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Os Capitão Fausto, a melhor banda portuguesa da actualidade aventurou-se no cinema com “Casa Pequena” uma comédia existencial sobre a idade adulta, as ilusões perdidas e a dificuldade de aceitar que o tempo passa. Ricardo Oliveira assina um filme irregular, entre o absurdo e o desencanto, que parece um videoclipe esticado até aos 95 minutos. A música é magnífica. O cinema, enfim, é outra profissão. 

Os Capitão Fausto chegaram àquela idade em que começamos a perceber que os problemas já não se resolvem com uma canção, uma noite de copos ou uma escapadela com os amigos. Aproximam-se dos 40 anos, têm responsabilidades, famílias, carreiras e algumas desilusões para administrar. Continuam a ser — pelo menos para mim — a melhor banda portuguesa da actualidade, mas decidiram experimentar outra coisa: fazer cinema. O resultado chama-se Casa Pequena, uma primeira longa-metragem de ficção de Ricardo Oliveira que oscila entre a autobiografia disfarçada, o humor absurdo e uma espécie de sessão de psicanálise colectiva. Não se saí propriamente entusiasmado do cinema, embora reconheça que o filme tem mais para dizer sobre os seus autores e a respectiva geração do que a sua aparente ligeireza deixa perceber.

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Ricardo Oliveira conhece os Capitão Fausto como poucos. Trabalha com eles há anos, realizou os seus videoclipes, o documentário Pontas Soltas e o filme-concerto Sol Posto. A ideia desta aventura cinematográfica foi amadurecendo durante oito anos, tempo suficiente para uma banda mudar de formação, gravar discos, atravessar crises e descobrir que a amizade também precisa de manutenção. Em Casa Pequena, cinco músicos esgotados refugiam-se numa casa na Serra da Estrela, à procura de inspiração. Encontram um anfitrião enigmático, interpretado por Zeca Medeiros, uma família com os seus próprios problemas e situações que começam a escapar à lógica. O retiro destinado a resolver uma crise criativa transforma-se numa sucessão de equívocos, suspeitas e desconfortos. Como acontece frequentemente nas férias em grupo, alguém devia ter escolhido outro alojamento.

Uma geração que perdeu o direito à irresponsabilidade

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O filme interessa sobretudo pelo que deixa escapar nas entrelinhas. Aqueles músicos pertencem a uma geração que cresceu convencida de que a liberdade era uma conquista definitiva e descobre agora que a maturidade vem acompanhada de facturas, prestações bancárias, filhos, pais envelhecidos e decisões que já não podem ser adiadas. O futuro, que aos vinte anos parecia uma promessa ilimitada, apresenta-se aos quarenta com uma lista de despesas e a desagradável exigência de escolher.

A habitação, a precariedade, o envelhecimento, a memória familiar e até o destino dos mais velhos atravessam discretamente a narrativa. A casa pode ser interpretada como um refúgio, mas também como um símbolo de pertença e de tudo aquilo que esta geração tem dificuldade em conquistar ou preservar. O filme toca nestas questões sem grande vontade de as aprofundar. Prefere o desvio, a sugestão e a brincadeira cinematográfica. É legítimo, mas nem sempre suficientemente estimulante.

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Ricardo Oliveira parece ter aprendido algumas lições com os primeiros filmes de Miguel Gomes e João Nicolau: o gosto pelas personagens excêntricas, os diálogos desconcertantes, a mistura de naturalismo e absurdo e aquela particular tradição portuguesa de filmar pessoas que aparentemente não sabem muito bem o que estão a fazer. A diferença é que Gomes e Nicolau conseguem frequentemente transformar o disparate numa linguagem própria. Em Casa Pequena, o disparate nem sempre encontra justificação dramática. Algumas situações prolongam-se, outras ficam suspensas e a narrativa perde intensidade precisamente quando precisava de conquistar o espectador.

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Cinco músicos, uma despedida e uma excelente banda sonora

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O filme ganha outra dimensão quando conhecemos de facto as circunstâncias da sua criação. A saída de Francisco Ferreira da actividade regular dos Capitão Fausto e as transformações pessoais dos restantes músicos fazem desta ficção uma espécie de fotografia de família antes de alguém abandonar a sala. A presença de Pedro Wallenstein, pai de Tomás Wallenstein entretanto falecido, acrescenta-lhe um significado afectivo particular, numa aparição que escapa durante a projecção e só posteriormente é possível confirmar na ficha técnica.

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Entre os intérpretes profissionais, Ana Vilela da Costa, Bárbara Lourenço e Zeca Medeiros ajudam a sustentar a componente ficcional. Este último possui uma presença tão peculiar que bastaria colocá-lo numa casa isolada para instalar um clima de estranheza. Pena que o argumento não aproveite melhor essa possibilidade.

Mas quando entram as músicas, tudo melhora consideravelmente. A banda sonora recupera composições e ideias surgidas durante a preparação de Subida Infinita, prolongando o universo musical dos Capitão Fausto com temas como «Escolhas», «Casa Pequena» e «Quando Vais Dormir». A música estabelece relações emocionais que as imagens nem sempre conseguem construir e transforma este projecto numa passagem entre dois momentos da história do grupo. Mais do que acompanhar um filme, estas canções parecem preparar o próximo capítulo da banda.

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JVM 6/10

Casa Pequena

Conclusão

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Conclusão: Casa Pequena é uma experiência cinematográfica simpática, desigual e ocasionalmente inventiva, mais interessante como documento de uma geração e testemunho de uma amizade do que como obra de ficção autónoma. Falta-lhe disciplina narrativa, sobram-lhe hesitações e alguma complacência com o universo dos próprios autores. Mas percebe-se a vontade de registar uma mudança antes que ela se torne irreversível. Os Capitão Fausto continuam a fazer excelente música e ainda bem que arriscaram fazer cinema. Só não nos peçam para gostar das duas coisas da mesma maneira. Para já, preferimos comprar o disco a repetir a sessão.

Overall
6/10
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O melhor: A extraordinária banda sonora, a cumplicidade dos músicos, a presença de Zeca Medeiros e o retrato discreto das inquietações de uma geração confrontada com a idade adulta.

Cons

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O pior: A dispersão narrativa, algumas interpretações pouco convincentes e uma sucessão de episódios que parecem retirados de um videoclipe demasiado comprido. A intimidade dos autores nem sempre se transforma em interesse para quem está do outro lado do ecrã.


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