Kyle MacLachlan em "Dune" de Lynch (1984) |©Universal

Classic Fever | Dune (1984) de David Lynch

Agora que “Dune” é reinterpretado para uma nova era, será pertinente revisitar a primeira adaptação cinematográfica da marcante obra sci-fi de Frank Herbert, que dividiu opiniões pela exuberância estilística da sua imagem e pela ousadia do seu conteúdo ideológico.

“Dune” ou “Duna”, como preferirem chamar, à semelhança de outras obras de ficção científica aclamadas pela crítica literária – e estamos a falar de uma que estreou o prémio Nebula em 1966 -, nunca gozou de um favoritismo consensual, sobretudo no que concerne a romances adaptados para cinema. Mas percebe-se a picada impulsiva em materializar o devaneio escrito de Herbert num formato visionável, ainda para mais num período (anos 80) em que o sci-fi ganhava tração em Hollywood, e era premente um sucessor espiritual para Star Wars. E com blockbusters como “Alien”, “Blade Runner” ou “ET” caídos nas boas graças do público, Dune teria de ser memorável para conseguir reclamar tamanho pedigree e ainda sair por cima. Ora, ainda antes de se fixar definitivamente nas mãos de David Lynch, o quimérico manuscrito de Herbert andou a queimar milhões no colo de distintos realizadores como P. Jacobs ou Ridley Scott, até Alejandro Jodorowsky se perfilar como o “preferiti” para dirigir o destino de Dune.

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Dune © 1984 Universal

Eu não posso ter medo. O medo é um assassino da mente. O medo é a pequena morte que trás consigo a obliteração total. Eu vou enfrentar os meus medos. E quando o meu medo desaparecer, eu vou enfrentar o caminho dos medos, e só eu vou restar. [Paul Atreides em Dune]

O cineasta chileno de ascendência russa, conhecido nos anos setenta pelas suas metragens surrealistas de cariz espiritual, não almejava para o seu Dune, menos que a profecia de um “deus artístico” cinematográfico. Dune de Jodorowsky seria, portanto, um “Paul Atreides” que iria libertar a indústria da sua visão mundanal, oferecendo aos espetadores uma espécie de nirvana imagético, encabeçado por um elenco snobe de luxo com nomes como Salvador Dali, Mick Jaeger ou até Orson Wells. E com a crescente demanda de contrapartidas, quer por parte de Jodorowsky, quer das suas estrelas, adicionando ainda o peso de um argumento superior a mil páginas que não teria uma duração inferior a doze horas, o sonho apolíneo de Jodorowsky esfumou-se na mortalidade de tudo o que existe realisticamente. Foi então que a produtora de Dino e Rafaella De Laurentiis virou-se para o jovem Lynch – que tinha acabado de colocar “The Elephant Man” na senda dos Óscares -, acenando-lhe com quarenta milhões de budget e uma liberdade criativa irrecusável. Mas Lynch não sabia em que duna se estava a meter, com a exigência rigorosa de compactar a densa trama em apenas duas horas de fita a revelar-se um autêntico pesadelo arenoso. Toda a produção de Dune foi marcada por uma chaga de conflitos diretivos, infortúnios técnicos e frustrações artísticas, que não fosse a cordialidade da mulher forte (Rafaella) e do seu “Maestro” (Lynch), o por ela designado “mastodonte” de filme não teria visto a luz do dia.

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Qual a história de Dune?

Em termos genéricos e simplistas, a resposta a essa complexa questão deduziria a ideia bíblica da vinda de um messias que irá libertar o seu povo da opressão imperial. Mas subtrair Dune à sua vertente expressamente religiosa seria quase um sacrilégio, já que a maior riqueza do seu universo assenta na infusão fervilhante de temáticas societariamente relevantes, como são a jigajoga política na luta de classes ou a colonização intergalática associada à apropriação de recursos naturais…Curiosamente, a projeção do futuro por parte de Herbert remete-nos para uma linha temporal a dez mil anos da nossa, recuando a civilização humana para o modelo de sociedade feudal da Idade Média. Nesta ordem planetária tripartida, centralizada na figura do Imperador Padishah Shaddam IV, eloquentemente mimetizado pelo eterno José Ferrer, é ele quem controla as duas outras forças que lhe prestam vassalagem: a Guilda Espacial – uma organização tecnocrata e economicista que detém o monopólio das viagens interestelares – e as antagónicas casas nobiliárquicas de Atreides e Arkonnen que disputam entre si o contrato de exploração da valiosa melange. Existe ainda o que pode ser considerado um quarto poder mais ou menos oculto numa hierarquia vincadamente antropocentrista, as Bene Gesserit – uma influente irmandade pseudo-religiosa de mulheres especializadas com elevados atributos psíquicos, imiscuídas no poder de decisão. Os Fremen – o subjugado povo nómada de Arrakis, terão de ser reconhecidos como a quinta força dominante, que por intervenção do seu líder “Muad’Dib” (Paul Atreides) reclamam a independência do território ocupado pelo Imperium. Assim, é neste volátil tabuleiro de interesses conflituantes que Dune é forjado, entretecendo-nos numa teia de puxões emocionais animados por uma atmosfera neo-medieval palaciana e contundente, sempre a descambar para a obscenidade.

