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Conduz o Meu Carro, em análise

Um dos grande nomeados ao Óscar da Academia de Cinema chega agora aos cinemas portugueses. Vem descobrir a nossa opinião sobre “Conduz o Meu Carro”.

OS CAMINHOS PERCORRIDOS E OS QUE FICARAM POR PERCORRER…!

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Há uma estranha sensação de intimidade durante o visionamento das sequências iniciais de DRIVE MY CAR quando partilhamos a presença física dos actores na exposição de uma sexualidade e de um erotismo plenamente assumidos, sem artifícios fotográficos desnecessários. Impressão que se apodera do espectador como um pulsar vital deste filme japonês escrito e realizado por Ryusuke Hamaguchi, a partir do conto homónimo de Haruki Murakami. Desde esses primeiros minutos que sentimos a atenção e o olhar serem atraídos de forma quase irresistível para o exercício de construção narrativa que um homem, Yusuke (Hidetoshi Nishijima) e uma mulher, Oto (Reika Kirishima) vão partilhando na cama e em jogos de prazer simultaneamente materiais e intelectuais. Na aparente normalidade da sua relação sexual, ambos escrevem mentalmente e de forma muito privada uma história feita seguramente de muitas histórias até ao momento em que o aparente equilíbrio e harmonia desta relação será posto em causa. Numa certa manhã, um vôo adiado e uma viagem que não se realiza faz com que Yusuke regresse ao apartamento onde, por mero acaso, descobre Oto com outro homem. Estamos perante um momento que pensamos irá ser consubstanciado na ruptura iminente do casal, ruptura que a parte adúltera de certa maneira já assumira mas não sabia ainda estar revelado, e que a outra, a que passou de súbito a estar mais próxima de nós por partilharmos a revelação daquilo que fora escondido, irá manter em silêncio, numa atitude que acaba por contaminar a nossa percepção do deve e haver de ambas as partes, gerando uma dúvida legítima sobre a possibilidade ou não da futura continuidade do casal. Pensamos, mas se a ruptura existe as suas consequências não são imediatas. Estamos aqui no limiar de uma zona híbrida onde se joga uma cartada arriscada, polvilhada de imponderáveis. Sobretudo porque não assistimos ao que seria mais vulgar, o exacerbar de emoções que, numa representação mais básica, podia chegar a situações patéticas e melodramáticas. Nada disso. Frieza absoluta. Entretanto, perante o regresso de certas rotinas do casal sentimos a vontade ou mesmo a necessidade de gritar e dizer, alto e bom som, acabem com esta hipocrisia, assumam as vossas responsabilidades ou então, sejam como são, mas não caiam na mais linear e cinzenta das infidelidades, a que a mulher assume em segredo e o homem faz por esquecer provavelmente por má consciência ou simples falta de coragem. Para os devidos efeitos, o que poderia ser então encarado como um possível acto redentor, qualquer coisa próxima do perdão, parece não encaixar nos planos mais próximos do casal. Será essa uma prova do amor que Yusuke parece querer preservar na relação com Oto, autora de argumentos com quem partilha a carreira de actor e encenador? Deste modo e de forma magistral, através dos diálogos e gestos simples, assim como da exposição das pequenas e grandes rotinas diárias a que Yusuke e Oto se entregam sem grandes contradições, a realização vai-nos retirando os pontos de contacto que nos identificavam o lugar de cada uma das personagens, os pilares que pensávamos seguros e que nos permitiram até ali um certo conforto na construção subjectiva da referida e inicial cumplicidade face ao papel atribuído e desempenhado pelos actores. De repente, eles voltaram ao específico do seu espaço fílmico e, daqui para a frente, Ryusuke Hamaguchi passa a comandar as operações. Primeiro faz desaparecer a presença física de Oto, mas não a memória sonora da sua voz gravada, abrindo