Óscares 2017 | Colleen Atwood

Colleen Atwood, a figurinista preferida de Tim Burton e Rob Marshall, é uma das deusas da sua área e os Óscares adoram-na quase tanto como amam Meryl Streep.

 


<< Stuart CraigTravis Knight >>


 

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VIÚVA… MAS NÃO MUITO (1988) de Jonathan Demme

 

Antes de se tornar numa espécie de “Meryl Streep” das figurinistas, pelo menos no que diz respeito aos Óscares, Colleen Atwood começou a sua carreira com o tipo de filme mais desprezado na categoria dos Melhores Figurinos – a comédia contemporânea. Inicialmente, Atwood estudou pintura e começou a sua vida profissional no mundo da moda e do pronto-a-vestir. A sua entrada no mundo do cinema, como assistente de produção em Ragtime, nem sequer foi planeada como o início de uma nova carreira no mundo dos figurinos, mas isso não impediu Atwood de acabar por se tornar uma figurinista, primeiro de teatro e depois de cinema. Apesar disso, como já apontámos, com comédias contemporâneas como o delicioso Viúva… Mas Não Muito a lhe preencherem o portefólio, Atwood estava a anos luz do tipo de projeto preferido pela Academia.

 

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EDUARDO MÃOS DE TESOURA (1990) de Tim Burton

 

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O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991) de Jonathan Demme

 

O ponto de viragem da sua carreira ocorreu quando a cenógrafa Bo Welch a apresentou a um jovem realizador em início de carreira chamado Tim Burton. O início da colaboração entre estes dois iconoclastas do cinema contemporâneo teve lugar com Eduardo Mãos de Tesoura, uma gloriosa visão caricaturada dos subúrbios americanos e o modo como a sua tirania da normalidade pastel é violada pelo aparecimento da personagem titular e sua bizarra aparência. Mesmo décadas depois, Atwood ainda afirma que o figurino que ela concebeu para Johnny Depp usar neste filme é o favorito de toda a sua carreira e é fácil entender a sua paixão. Outra imagem icónica que Atwood assinou nesta altura da sua carreira foi a máscara açaimada e uniforme prisional de Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes de 1991.

 

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ED WOOD (1994) de Tim Burton

 

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AS MULHERZINHAS (1994) de Gillian Armstrong

 

Independentemente da sua durabilidade na mente coletiva, os figurinos desses dois projetos ainda eram demasiado contemporâneos e grotescos para a Academia de Hollywood e o seu gosto por opulentos dramas históricas nesta categoria. Mesmo assim, quando finalmente arrecadou a sua primeira nomeação, Atwood fê-lo com um guarda-roupa que, apesar de histórico, é primoroso precisamente pela sua subtileza, inteligente falta de fausto e cuidados detalhes caracterizantes das personagens e do seu mundo socioeconómico. Referimo-nos a As Mulherzinhas de Gillian Armstrong que estreou em 1994, no mesmo ano em que Atwood se reuniu com Tim Burton para fazerem a carta de amor ao mais incompetente cineasta de sempre, Ed Wood. Alguns dos projetos mais célebres que se seguiram na carreira de Atwood foram as roupas mirabolantes da invasão alienígena de Marte Ataca!, também de Tim Burton, e uma visão futurista de severo minimalismo em Gattaca.

 

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BELOVED (1998) de Jonathan Demme

 

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A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999) de Tim Burton

 

Chegado o ano de 1998, Atwood voltou a trabalhar com o outro realizador, para além de Burton que mais lhe marcou o princípio da carreira, Jonathan Demme. O filme em questão foi Beloved, um drama trágico sobre histórias do esclavagismo no século XIX, que possui um guarda-roupa que mistura estilização em termos de cor, padrão e motivos decorativos com uma pesquisa histórica quase arqueológica. Esse equilíbrio entre primor e detalhe histórico mesclado com uma estética de fantasia, meio gótica meio expressionista, tornou-se a imagem de marca de Colleen Atwood. Em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça de Tim Burton, Atwood criou o apogeu desta sua abordagem estilística e, em 2002, viria a aplica-la a um novo tipo de cinema, o musical. Essa estreia foi feita com Rob Marshall em Chicago, uma salaz visão dos anos 20 que valeu a Atwood o seu primeiro Óscar.

