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Danny Boyle abriu a Competição a contar como Rupert Murdoch e Larry Lamb descobriram que a realidade podia ser embalada e vendida; Alina Marazzi responde com a fotógrafa Gerda Taro, que pegou numa Leica para obrigar o mundo a olhar. Pelo meio, Tinto Brass ressuscita a Swinging London em 4K. Primeiro dia no Lido e já estamos a discutir quem fabrica a verdade e quem ganha dinheiro com ela.

O primeiro dia oficial da 83.ª Mostra começou com uma coincidência demasiado boa para ser apenas acaso. Gerda Taro (“La Ragazza con la Leica”) aponta uma Leica para a Guerra Civil de Espanha. Pouco depois, Rupert Murdoch e Larry Lamb (“Ink”) apontam o The Sun para milhões de britânicos. Ela acredita que uma imagem pode revelar o mundo. Eles percebem que uma manchete pode vendê-lo. Veneza arrancou assim com uma pergunta bastante mais interessante do que saber quem ganhará o Leão de Ouro: quem fabrica a realidade?

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Ink: O algoritmo ainda cheira a tinta

Ink de Danny Boyle no Festival de Veneza
“Ink”, de Danny Boyle, sobre o momento em que Rupert Murdoch comprou o moribundo “The Sun”. ©Studiocanal, Media Res, and House Productions

Danny Boyle não veio ao Lido fazer a história ilustrada da famosa Fleet Street, a tradicional rua onde durante décadas se concentraram as sedes dos principais jornais londrinos. Ink, adaptação da peça de James Graham, também responsável pelo argumento do filme, regressa a 1969, quando Rupert Murdoch compra o decadente The Sun e entrega a Larry Lamb uma missão quase impossível: ultrapassar o Daily Mirror. Guy Pearce é Murdoch, Jack O’Connell é Lamb e Claire Foy entra numa redacção onde a testosterona ainda devia contar como material de impressão.

Boyle filma aquilo como sabe: velocidade, ruído, adrenalina, humor negro, telefones, máquinas a cuspir papel e decisões editoriais tomadas com a delicadeza de um assalto a banco. De Trainspotting a 28 Dias Depois e Quem Quer Ser Bilionário?, mantém o vício saudável de agarrar primeiro o espectador pelos colarinhos e fazer perguntas depois.

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O grande achado de Ink está em perceber que Murdoch, sozinho como protagonista e vilão de serviço, seria fácil demais. Boyle e Graham mostram um homem inteligente, frio e sedutor, e um Larry Lamb talentoso, faminto, ressentido com a sobranceria das elites e convencido de que os jornais falavam para muito pouca gente. O problema começa quando “dar ao povo aquilo que o povo quer” deixa de ser uma ideia democrática e passa a modelo de negócio. Sexo, futebol, crime, celebridades, medo, indignação, títulos que gritam mais alto do que os factos. O The Sun descobre o nosso presente meio século antes de Silicon Valley. A circulação era o algoritmo da altura; a primeira página, o feed; a banca, a aplicação. Troquem-se as rotativas por servidores e Larry Lamb estaria perfeitamente preparado para qualquer reunião de estratégia digital.

Ink é, por isso, um grande filme sobre jornalismo e uma peça feroz sobre 2026. Boyle gosta do papel, da tinta, do fecho, da primeira edição ainda quente a sair da máquina, mas recusa transformar essa memória numa missa por uma imprensa supostamente pura. Fleet Street podia fazer jornalismo brilhante e, cinco minutos depois, esmagar alguém com idêntica competência profissional. Murdoch e Lamb ganharam. O The Sun tornou-se uma máquina. O jornalismo ganhou uma doença crónica: a competição pela atenção. Hoje nem precisamos de comprar o jornal. Ele vibra-nos no bolso, conhece os nossos medos, mede a raiva e aprende rapidamente aquilo que nos fará voltar. A tinta secou. O método ficou.

