST vai apresentar na sua Cerimónia de Encerramento parece menos chamativo. Dito isso, as aparências iludem, e “Complaint Nº. 713317” merece tanta ou mais atenção do que “Yellow Letters.” Também o realizador Yasser Shafiey se atreve a fazer uma crítica feroz à sua nação, dissecando a situação sociopolítica no Egito e em outros estados árabes através da crise causada quando o frigorífico de um casal na casa dos 60 avaria no Cairo. A história parte desse incidente, expandindo o seu estudo em jeito de mural com uma técnica marcada pela disciplina e o rigor formalista.
Uma competição ferrenha pelos Linces de Ouro e Prata.

Mas, como é evidente, um festival não se faz só da sua abertura e encerramento. Para amantes do cinema que andem por Espinho, a grande atração do FEST serão as secções competitivas. Nomeadamente, existem os concursos aos Linces de Ouro em longas de Ficção e Documentário, assim como uma vasta panóplia de curtas-metragens que vão desde propostas de animação até às antípodas do experimental. Há ainda o Grande Prémio Nacional para curtas portuguesas e todo o programa NEXXT. Verdade seja dita, o grande prazer destas seleções será para o espetador ir à descoberta de tesouros, mergulhando no desconhecido.
Haverá sempre um destaque aos que puxam pelo holofote, pois claro. No caso das longas-metragens, “Girl” é forte candidato a essa honra, tendo concorrido ao Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado. Trata-se da estreia da atriz Shu Qi na realização e está recheada de ecos do seu trabalho com grandes cineastas do mercado Chinês, de Hong Kong e o Taiwan. Hou Hsiao-hsien faz-se sentir com particular intensidade, como se a cineasta em início de carreira atrás das câmaras prestasse homenagem ao homem para quem serviu de musa em obras como “Millennium Mambo” e “A Assassina.” Não que “Girl” se assemelhe a esses trabalhos ao nível temático.
Esta é uma história pessoal para Shu Qi, um retrato da juventude feminina naquela idade em que a menina começa a tornar-se adolescente com a vida adulta a impor-se no horizonte. O pandemónio de uma família disfuncional faz-se sentir de geração para geração, fomentando a necessidade de escapar ao fado escrito pela herança do sangue. Acima de tudo, salienta-se a mestria de Shu Qi na evocação de um Taiwan perdido na memória de décadas passadas e sua habilidade com atores, mesmo aqueles mais inexperientes e jovens. A prestação principal de Xiao-Ying Bai é particularmente impressionante e merece uma salva de palmas.
No foro documental, faz-se um cinema da paisagem e do lirismo, com realizadoras das mais variadas origens em busca de uma expressão audiovisual algures entre o poema e o testemunho direto. Se “River Dreams” de Kristina Mikhailova explora a voz da mulher Cazaque junto ao rio titular, o “Silent Flood” de Dmytro Sukholytkyy-Sobchuk leva-nos até à Ucrânia em estado de guerra, onde uma comunidade reflete sobre as cheias e as cicatrizes de conflitos passados, tentando sobreviver a mais um flagelo com a fé como seu principal amparo. Há ainda “Comparsa”, de Vickie Curtis e Doug Anderson, com suas reflexões sobre a Guatemala contemporânea, e as meditações sobre a terceira idade em “The Ground Beneath Our Feet”, de Yrsa Roca Fannberg.
O FEST considera o futuro do cinema e o seu passado também.

Para compreendermos o amanhã para o qual o cinema se dirige, há que entender o ontem. Por isso mesmo, o FEST complementa a programação com algumas sessões retrospetivas, criando diálogos implícitos entre os filmes mais recentes da juventude artística e a filmografia de mestres vetustos. Assim será o caso de Andrzej Wadja, o grande titã do cinema polaco a qual o FEST dedica a sua secção BE KIND REWIND de 2026. Não só serão mostrados alguns dos seus filmes, como se explorará o legado do realizador com aqueles que emergirem depois de si através de uma sessão de curtas-metragens concentrada na escola de Wadja.
O grande destaque desta parte da programação é a dupla “Homem de Mármore” e “Homem de Ferro,” com a qual Wajda explorou a História do movimento Solidariedade na Polónia através de um engenho de cinema meta-textual. Se a primeira parte dessa saga lhe valeu renome internacional como nenhum dos seus trabalhos anteriores havia feito, a segunda fita foi a consagração máxima do realizador. Até ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1981, honra merecidíssima por este épico sem igual, onde a arte, a política, a História de uma nação e de um pensamento coletivo se formulam através da colisão de tempos e personalidades, entre uma cineasta e seu sujeito de estudo, de paixão, de fascínio.
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