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Como relembrar Paul Atreides e Vladimir Arkonnen em Dune?

O tão badalado protagonista, Paul Atreides (Kyle MacLachlan), que hoje conserva uns belos sessenta e dois anos, era por aquela altura um completo desconhecido dos cinéfilos e, por isso mesmo, o candidato ideal para replicar sem vícios representativos o vigoroso papel do aristocrata galã com poderes sobre-humanos. Mas MacLachlan não parece atingir a potência interpretativa condizente com o estatuto reservado a Paul, ainda que a sua inexperiência se possa confundir com a jovialidade da sua personagem, a tenrrinha atuação asemelha-se mais à de um daqueles filhos mimados da realeza. Contudo, o que o salva de uma certa letargia em cena, não obstante os ostensivos e hibernantes sussurros discursivos em prol do psicadelismo de Dune, tem mais que ver com o carisma e ingenuidade dos seus vinte e sete anos, do que propriamente com as suas valências como ator, embora não se possa dizer que se espalhe ao comprido numa fita tão bizarra. Ainda assim, existem algumas cenas bem esgaravatadas por MacLachlan, como o temível teste psicológico diante da Madre Suprema Mohia (Sîan Philips), a alucinante domação da criatura gigante, ou o mortal mano-a-mano com o seu arqui-inimigo Feyd Rautha (Sting) da Casa Arkonnen.

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Dune © 1984 Universal

Eu não vos direi quem o traidor é nem quando atacaremos. Porém, o Duque irá morrer à minha frente e saberá que serei eu, o Barão Vladimir Arkonnen que o matará. [Barão Arkonnen em Dune]

O segundo interveniente mais relevante na obra de Herbert é, sem dúvida, o maquiavélico e megalómano Barão Vladimir Arkonnen, vilmente ensaiado por Kenneth McMillan, que só aos trinta anos de idade decidiu perseguir uma carreira como ator. Normalmente chamado para desempenhar papéis sinistros, o próprio nome da sua personagem assenta-lhe que nem uma luva, não tivesse sido descoberto aleatoriamente numa lista telefónica. No filme de Lynch, a sua presença endeusada é por de mais evidente, sobretudo por aparecer sempre com o rosto pustulento a pairar num fato voador insuflável com quarenta e cinco quilos. Aliás, a aparência asquerosa do mauzão de Dune, supostamente intentada como um alerta para o vírus do HIV, em nada favoreceu a causa ou contribuiu para normalizar a sua aceitação, amontoando ainda mais o factor “freakazóide” deste Dune. E ainda que McMillan se tenha esforçado por aligeirar a macabrez da sua imagem com as típicas gargalhadas jocosas da malvadez, parece-nos que Lynch tenha ido longe demais com a sua caraterização, caricaturando agressivamente uma figura que no livro de Herbert prima mais pela genialidade do seu inteleto, do que pelo espalhafato horrendo. Contudo, McMillan consegue fazer um papelão nesta versão doentia e perversa do Barão, alimentando o enredo com um vasto cardápio de loucuras sádicas que não desejamos ver, mas que no fundo também não queremos deixar de espreitar, só para matar a curiosidade. Desde insinuações canibalistas a torturas repulsivas, passando por tampões para o coração e outras estranhezas nada amigáveis, é só escolher…

Qual o legado deixado por Lynch para Dune?