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La Ragazza con la Leica: Quando a câmara servia para chegar mais perto

Poucas horas antes, a italiana Alina Marazzi abriu a secção Orizzonti com La Ragazza con la Leica e outra ideia de jornalismo. Gerda Taro não queria saber aquilo que o público desejava ver. Queria chegar onde quase ninguém queria estar. Estamos em Paris, a 14 de Julho de 1937. Gerda prepara-se para regressar à frente de combate da Guerra Civil de Espanha. O filme recua depois a Leipzig, ao exílio, à militância política, à pobreza parisiense, ao encontro com Endre Friedmann — o futuro Capa — e à invenção de Robert Capa. Porque Capa, antes de ser Capa, foi também uma extraordinária operação de marketing criada por dois jovens refugiados judeus que perceberam que fotografias assinadas por um misterioso e caríssimo fotógrafo americano vendiam bastante melhor do que as de dois emigrantes da Europa Central. Depois, o nome ficou com ele e a História empurrou-a, durante décadas, para a ingrata categoria das “companheiras de”. A posteridade também sabe ser sexista. Marazzi corrige finalmente o enquadramento sem transformar Gerda numa santa laica fabricada retroactivamente. Emilia Schüle dá-lhe arrogância, sensualidade, alegria, teimosia, ambição e aquela convicção dos vinte e poucos anos de que a morte é sempre um problema reservado aos outros. Pega na Leica como quem sabe para que serve, detalhe bastante menos banal do que parece num cinema biográfico onde tantas vezes os instrumentos de trabalho têm ar de adereços acabados de sair do armazém da produção.

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A fotografia de Manuel Alberto Claro mistura ficção, arquivo e memória sem pôr o passado numa vitrina. Fascismo, racismo, refugiados, guerra, democracia ameaçada: 1937 devia parecer muito longe. O filme encarrega-se de estragar esse conforto. Gerda fotografa porque escolher um enquadramento também significa escolher um lado e porque, naquele tempo, cobrir uma guerra obrigava a uma extravagância hoje quase esquecida: estar lá. Morreu a 26 de Julho de 1937, depois da batalha de Brunete, esmagada por um tanque republicano durante a retirada. Tinha 26 anos. Capa continuou, fundou a Magnum e morreu também a trabalhar, em 1954, na Indochina, ao pisar uma mina. Ele tornou-se uma assinatura universal. Ela precisou de quase noventa anos para recuperar plenamente a sua.

É neste ponto que os dois grandes filmes deste primeiro dia se encontram. Ink mostra homens que percebem que a notícia pode ser moldada até se tornar irresistível. La Ragazza con la Leica acompanha uma mulher que arrisca a vida porque acredita que a imagem deve resistir à manipulação e ao esquecimento. Murdoch quer aproximar o jornal do leitor. Gerda quer aproximar-se daquilo que o leitor precisa de ver. Parece uma diferença semântica. É um abismo moral.

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Tinto Brass: Um tiro pop no pré-Festival

A véspera já tinha dado o tom. A pré-abertura recuperou Com o Coração na Garganta (Col cuore in gola, 1967), de Tinto Brass, numa magnífica cópia digital restaurada em 4K pelo Centro Sperimentale di Cinematografia, com o apoio da Netflix.

Antes de se tornar, para o grande público, o senhor oficialmente encarregado de despir o cinema italiano, Brass foi um dos cineastas mais inquietos, pop, provocadores e formalmente atrevidos da sua geração. Convém recordá-lo de vez em quando, sobretudo porque uma boa parte da sua filmografia acabou soterrada sob tanta nádega, lingerie e erotismo tardio. Filmado em Londres, com Jean-Louis Trintignant e Ewa Aulin, este thriller psicadélico parece uma colisão entre banda desenhada, pop art, policial e Swinging London. Guido Crepax, o autor do célebre fumetto Valentina, colaborou nos storyboards, e sente-se em cada plano a vontade de Brass de rasgar o enquadramento, misturar desenho e realidade e cortar o filme como se a própria montagem tivesse ingerido anfetaminas. Visto quase sessenta anos depois, conserva uma insolência que muito cinema novo, produzido com dez vezes mais tecnologia e cem vezes mais prudência, gostaria de poder comprar por assinatura mensal.

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