Carol, em análise

 

Partindo de um romance de Patricia Highsmith, Todd Haynes constrói em Carol uma perfeita cristalização do desejo entre duas mulheres apaixonadas no repressivo passado da década de 50 do século passado.

 

Carol Título Original: Carol
Realizador: Todd Haynes
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson
Género: Drama, Romance
NOS | 2015 | 118 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

Baseado de um romance de Patricia Highsmith, originalmente publicado sob o anonimato de um nom de plume, Carol retrata o deflagrar de um romance entre Therese Belivet, uma jovem lojista aspirante a fotógrafa, e Carol Aird, uma dona-de-casa abastada em processo de divórcio no Inverno de 1951. As duas conhecem-se por mero acaso aquando das compras de Natal de Carol no mesmo armazém em que Therese trabalha, e daí inicia-se um reticente relacionamento, que, lentamente, passa de admiração a cumplicidade, a paixão e a algo mais profundo que tudo isso. O guião foi edificado por Phyllis Nagy numa magistral adaptação que retém a intima introspeção da personagem de Therese e expande a figura de Carol, que neste filme se torna num ser humano tão complexo e concretizado na sua totalidade como a sua jovem companheira, cuja perspetiva individual domina todo o livro.

A transpor este texto para o cinema temos Todd Haynes, um dos mais incontornáveis autores no paradigma do cinema americano atual, assim como uma das suas vozes mais esteticamente sofisticadas. Nas suas mãos, há uma elegante e clássica tradicionalidade empregue a esta narrativa transgressiva aquando da sua publicação original, tanto pela natureza homossexual do seu romance como pela sua recusa em castigar ou julgar as suas personagens em consequência das suas escolhas e desejos. Ao contrário de muitos outros autores de cinema romântico e de narrativas de época, Haynes não se deixa levar pela simples captura das interações entre as amantes, concebendo uma visão de grandiosa subtileza e delicada observação, onde o olhar da audiência é direcionado para a examinação de pequenos movimentos, trocas de olhares ou mudanças de postura. Para tal suceder, há que ter como protagonistas um irrepreensível duo de intérpretes, o que aqui incontornavelmente se verifica.

Carol Costume Designers Guild

Como Carol Aird, Cate Blanchett chegou ao que é, possivelmente, a máxima apoteose da sua carreira. A teatralidade glamourosa da atriz chega a níveis deliciosamente barrocos em Carol, tornando a personagem numa criatura inseparável da época em que se encontra, os seus maneirismos e a sua postura uma sintetização formidável da estilização das estrelas que iluminavam os cinemas na era dos grandes estúdios. No entanto, a acrescentar a esta criação de elegância personificada, Blanchett destemidamente injeta momentos de vulnerabilidade perfeitamente modulada, não descurando, contudo, nos aspetos mais desconfortáveis da sua personagem, como a sua predatória procura pela satisfação dos seus desejos ou sua altivez e ocasional arrogância. A sua presença ilumina e aquece a atmosfera invernal de Carol e nos seus olhares para a Therese de Rooney Mara, existe uma fogosidade inegável.

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Mara encontra-se num registo bastante distante do adotado pela sua coprotagonista, sendo que de modo magistral a atriz se torna num espelho humano, refletindo as emoções e perceções que terceiros projetam na sua pessoa. A sua expressividade é mínima quando comparada com a sinfonia que se revela na face de Blanchett, mas, ao longo do filme, Mara desabrocha em contidas explosões de emoção naturalista, como se a sua reação surpreendesse a sua própria personagem. E é aí que se encontra a mestria na sua abordagem, tornando Therese numa insularidade confusa mesmo para si mesma, uma mulher em crescimento, autodescoberta e processo de definição pessoal confrontada com uma oportunidade romântica de esmagadora e inesperada intensidade. Com a sua reticência, que nunca cai em opacidade emocional, é fácil perceber a fascinação que Therese desperta na personagem titular.