 

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CHICAGO (2002) de Rob Marshall

 

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MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (2005) de Rob Marshall

 

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NOVE (2009) de Rob Marshall

 

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CAMINHOS DA FLORESTA (2014) de Rob Marshall

 

O segundo troféu de Atwood não tardou muito chegar-lhe às mãos, e foi com outro filme de Rob Marshall, Memórias de Uma Gueixa, onde Atwood adaptou as modas tradicionais japonesas a uma estética mais ocidental mas não menos sumptuosa que a original. Até agora, Atwood recebeu nomeações ao Óscar por todos os filmes que vestiu para Marshall, incluindo a homenagem a Fellini de Nove e os contos-de-fadas subvertidos de Caminhos da Floresta. Mesmo assim, a sua mais fiel relação profissional é com Tim Burton. Com as fantasias vitorianas de Sweeney Todd, Atwood foi novamente nomeada ao Óscar, mas foi com a sonhadora reinterpretação de Alice no País das Maravilhas que ela conseguiu conquistar o terceiro troféu. A sua colaboração com Burton é tão marcante que a estética de Atwood se tornou quase sinónimo do realizador de tal modo que um filme como Uma Série de Desgraças parece logo um filme de Burton só pelo facto de ter figurinos de Atwood no mesmo estilo de fantasia pseudo oitocentista.

 

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LEMONY SNICKET: UMA SÉRIE DE DESGRAÇAS (2004) de Brad Silberling

 

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SWEENEY TODD (2007) de Tim Burton

 

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ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (2010) de Tim Burton

 

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BRANCA-DE-NEVE E O CAÇADOR (2012) de Rupert Sanders

 

Nos últimos anos, Atwood tem vindo a afastar-se cada vez mais de quaisquer noções de realismo no seu trabalho, com exceção dos fatos de super-heróis de Arrow e Supergirl que ela fez para televisão. Em filmes como Sombras da Escuridão e as macabras visões de Branca-de-Neve e o Caçador (mais uma nomeação para o Óscar!), os figurinos de Colleen Atwood ainda denotam algumas ligações a estilos históricos mas o seu trabalho está cada vez a ser mais insular, o que não é necessariamente mau. 2016 viu estrear quatro filmes vestidos por Atwood, todos eles fantasias mas, curiosamente, foi aquele mais ligado a modas de época que lhe garantiu a sua décima segunda nomeação para o Óscar, Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los. Este projeto, passado numa Nova Iorque dos anos 20 em que feiticeiros e bruxas vivem em paralelo com a nossa realidade histórica, é a estreia de Atwood na saga Harry Potter e ainda é incerto se não será a sua única contribuição para o franchise. Por fim, Atwood já começou a trabalhar na nova versão cinematográfica de Tomb Raider, um projeto onde, finalmente, a figurinista parece ir voltar ao aventuroso mundo dos figurinos contemporâneos.

 

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MONSTROS FANTÁSTICOS E ONDE ENCONTRÁ-LOS (2016) de David Yates

 


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Uma das curiosidades mais bizarras do Óscar de Melhores Figurinos envolve Atwood e a outra rainha moderna da categoria, Sandy Powell, Apesar de serem duas deusas da sua área, estas duas figurinistas apenas ganham Óscares quando estão a competir diretamente uma com a outra, tendo ambas já ganho três Óscares (2002, 2005 e 2010 para Atwood, 1998, 2004 e 2009 para Powell). Quem sabe se, porventura, Atwood quebra essa “regra” no domingo?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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