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Onoda – 10.000 Noites na Selva, em análise

Arthur Harari conta-nos a grande história verdadeira de Hiroo Onoda, um dos contos mais marcantes vinda de um dos combatentes da Segunda Guerra Mundial.

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Onoda Hiroo, o homem e veterano de guerra que realmente existiu, nasceu a 19 de Março de 1922 e faleceu a 16 de Janeiro de 2014. Durante a Segunda Guerra Mundial foi incorporado nos serviços de informação militares do Exército Imperial do Japão, uma espécie de comandos preparados para proceder a uma análise concreta da situação concreta a partir de um conjunto de dados, recolhidos habitualmente num contexto secreto, de modo a dotar de maior eficácia as decisões consideradas necessárias ou adequadas no decorrer de um determinado conflito bélico. Estes serviços funcionam igualmente em períodos de paz ou, melhor dizendo, em momentos de relativa ou ilusória paz.

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No filme ONODA, 10.000 NOITES NA SELVA, de Arthur Harari, logo ao início vemos um rapaz (Taiga Kakano) a dirigir-se de barco para a Ilha de Lubang nas Filipinas. Nesta sequência inicial, a acção corresponde ao mês de Setembro e ao ano de 1974, e aquele pedaço de areia, montanha e selva perdido no Pacífico Sul não é outro senão o mesmo para onde, um pouco mais adiante na estrutura fílmica, mas 30 anos antes, do ponto de vista narrativo, o jovem Onoda Hiroo (Yuya Endo) se dirige no cumprimento de uma missão muito específica, a de organizar a resistência do exército japonês que ali se encontrava cercado pelas forças americanas. Era urgente avançar com a destruição de posições estratégicas, entre elas um campo de aviação. Mas quer os oficiais, quer a maioria dos soldados completamente esgotados pelos combates e pela doença, já não mostravam a mesma força de vontade ou mera disponibilidade para sacrificar as suas vidas por uma causa que para alguns estava meio perdida e para outros já posta de lado. Os ecos das bombas do inimigo, assim como as constantes provocações e sabotagens dos habitantes locais, não enganavam os que lá combatiam com o resto das forças e do esfarrapado moral. Nem sequer precisavam dos serviços secretos para avaliar a gravidade da situação, e qualquer oficial com um mínimo de realismo sabia antever o desfecho mais do que provável do conflito. Perante o degradar contínuo da disciplina dos que outrora se tinham erguido, inflamados pelo discurso patriótico dos militaristas de Tóquio, nos primeiros anos motivados por algumas grandes vitórias, nomeadamente nas Filipinas, só um grupo de guerrilheiros fanático ou ideologicamente mais determinado poderia agora inverter o curso dos acontecimentos. Essa era a missão quase impossível de Onoda.

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Depois de colocar as cartas na mesa, o realizador, que assina igualmente o argumento e guião em parceria com Vincent Poymiro, podia seguir simplesmente a rotina de um vulgar filme de guerra, daqueles que apostam nos valores básicos da acção pela acção e da violência a cada par de minutos para empurrar mais umas pipocas. Felizmente, não foi essa a opção assumida. Para superar as armadilhas do estilo redutor da criatividade, conceberam uma abordagem bem mais complexa da matéria, ficcionada mas adaptada do real: mesmo antes de Onoda, e nós com ele, desembarcarmos em Lubang, ficamos com a chave para apreendermos e compreendermos não apenas a simples imagem do soldado mas as nuances e contradições da composição psicológica do protagonista face ao papel activo e reactivo dos seus camaradas de armas. Exemplo maior deste processo de estruturação do guião e da posterior montagem pode ser confirmado no momento preciso em que iremos encontrar o rapaz anónimo, que chegara primeiro ao local nos planos iniciais do filme, a instalar-se junto de um rio e sob umas lajes onde monta um abrigo ao estilo militar. De seguida, puxa de um gravador e lança para o ar uma canção que previamente gravara e cuja melodia, oriunda do património musical japonês, com forte significado para quem viveu o período da guerra, chega aos ouvidos surpreendidos do velho e solitário Onoda (Kanji Tsuda) que por ali perto vagueava. De uma só vez e na mesma sequência estamos em 1974, mas o som musical e a memória que ele desperta no velho soldado convocam a presença do fantasmático pretérito dos anos 40. Passado e presente fundem-se num único TEMPO cinematográfico, dialéctica que irá marcar o futuro fluir narrativo num TEMPO anterior que nos mostra um soldado a resistir, de facto, a uma guerra que já acabou mas que para ele, de facto, continua a existir. Resistir, palavra maior e fundadora da sua atitude, do seu comportamento e da sua capacidade de sobrevivência. Porque, como se diz numa sequência fulcral de ONODA, 10.000 NOITES NA SELVA, ele não está autorizado a morrer. Logo, para ele está afastada qualquer hipótese de se render. Na verdade, Onoda fora recrutado como membro dos serviços de informação não por ser o autor de qualquer feito heróico, mas porque se recusara a participar numa missão Kamikaze. Ele queria ser piloto da aviação imperial, só que não estava disposto a morrer numa missão suicida. Morrer, outra palavra que está bem presente, a palavra que dá sentido a uma vida e consolida a ordem para sobreviver. Durante a preparação na retaguarda, o superior hierárquico de Onoda, o Major Yoshimi (Issei Ogata), diz-lhe claramente que ele não pode morrer, ao contrário do pai de Onoda que, num breve encontro de despedida, lhe entrega um punhal para o suicídio ritual. O derradeiro gesto que concede a honra e evita a rendição em caso de derrota. E o seu mentor militar não se limita a sublinhar aquelas duras palavras como se fossem meras folhas secas lançadas ao vento, demagogia para efeitos de motivação marcial. De modo nenhum. Ele justifica-as de modo acutilante e directo, afirmando com vigor a Onoda que o corpo do jovem soldado é o Japão, logo, o Japão não pode morrer. Depois desta exposição do credo que rege os operacionais destes serviços secretos, passamos a ser de algum modo cúmplices voluntários ou involuntários do destino de Onoda. Fica mais fácil perceber como vinte e nove anos podem passar por cima de um homem que apenas irá envelhecer do ponto de vista físico, mantendo intacto na sua mente o dogma imperial que formatou a sua juventude.