Em primeiro lugar, à que dizer, que apesar de Lynch ter repudiado publicamente o seu Dune, referindo-se a ele como um “falhanço total”, o resultado final está bem longe de ser a tragédia cinematográfica pelo próprio e por muitos apregoada, ainda que não tenha vingado no “Box Office”. Numa segunda nota, à que referir com justiça e lucidez, que Dune é daquelas obras cujo caráter abstrato constituirá sempre um tremendo desafio a uma conversão audiovisual pacífica e unânime, pelo que a interpretação de Lynch deva ser escrutinada num plano mais subjetivo e individual, livre do facilitismo da comparação estrita com o material original. Dito isto, Dune de David Lynch possui os seus méritos, e o mais óbvio remete-nos para a faustosa fidelidade visual, na forma como o ambiente e o espírito da obra de Herbert são captados, na sua dimensão mais idílica, extravagante e alien. Não é à toa, que o seu mal amado Dune tenha maturado a fama dos filmes de culto, levando Lynch a embarcar na veia psicotrópica do filme, como um cientista louco que se enfia no seu laboratório a conjugar os seus sonhos febris com as texturas mais arrojadas e a palete de cores mais berrante. Assim, o casamento dos delírios fantasiosos de Herbert com as extrapolações artísticas de Lynch, só poderia consumar-se em algo único e transcendental do ponto vista estético e até narrativo, o que assustou muita boa gente habituada a uma ficção científica menos convencional até então.

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Dune © 1984 Universal

Porque é que queres prolongar o inevitável? Eu vou-te matar! [Feyd em Dune]

Estamos só a falar de uma longa metragem futurista invariavelmente despojada de cenários e adereços mais comumente associados a um avanço tecnológico significativo, que aqui são limitados ao estritamente necessário, já que o foco da história de Herbert privilegia o “world building” através do discurso, e não o inverso. Mas nem por isso as vistas são menos dignas da temática sci-fi, com a justaposição de luxuosos “sets” banhados de um estilo arquitetónico egípcio/art deco que reflete o Império e a Casa Atreides, a contrastarem com a calidez gótica do leve mas aguçado flanco mais industrial e mecânico trazido a bordo pelos Arkonnen. Lynch é hábil e astuto em puxar do terreno o seu lado mais sobrenatural, embora existam algumas inconsistências na qualidade geral da sua apresentação, muito por culpa do remedeio para colmatar o abandono do supervisor de efeitos visuais a meio das filmagens. Mas no cômputo geral, o mundo criado pelo atrevido realizador americano dignifica aquele que Herbert redigiu em Dune, e em muitos sentidos poderá ser encarado como uma obra de arte decadentista, quer pelo arrojo da sua cinematografia, quer pela bravura do seu enredo contemplativo.

As mais de oito mil peças de vestuário a cargo de Bob Ringwood, que elevam todo o pacote panorâmico de Dune, tiveram de ser fabricadas no tempo recorde de quatro meses, sendo que grande parte delas eram acabadas e improvisadas no último segundo antes da gravação do “take”. Vigorava a lei do desenrasca, e tudo era aproveitado para conceber o look desejável, como tubos de automóvel para as mascarilhas respiratórias ou sacos para cadáveres usados nas vestimentas dos Navegadores. É por todas estas peculiaridades que este Dune merece ser mais enaltecido do que vilipendiado, mesmo tratando-se de um trabalho com alguns defeitos que o impedem de atingir a grandiosidade. Os maiores “crimes” de Dune prendem-se com a emolução da sua inclinação medidativa, que empregna uma retórica já de si complexa pela sua componente política, com uma baixa intensidade auditiva indutora de um excessivo efeito soporífero em mais de metade das conversações. O outro pedragulho no sapato de Dune diz respeito à reprodução visualmente grotesca dos Navegadores e dos Arkonnen, que ainda que se tente admirar o lado artístico, não deixa de induzir no espetador um certo repúdio à vista. Tudo espremido, Dune de David Lynch é um feito audiovisual para o seu tempo, um exercício estético de experimentação criativa levada ao extremo, que ou se ama ou se odeia. Uma coisa é certa, Dune será sempre uma obra contorversa, e só isso basta para ser intemporalmente relevante em todas as suas passadas e futuras iterações.

Dune” de Dennis Villeneuve encontra-se atualmente nas salas de cinema nacionais, por isso não deixes passar a oportunidade de conheceres uma das obras literárias sci-fi mais marcantes de todos os tempos.

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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