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A Grande Escavação, em análise

‘A Grande Escavação’, (‘The Dig’) do realizador australiano Simon Stone (‘A Filha’), com o par Ralph Fiennes e Carey Mulligan, é uma pérola cinematográfica ao estilo  BBC e uma agradável surpresa que está em exibição na plataforma Netflix. 

‘A Grande Escavação’ do australiano Simon Stone (A Filha) é mais uma das pequenas pérolas entre o muito ‘ruído’ de propostas lúdicas e menos boas da plataforma Netflix. Trata-se de um drama histórico de quase duas horas — parece ser um dos formatos de duração preferenciais da plataforma — adaptado de um romance com o mesmo título (‘The Dig’) escrito por John Penston. Contudo o filme conta uma história verídica da primeira fase de uma escavação de uma necrópole anglo-saxónica (séculos VI e VII) em Sutton Hoo, no Leste de Inglaterra, não muito longe de Londres, que começou em 1939 e com a inevitabilidade da II Guerra Mundial à porta, — algo que subtilmente, acrescenta um sentimento de ansiedade e tensão provocados pela aproximação do conflito — e que foi suspensa, durante quase uma década. Esta descoberta mudou literalmente a história da cultura e património anglo-saxónico na Grã-Bretanha, que se supunha teria origem viking.

A Grande Escavação
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É neste contexto de ‘thriller histórico’ que as várias personagens entram uma emocionante luta contra o tempo, — não sem antes haverem dramas, conflitos, amores e cumplicidades — para conseguirem terminar antes dos históricos e trágicos bombardeamento alemães, sobre Londres. Ralph Fiennes, interpreta Basil Brown, um homem humilde e culto, um arqueólogo autodidata, que é contratado por Edith Pretty (Carey Mulligan), uma relativamente jovem aristocrata viúva, simplesmente apaixonada pela arqueologia — e sem querer lucrar com isso — e que supõe ter na sua propriedade tesouros do passado remoto. Para se falar de ‘A Grande Escavação’, tem de se começar logo pelo excelente argumento, que vai revelando as várias interessantes personagens, através de monólogos ou com pequenas histórias sobre o seu passado.

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Uma boa parte da cenas e bons momentos do filme, assentam mesmo em silêncios cúmplices, que revelam as afinidades que a duas personagens principais Brown e Pretty, têm através de olhares e gestos. E como todos os bons drama históricos britânicos, ‘A Grande Escavação’ consegue interessar-nos até ao final por uma temática que não é muito comum no cinema: a arqueologia. Além do excelente argumento e da sóbria realização de Simon Stone ao melhor estilo das séries da BBC, que não tem muito que contar porque é belíssima, os grandes trunfos de ‘A Grande Escavação’ passam sobretudo pelas brilhantes interpretações do elenco: Ralph Fiennes é notável no seu papel do ‘escavador’ Basil Brown; e Carey Mulligan no brilhante no difícil papel de Edith Pretty, a jovem viúva que além de um passado trágico, tem uma fraca condição física provocada por uma febre reumática e problemas de coração. A grande revelação no filme é o músico-actor Johnny Flynn,— que se estreou num grande papel em ‘Emma’, ao lado de Anya Taylor-Joy — e que se revela aqui uma boa aposta no elenco. Ele interpreta um fotógrafo, que documenta a escavação e que tem um romance com Peggy Piggott, uma arqueóloga interpretada pela bela e talentosa Lily James, num dos melhores momentos do filme. 

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‘A Grande Escavação’ explora ainda as várias tensões sociais vividas numa Inglaterra ainda conservadora e estratificada ao nível da cultura, educação pública, género e opções sexuais da década de 40. Peggy Piggott (Lily James) é subvalorizada por ser mulher e só é recrutada por que é casada com um dos arqueólogos (Ben Chaplin) e porque é ‘leve’, ou seja, que não iria causar estragos na escavação; o marido de Peggy, esconde a sua homossexualidade com um casamento de fachada. Do mesmo modo, Charles Phillips (o veterano Ken Stott), o arqueólogo-chefe, tenta impor-se à vontade de Edith Pretty, que é no fundo a dona da propriedade e quem teve o mérito de iniciar a investigação por conta própria, sem apoios oficiais e apenas contratando Basil Brown para ajudá-la. Pretty vê-se assim secundarizada por uma área da ciência e do saber que era tradicionalmente, dominada por homens. Charles Phillips tenta mostrar a sua superioridade académica, em relação aos conhecimentos práticos do ‘escavador’ Basil Brown (Ralph Fiennes), que é um conceituado arqueólogo autodidata, apesar de ter abandonado a escola aos 12 anos, aprendendo o ofício com o seu pai e continuando a instruir-se nas mais diversas áreas do saber como a astronomia.

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É verdade que até 1944 a Inglaterra não garantia instrução pública até ao ensino secundário para todos os seus cidadãos. Brown, talvez um dos melhores arqueólogos do País, vê-se menosprezado pelo formalismo dos diplomas universitários e das cátedras. ‘A Grande Escavação’ destaca-se pela sua originalidade no contexto dos dramas históricos, mas também por ser filme com um forte sentido visual, com uma fotografia magnífica. Além disso é um belíssimo ensaio sobre a nossa curta existência na Terra, sobre as memórias pessoais e históricas, e sobretudo, sobre essas extraordinária peças que estão aliás disponíveis actualmente no Museu Britânico, em Londres.

JVM

A Grande Escavação, em análise
A Grande Escavação

Movie title: The Dig

Date published: 4 de February de 2021

Director(s): Simon Stone

Actor(s): Ralph Fiennes, Carey Mulligan, Lily James, Ben Chaplin, Johnny Flynn

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Genre: Drama , 2021, 112 min

  • José Vieira Mendes - 80
80

CONCLUSÃO:

‘A Grande Escavação’, (‘The Dig’) é um filme de época britânico ao estilo BBC, sem pretensões académicas sobre o tema da arqueologia e longe dos pesados dramas de um passado guerreiro ou das crónicas da aristocracia britânica. É baseado numa história verídica, passada exactamente no limiar do início da II Guerra Mundial, do século passado. Além de um filme com um forte sentido visual e fotográfico é ainda um belíssimo ensaio sobre a nossa curta existência de humanos na Terra e sobre as memórias pessoais e históricas. Neste caso sobre uma história de tensões, conflitos e dramas pessoais de uma grupo de arqueólogos que tem de desterrar um património da cultura anglo-saxónica, antes do início do conflito que abalou a Humanidade. Ralph Fiennes é absolutamente brilhante nos silêncios cúmplices com a admirável e frágil personagem muito bem interpretada por Carey Mulligan.

O MELHOR: as brilhantes interpretações do elenco em geral mesmo dos secundários;

O PIOR: É pena que a história paralela, sobretudo do triângulo: Flynn, James, Chaplin não tenha sido mais explorada;

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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