Amy Adams como Anna Fox | Foto de Melinda Sue Gordon, via Netflix

A Mulher à Janela, em análise

“A Mulher à Janela”, um lamentável pseudo-ensaio hitchcockiano sobre doença mental, paranóia e solidão, revela-se uma apatetada desilusão. Quem espera um thriller repleto de tensão pode desenganar-se, uma boa gargalhada é a mais razoável das ambições neste caso.

Amy Adams persiste para lá da trapalhada fenomenal aqui arquitetada por Joe Wright, conseguindo surpreendentemente brilhar como a agorafóbica Anna. 

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A montanha pariu um rato (e que rato!).

O voyeurismo é quase inerente à condição humana como uma condicionante da nossa mórbida curiosidade, que o digam os infernais engarrafamentos formados quando um acidente aparatoso promove o abrandamento de dezenas de veículos automóveis.

Para lá da conotação sexual do termo, a mais científica e relacionada com a obtenção do prazer sexual a partir da observação secreta de quem desconhece ser observado, a fixação do nosso olhar num Outro e o fascínio pela sua privacidade não é nada de novo.

A Fotografia e o Cinema criaram algo mais, a imagem fantasmagórica de um peeping tom capacitado com mecanismos técnicos para espiar a intimidade sexual e pessoal com predatória notoriedade.

rear window
James Stewart e Grace Kelly em “A Janela Indiscreta” |©1954 – Paramount Pictures

 

“História de Um Fotógrafo” (1966) de Michelangelo Antonioni, “A Vida dos Outros” (2006) de  Florian Henckel von Donnersmarck, e como não podia deixar de ser “A Janela Indiscreta” (1954) de  Alfred Hitchcock, são filmes que pensam o próprio voyeurismo do cinema à medida que ilustram a fixação dos seus sujeitos fílmicos que, obsessivamente, vêem sem serem vistos e registam, através das suas lentes, os sórdidos eventos com os quais contactam.

 

UMA PEDRA NO SAPATO DE WRIGHT? 

“The Woman in the Window” é a oitava longa-metragem realizada por Joe Wright, cineasta britânico particularmente apaixonado por obras de época e adaptações literárias.

Com uma filmografia onde se pode observar um formalismo estético pautado por laivos de criativade inesperados e atenção notável ao detalhe, frequentes colaborações com grandes criadores de bandas-sonoras, recurso a travellings audaciosos e outros movimentos de câmara oportunos e lascivos, Wright começou a sua carreira nas longas com uma obra pautada por uma beleza estética notável e uma energia pouco usual em romances vitorianos, com o seu “Orgulho e Preconceito” (2005).

Quem tenha assistido a outras adaptações do mesmo romance fundador depreende a clara superioridade formal aqui manifestada por Wright, e as dúvidas dissipam-se na sua adaptação posterior de romances como “Expiação” de Ian McEwan, em 2007,  ou “Anna Karenina” de Lev Tolstói, em 2012.

James McAvoy Expiação
McAvoy na Dunkirk de Joe Wright |©Universal Pictures

 

Wright tem uma sensibilidade muito própria e marca autoral, não obstante o facto de se tratar de um realizador não argumentista.  Sem conhecer o romance em causa que originou “A Mulher à Janela” , a obra do mesmo nome de A.J. Finn, reforça-se que a tradução das mais complexas passagens de livros nunca se torna desafio técnico para Wright. Quem se recorde da cena das “duas figuras junto a uma fonte” ou do longo plano-sequência nas praias da Normândia de “Expiação” facilmente concordará.

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Com este “The Woman in the Window” não ficam senão ressentimentos para quem em geral aprecia os esforços do realizador (mesmo perante a inferioridade de certos argumentos, como no caso do banal “A Hora mais Negra”).

Ao fim de contas, nada se safa na execução de “A Mulher à Janela”, quaisquer liberdades criativas evocam apenas motivos kitsch, paródia de género ou pura desorientação artística.

 

A ORIGINALIDADE (OU NÃO) DO ENREDO DE “A MULHER À JANELA” (2021) 

A Mulher à Janela Amy Adams
Amy Adams à janela | ©Netflix

 

Anna Fox (Amy Adams) é uma psicóloga infantil com agorafobia que dá por si a controlar a família aparentemente perfeita dos vizinhos através da janela do seu apartamento, em Nova Iorque. A vida de Anna é virada do avesso quando testemunha inadvertidamente um crime brutal.