as portas a uma espécie de segundo filme dentro do filme, ou seja, o que resta da perdida relação de dois seres no remanescente dos seus 179 minutos. E fá-lo através do relançamento da ficção que coincide igualmente com o lançamento gráfico do genérico inicial. Na abertura deste novo e longo capítulo, que podemos considerar uma ruptura no corpo fílmico, assistimos ao nascer de um segundo fôlego narrativo provocado pela referida opção editorial. Depois, a estrutura fílmica segue em frente para sustentar as circunvoluções do argumento que irão dar forma e consistência a um fascinante exercício de cinema onde os ensaios e a representação da peça de Anton Tchekhov, o Tio Vânia, funcionarão como pretexto para uma deslocação do eixo da acção para a cidade e prefeitura de Hiroshima, local e região para onde Yusuke viaja depois de ser convidado a dirigir o clássico da dramaturgia russa no âmbito de um conhecido Festival de Teatro. Uma vez instalado numa área verde situada a uma hora de distância do centro da cidade, Yusuke será coadjuvado por um jovem de origem coreana, papel defendido por Jin Dae-Yeon que por ser fluente em várias línguas, se revela a personagem que sustenta a ponte entre o encenador e um conjunto diversificado de actores que se apresentam como candidatos aos papéis da referida peça. Um grupo marcado pelas diferenças linguísticas, fruto das suas diferentes nacionalidades, e onde se inclui uma jovem surda, interpretada por uma excelente Park Yu-Rim, que usa a linguagem gestual numa interacção silenciosa com os seus pares e na posse plena de uma expressividade perfeitamente compatível com a oralidade dos outros intérpretes. Serão aliás dela alguns dos momentos mais fortes e exuberantes, precisamente no plano da comunicação dos sentimentos e emoções, de entre os muitos que são visíveis em DRIVE MY CAR. Do passado que corresponde ao semi-prólogo do filme ficara a pairar como um fantasma a presença de um jovem, Kôji Takatsuki (Masaki Okada), que Oto apresentara a Yusuke. Esta personagem irá, digamos assim, renascer em Hiroshima ao candidatar-se a um papel, não o que inicialmente desejava mas sim o do próprio Tio Vânia, no que se pode qualificar como o desenhar do mais controverso vértice da narrativa, o que vai provocar alguns dos mais sérios conflitos e onde se pode observar até certo ponto o lado algo perverso de Yusuke. Mas a personagem que se irá revelar como a mais forte não será nenhuma das já referidas, mas sim aquela que ao início parecia a mais frágil, uma enigmática e aparentemente pragmática Misaki Watari (Toko Miura), a motorista contratada para conduzir, por imposição dos organizadores do Festival, o carro de Yusuke, um SAAB 900. Tudo por questões de segurança e salvaguarda da gestão financeira da instituição face a quaisquer imprevistos que pudessem acontecer. Depois de um certo distanciamento, Yusuke e Misaki irão reforçando pouco a pouco uma aproximação que ao início não parecia ultrapassar facilmente a barreira social e profissional. No entanto, ambos irão construir uma plataforma de compreensão mútua que equivale ao preencher do vazio que cada um não parece superar no cumprimento das suas previsíveis agendas. Nas viagens para lá e para cá, o realizador, através de Yusuke, faz entrar em cena, e em especial na acção que se desenrola no interior do carro, a gravação com a voz de Oto, a voz que ela gravara para ele ensaiar as deixas no papel de Tio Vânia. Fabulosa ideia, que volta a chamar o espectador para o lado da figura do encenador e actor, devido ao facto de ao longo de várias sequências passarmos a saber mais do que Misaki, a mulher motorista que não estava em condições de contabilizar o peso que essa voz ainda possuía nem o efeito que podia desencadear no comportamento daquele que conduzia e que julgava começar a ver com outros olhos, um rosto liberto e sem máscara.