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Mas um filme não pode contar só com um bom argumento e, neste caso, para além da belíssima prestação dos actores, com especial destaque para o velho Onoda, há que referir a Direcção de Fotografia onde brilha Tom Harari. No serpentear da geografia selvagem e nas breves incursões junto das populações nativas com o objectivo de roubar alimentos, a escala dos planos enquadra a natureza circundante numa relação entre planos gerais e de conjunto. Não obstante, serão planos médios e próximos os que nos fazem incidir a atenção nos actores, inseridos na selva que surge num misto de materialidade e de subjectividade provocada pela dimensão sonora e visual. Especial importância será dada aos sons da natureza, ao ritmo e intensidade das chuvas. Pouco a pouco acompanhamos a escrita do diário de Onoda, uma leitura que nos permite pontuar e dar conta dos bons e maus momentos, as vicissitudes que condicionam para o bem ou para o mal as manobras de Onoda e dos poucos soldados que o seguem, os que considerara mais aptos e que irão gradualmente desaparecendo, um atrás do outro, nos recontros com camponeses filipinos que mesmo depois do fim da guerra parecem igualmente dispostos a manter um espírito miliciano e guerreiro. Na banda sonora, a composição popular (e as vozes que a entoam com variações ao nível da letra) possui ao longo do filme um poder quase hipnótico, mais visível no comportamento de quem a ouve a partir do momento em que a música passa a ser um sinal identificador de uma época e do modelo de sociedade que ela representou e que de certo modo ainda representa.

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No final, o rapaz do início e o Onoda do fim encontram-se junto ao rio onde olhos nos olhos estabelecem um diálogo, quase monólogo, durante o qual o velho soldado parece aceitar num silêncio amargo que a sua missão estava encerrada. No seu rosto podemos ler a angústia, a dor contida, a percepção íntima de alguém que passou uma vida a lutar por um Império que hoje estava reduzido a uma quimera, a defesa de um sonho que lhe pareceu justo mas que agora dificilmente compreende face aos sinais que o apagam. Durante os objectivamente breves mas subjectivamente longos minutos que este frente a frente dura, há uma altura em que parece ir negar a realidade. Depois cai em si e, num dos momentos mais comoventes de ONODA, 10.000 NOITES NA SELVA, o protagonista abandona a realidade que vivera e confronta-se com essa outra que ainda não domina por completo. E chora, como só chora alguém que lutara de corpo e alma pelas suas mais profundas e passadas convicções. Magnífica sequência. Belíssimo filme.

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Deixem-me ainda dizer, sobretudo para os que gostam e acompanham as grandes fases e as grandes obras da História do Cinema que, ao contrário do que para aí já vi escrito, não me parece que John Ford ou Samuel Fuller sejam para aqui chamados, apesar de podermos vislumbrar uns pozinhos do génio daqueles dois cineastas, sobretudo na relação dinâmica entre os soldados. Seja como for, pessoalmente, em vez desses americanos vislumbro antes o pulsar e fôlego de um compatriota de Onoda, um mestre do cinema japonês chamado Kon Ichikawa. Basta ver os seus NOBI (FOGO NA PLANÍCIE), 1959, e BIRUMA NO TATEGOTO (A HARPA BIRMANESA), 1956, para perceber como, apesar das diferenças, estão lá muitos dos ambientes e das emoções que este filme privilegia.

Deixo-vos com uma curiosidade. Por incrível que pareça, não foi Onoda Hiroo o último dos soldados imperiais a render-se, no seu caso a 9 de Março de 1974, mas sim o penúltimo. Teruo Nakamura, um aborígene japonês da etnia Amis de Taiwan, esse sim, foi o último, capturado na Indonésia a 18 de Dezembro de 1974.

Onoda - 10.000 Noites na Selva, em análise
Onoda - 10000 Noites na Selva

Movie title: Onoda, 10 000 nuits dans la jungle

Date published: 7 de March de 2022

Director(s): Arthur Harari

Actor(s): Yûya Endô, Kanji Tsuda, Nobuhiro Suwa, Issei Ogata

Genre: Drama, 2021, 165min,

  • João Garção Borges - 80
80

Conclusão:

PRÓS: Um argumento sólido que foi buscar ao percurso extraordinário de um homem que realmente existiu, um militar dos serviços de informação japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, a matéria necessária e suficiente para construir uma personagem de ficção protagonista de uma missão onde a obrigação de não morrer devia garantir a vida e sobrevivência do projecto imperialista e militarista do Japão. Missão que o Tenente Onoda levou para além da capitulação do seu país em 1945.

Fotografia, som e banda sonora musical perfeitamente compatíveis com o projecto de grande impacto emocional proposto pela realização.

Destaque ainda para a magnífica prestação de Kanji Tsuda no papel do velho e, a partir de certa altura, solitário Onoda.

CONTRA: Nada. E, já agora, não se atirem ao streaming a não ser que não haja alternativa para ver o filme onde ele deve ser visto, ou seja, num grande ecrã, de modo a apreciarem amplamente os seus inegáveis valores de produção.

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