Anna observa a nova família que se mudou para a moradia em frente com uma persistência característica de quem reduziu o seu mundo a quatro paredes. Depressa conclui que algo de muito errado se passa e tornar-se a aparente única observadora de um homicídio aparatoso que envolve a mãe do núcleo familiar, com a qual confraternizou e criou um laço emotivo.

A terapeuta é para lá de volátil enquanto testemunha: a sua agorafobia (fobia social que em casos extremos leva à incapacidade de abandonar o domicílio) e ansiedade são debilitantes, o seu estado mental está difuso, a sua medicação tem o potencial de provocar efeitos alucinogénicos e o álcool é o seu melhor amigo.

A linha entre a realidade e a ilusão é ténue, num thriller que não só bebe inspiração do filme “A Janela Indiscreta” como não se coíbe de deixar alusões visuais bastante diretas ao longo da narrativa. Apesar da sua evidente falta de originalidade e tradição longa de onde vem beber, “A Mulher à Janela” poderia ter sido um tratado tenso sobre isolamento e construção do “eu” em função da observação do “outro”, uma exploração da psique humana e uma revisão criativa da psicanálise, uma homenagem ao género do suspense e quiçá um neo-noir assinalável no início da nova década.

The Girl on the Train 2016
Emily Blunt em “A Rapariga no Comboio” (2016) |©Universal

Não é nada disso, é uma tortuosa experiência risível que faz lembrar vários outros filmes recentes caracterizados por relativa mediocridade. Não é melhor que nenhum deles, antes pelo contrário. Por exemplo, em 2016 foi lançado “A Rapariga no Comboio” , protagonizado por Emily Blunt, adaptação literária do título homónimo de Paula Jawkins, sobre uma mulher e a sua idealização à distância da vida de um casal, até ao dia em que testemunha um estranho evento que a leva a aproximar-se.

Remete-nos também para histórias como “Copy Cat” ou “Cópia Mortal” (1995), onde Sigourney Weaver interpreta uma psicóloga criminal agorafóbica que procura resolver o caso de um assassino em série ou ainda “O Apartamento de Columbus Circle “(2012),  com Salma Blair a vestir a pele de uma herdeira milionária agorafóbica confrontada com um homicídio no seu prédio.

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Entre a homenagem aos grandes filmes de suspense clássicos e a mimesis de outros textos filmados, “A Mulher à Janela” torna-se facilmente a cópia da cópia. Poderia, não obstante, tratar-se de uma experiência cinematográfica aprazível. A história começa com grandes planos da casa que servirá de palco aos eventos centrais, o único espaço onde Anna (Amy Adams) se move.Desde logo, a sugestividade tem início com os objetos escolhidos como pistas para o espectador, num filme incapaz de deixar muito à imaginação e que toma por pouco inteligente aquele que o vê.

Outro grande problema é que para uma narrativa acerca daquele que observa a vida dos outros, acabamos por ver a Anna de Adams frequentemente como aquela que é observada e não a observadora.

Aqui, nem os próprios planos das janelas dos vizinhos são interessantes. Se estivermos a pensar simultanemante no mosaico espectacular das traseiras de Stewart em “A Janela Indiscreta” ficamos deveras nostálgicos. Ângulo dramático atrás de ângulo dramático, uma cabeça à roda é o máximo que Wright é capaz de nos proporcionar com as suas janelas pecaminosamente entortadas sem justificação plausível.

O voyeurismo do cinema  que se parecia insinuar ser pertinente para a narrativa, reduzido a artefacto. A câmara fotográfica da protagonista, vista uma e outra vez nos materiais promocionais, equacionada como importante para a narrativa, acaba por se revelar um mero chamariz. Esta não é uma história que mereça sequer a comparação ao intocável “Rear Window”, que Hitchcock nos perdoe!

 

O QUE NASCE TORTO JAMAIS SE ENDIREITA?

 

Amy Adams Joe Wright
Amy Adams consegue ser o elemento mais memorável do filme |©Melinda Sue Gordon/Netflix

 

Será esta uma prova de que o que começa torto jamais se endireita? “A Mulher à Janela” deveria ter sido originalmente lançado nos cinemas, em Portugal, no início de 2020. O primeiro trailer oficial foi, inclusive, lançado em dezembro de 2019. O pleaneamento do lançamento do filme fez-se tão longo que deveria ter sido ainda a entretanto extinta 20th Century FOX a distribuir a obra. O filme atrasou não apenas motivado pelo COVID-19, mas também porque no verão de 2019 os testes de audiência correram mal ao ponto de ser necessário rescrever o guião e regravar sequências da longa-metragem.