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Na verdade, a narrativa de DRIVE MY CAR situada em Hiroshima, até ao momento em que de forma mais ampla Yusuke e Misaki revelam o que lhes vai na alma, correspondia a uma rotina em que a hierarquia não era posta em causa, apesar de num ou outro momento parecer abrandar. Só que a realização não quis ficar pela manutenção do cumprimento rigoroso das regras sociais que formatavam a relação adiada. Pelo contrário, num momento fulcral e muito complexo de uma nova ruptura em que se colocou em cima da mesa a possibilidade de cancelamento da peça, Ryusuke Hamaguchi irá optar pela subtil mas explícita subversão das convenções, empurrando aquele homem e aquela mulher na mais longa viagem de carro rumo ao norte do Japão e a uma das regiões habitualmente mais frias e cobertas de neve de Hokkaido, mais precisamente a uma aldeia onde Misaki guardava memórias conturbadas da sua infância. Numa atmosfera onde a Natureza passa a ser ela própria uma outra personagem, a motorista e o encenador encontram finalmente o ponto de equilíbrio existencial capaz de superar a dor, a perda, o sentimento de culpa e a vergonha de expressar o que afinal deveria ser a mais natural das atitudes inerente a qualquer ser humano, o desejo de olhar de frente com a consciência pacificada rumo a um novo futuro. Dito isto, não admira que os últimos planos de DRIVE MY CAR, nos mostrem uma situação absolutamente comum. Podia ser o destino de qualquer um dos que viajaram e não se perderam por entre as curvas e contra-curvas da estrada da vida, pelos caminhos percorridos e por percorrer, que nesta história podemos adivinhar continuarem para além da última imagem.

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Movie title: Doraibu mai kâ

Date published: 7 de March de 2022

Director(s): Ryûsuke Hamaguchi

Actor(s): Hidetoshi Nishijima, Toko Miura, Masaki Okada, Reika Kirishima

Genre: Drama, 2021, 179min

  • João Garção Borges - 80
  • José Vieira Mendes - 90
  • Virgílio Jesus - 90
  • Cláudio Alves - 95
89

Conclusão:

PRÓS: Para além do que disse na crítica, não será por acaso que este filme está nomeado para quatro óscares: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Filme de Produção Internacional. Trata-se do primeiro filme japonês a ser nomeado para aquela que se considera a categoria principal, ou seja Melhor Filme, por ser a que premeia os valores globais de produção. Facto que fica muito bem aos actuais gestores da Academia, mas que devia envergonhar os do passado que assobiaram para o lado a autores geniais como Ozu Yasujiro, Mizoguchi Kenji, Kurosawa Akira, entre muitos outros. Na lista de nomeações dos BAFTA encontramos novamente a forte possibilidade de sair premiado nas categorias Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Para quando um prémio com menos chauvinismo linguístico? Não será igualmente por acaso que no Festival de Cannes de 2021 recebeu o prémio para Melhor Argumento, assim como o prémio da FIPRESCI, atribuído por críticos de cinema, e o prémio do Júri Ecuménico. E a lista de prémios atribuídos e por atribuir já vai extensa, podendo a estes ser acrescentados outros com maior ou menor peso a nível internacional.

CONTRA: Não pensem que dou 80 sem um pequeno reparo. Como disse, são muitos e bons os actores que compõem o elenco de DRIVE MY CAR. Mas há que dizer uma coisa: nenhum dos jovens realizadores japoneses conseguiu nos últimos anos, mesmo quando são grandes e nos propõem obras de inegável qualidade, superar os acima citados mestres maiores do cinema japonês e mundial. E isso nota-se sobretudo na direcção de actores. Repito, os actores deste filme são bons, mas há um défice de componente emocional no modo como em certos momentos se relacionam entre si enquanto personagens de ficção, como se o realizador quisesse fazer deles espelhos de uma alma que não lhes pertence. Há, curiosamente, uma discussão muito interessante durante os ensaios de leitura do Tio Vânia em que os actores criticam abertamente a atitude do encenador. Demonstração de que Ryusuke Hamaguchi, honra lhe seja feita, provavelmente sabe bem, por ser evidente o exercício de montagem que reforça esse momento particular da planificação, onde reside o seu calcanhar de Aquiles.

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