Carol

Blanchett e Mara não representam nas suas interações aquilo a que convencionalmente se veio a denominar como “química”, sendo que a relação entre as suas personagens parece resultar de um crescente e reticente fascínio que se vai tornando em desejo e em paixão do modo mais delicado imaginável. Não se encontra aqui a explosão de descarado carisma e abertura sentimental a que Hollywood nos tem vindo a expor na maioria dos seus romances, e nessa peculiaridade germina parte do encanto de Carol.

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O sucesso desta relação central é por isso também dependente de uma monumental execução formal e o realizador não descura nesse elemento. Inspirando-se na fotografia da década de 50, Haynes e Ed Lachman oferecem em Carol uma constante orgia visual, com as imagens capturadas em película de 16mm a oscilarem entre a beleza das fotos de Saul Leiter e uma energia puramente cinematográfica, que é complementada pela cenografia e figurinos que sugerem as imagens da época, mas também as suas texturas e sua temperatura, fugindo aos clichés mais usuais de filmes passados nos anos 50 em prol de uma subtil sedução sensorial.

Carol

Momentos como a passagem de Therese e Carol por um túnel dentro de um automóvel são perfeitos exemplos da miraculosa construção de Carol. Nesse instante, o tempo parece distender-se num momento sonhado, as imagens adquirem uma qualidade que sugere a abstração, tornando um movimento de uma mão ou um sorriso passageiro em manchas de primordial luz e cor. É como se, embebedado pelos epítetos de uma sísmica atração, o filme se desfragmentasse. Até a apaixonante Carter Burwell parece trocar o seu usual registo de luxuriante opulência orquestral por uma sonoridade mais etérea e indefinida. Sim, em cenas como esta, Haynes verdadeiramente parece ter cristalizado o conceito de desejo em puro cinema.

Todd Haynes explorou anteriormente este tema do desejo em obras como Velvet Goldimne mas enquanto nesse filme, o realizador nos apresentava a evolução, descoberta e maturação da atração através de várias camadas de mitologia pop, em Carol essa cristalização é capturada de modo direto pela câmara de Haynes, com todos os elementos do filme a exacerbarem a observação do desejo a desabrochar em paixão e nunca a se desdobrarem em discursos conceptuais paralelos. Desse modo, Carol é possivelmente o mais acessível dos filmes deste autor, assim como aquele em que a sua paixão pelos classicismos dos melodramas dos anos 50 mais se enraízam, não existindo em Carol a examinação pós-moderna desses mesmos convencionalismos como em Longe do Paraíso, mas sim a sua precisa aplicação e embevecida homenagem.

Carol

Há uma curiosa frieza conferida pelo formalismo da visão do realizador, demonstrando uma abordagem inteligentemente contraintuitiva para o que é, no seu âmago, um romance classicista. Esta faceta glacial não leva, no entanto, a um desprezo do seu elemento humano, com o elenco secundário a demonstrar-se particularmente adepto a cuidadosamente derreter o icebergue edificado pela mão de Todd Haynes. Com ricas e precisas caracterizações, Sarah Paulson como Abby, a melhor amiga da personagem titular, e Kyle Chandler como o marido de Carol, são de particular destaque, conseguindo telegrafar décadas da sua relação com Carol a partir dos seus fugazes momentos em cena. Numa cena entre Abby e Carol, Haynes é especialmente sagaz ao capturar, num entrelaçar de braços, a interligação de duas vidas em preciosa e antiga amizade. Gentis momentos de humanidade, delicadamente concretizados em abjeta perfeição estética e humana são o melhor resumo possível para a total experiência de Carol, um dos mais belos e essenciais romances a agraciar os cinemas mundiais nas últimas décadas e uma perfeita justificação para a existência desta arte nas nossas vidas.

CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “Carol, em análise

  • Perfeita colocação!
    Carol não é somente um dos melhores filmes do ano e, sim um dos melhores filmes da sétima arte!

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