Em março do ano passado, e perante o cenário pandémico, o lançamento do filme foi adiado uma vez mais e entretanto anunciou-se, em agosto, que a Netflix se encontrava em negociações para adquirir “The Woman in the Window”. Dito e feito, esta história que em tempos que já lá vão (há quase dois anos) foi promessa da temporada de prémios, estreia agora na plataforma de streaming com bastante buzz mas com as esperanças de vir a adquirir pedigree perto de nulas.

Sem dúvida que “A Mulher à Janela” é inquietante. A sua banda-sonora, montagem, direção de atores, edição e em geral toda a teatralidade das movimentações hirtas e anti-naturais dos agentes que se movem em cena transmitem-nos uma sensação de desconforto permamente. Triste é que toda esta desconfiança palpável não tenha para onde se canalizar.

Em primeiro lugar o argumento é atroz, custa a acreditar que foi em tempos aprimorado e ainda mais estranho é saber que estas palavras provêm de um romance apreciado. Todas as reviravoltas narrativas são mal fundamentadas, em certo grau previsíveis e na vasta maioria falíveis perante análise (semi) cuidada. É fácl desmontar o enredo às postas, do início premonitório ao final lamentável.

Muito pouco faz sentido e, para além disso, Joe Wright decide ser boa ideia introduzir alguns elementos mais “coloridos” em termos visuais. Eis que este thriller dramático puxa à lamechice sem grandes pruridos e depressa nos introduz evocações quase a puxar o realismo mágico. Há algo de místico neste novo lançamento Netflix, algo frouxo e desequado. Desadequado é mesmo uma boa palavra para descrever o que se retira daqui.

 

TALENTO AO DESBARATO

Mulher à Janela
Julianne Moore e Amy Adams na interação mais valorosa do filme |©Netflix

 

Há zero subtileza na condução do enredo. As variações tonais são tão infímas, os “sustos” tão básicos, os presságios tão gritantes, a agradável banda-sonora Danny Elfman usada de forma tão omnipresente que tudo assume um carácter a roçar o caricatural. Quase se pode dizer que “The Woman in the Window” é um filme de Série B (ou C) feita por um realizador e por um estúdio de primeira linha, interpretado por astros que mereciam bem melhor.

Gary Oldman está particularmente rídiculo como Alistair Russell, o patriarca da família e potencial culpado do homicídio que Anna julga ter testemunhado. Isto ironicamente dois anos depois de  vencer um Óscar por um filme de Joe Wright ( “A Hora mais Negra”). Já Jennifer Jason Leigh é tão subaproveitada que a sua inclusão no grupo de atores parece quase criminal. Julianne Moore sai intacta, aparecendo e desaparecendo como uma misteriosa névoa. A sua presença breve é um dos poucos vislumbres de genuína vitalidade ao longo de 1h40 de produto final.

A sucessão de calúnias aqui enumeradas em nada devem reduzir a predisposição para ver este filme, verdade seja dita. Antes fica a ressalva de que o produto final é menos “Vertigo” e mais “Scary Movie”, menos suspense de gelar os ossos e mais suposto terror que puxa à gargalhada.

A Mulher à Janela, em análise
A mulher à janela poster

Movie title: A Mulher à Janela

Movie description: Confinada à sua casa por sofrer de agorafobia, uma psicóloga fica obcecada com os seus novos vizinhos e em resolver um crime brutal que testemunha pela janela.

Date published: 16 de May de 2021

Country: United States of America

Duration: 100 minutos

Author: orig.A.J. Finn; adapt. Tracy Letts

Director(s): Joe Wright

Actor(s): Amy Adams , Gary Oldman , Julianne Moore,

Genre: Drama, Mistério , Crime

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  • Maggie Silva - 30
  • Cláudio Alves - 45
38

CONCLUSÃO

“A Mulher à Janela” é uma desgraça trágico-cómica protagonizada por uma Amy Adams capaz de manter a dignidade bem intacta.

Joe Wright deixa aqui mais uma nódoa na sua carreira depois do descalabro de “Pan” (2015).

Pros

Amy Adams.

Julianne Moore.

Cons

Tudo o resto.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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