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Amesterdão: Uma obra-prima ou um grande fiasco?

A estreia americana de ‘Amesterdão’, de David O. Russell há duas semanas, coincidiu com a abertura do New York Film Festival, onde Martin Scorcese aproveitou para dar ‘porrada’ na obsessão da indústria pelos números e pelos resultados de bilheteira e a propósito precisamente deste filme, algo incompreendido no ‘mercado’ anglo-saxónico .

O veterano realizador Martin Scorcese, segundo a imprensa internacional, manifestou-se violentamente contra a ‘insultuosa obsessão’ da indústria de cinema americana em relação ao desempenho dos filmes nas bilheteiras de cinema; ou melhor em relação ao box office, um índice de avaliação que nasceu como uma consequência dos filmes da geração de realizadores da ‘Nova Hollywood’, dos anos 80 e afinal eles os ‘criadores’ do fenómeno blockbusters. Scorcese foi aliás um deles, lado a lado com Steven Spielberg, George Lucas, Francis Ford Coppola, entre outros tantos talentos dessa geração de realizadores.

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O trio de protagonistas: Christian Bale, Margot Robbie, John David Washington ©Fox Searchlight

‘O ênfase agora está só nos números, nos custos, nos resultados do primeiro fim-de-semana de estreia, quanto fez nos EUA, quanto fez na Inglaterra, quanto fez na Ásia, quanto fez no mundo inteiro, quantos espectadores conseguiu o filme?’, reclamou Martin Scorcese, ‘Como cineasta e como pessoa não consigo imaginar a vida sem cinema e por isso acho realmente isto um insulto’, concluiu o veterano realizador nova-iorquino.

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Que relação teve o seu discurso com a estreia de ‘Amesterdão’ ? O último filme de David O. Russell (‘Golpada Americana’, 2013), tem estado a provocar um grande tumulto, pois está prestes a perder quase US$ 100 milhões, ficando muito aquém das expectativas de bilheteira. Mesmo com um grande elenco protagonizado por Christian Bale, Margot Robbie, John David Washington (e mais não sei quantas estrelas…), que interpretam este thriller levemente cómico, (ou melhor uma arrojada comédia negra), a perspectiva de um sucesso de bilheteiras  (e da crítica, também) parece ter ficado também muito aquém do esperado. No Reino Unido, por exemplo, o filme recolheu apenas £ 632.000 no primeiro fim-de-semana de estreia; nos EUA, acumulou apenas cerca US $ 6,5 milhões no mesmo período. Ou seja, cerca de metade das previsões menos optimistas. Aqui há uns tempos — antes da pandemia — seria mau para qualquer filme que estreou em muitos ecrãs nos EUA ou no Reino Unido, como foi o caso; mas para ‘Amesterdão’ — que estreia em Portugal a 27 de novembro — é absolutamente desastroso, já que o filme custou cerca de US$ 80 milhões e gastaram-se mais US$ 70 milhões para ser promovido internacionalmente. Estes resultados foram amplamente divulgados e são vistos como uma surpreendente catástrofe ou um ‘prego no caixão’, para mais uma obra descrita e preparada como o ‘filme de luxo’, com um ‘elenco do outro mundo’, um orçamento acima da média e com todo o potencial para entrar na corrida dos Óscares.

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Rami Malek e Anya Taylor-Joy também fazem parte do elenco. ©Fox Searchlight

Esperar-se-ia que este novo filme de David O. Russell fosse assim um desastre de bilheteria tão grande? Não se esperava que fosse um blockbuster! Mas tenho a certeza que não, pois a maioria dos players do cinema, incluindo a crítica não acreditava nisso, até porque David O. Russel é um cineasta bastante apreciado e considerado quase um ‘cineasta-autor’ norte-americano, com filmes muito bons na sua carreira, mas de facto, todos muito longe de serem grandes sucessos de bilheteira. Os espectadores de cinema estão aos poucos voltando às salas de cinema — nunca com antes — depois dos últimos dois anos de um consumo mais caseiro e feito à base das plataformas de streaming. Os filmes mais vistos e de maior sucesso actualmente em exibição nas salas nacionais são: Um Bilhete Para o Paraíso, a ‘glamorosa’ comédia romântica com George Clooney e Julia Roberts, ‘Sorri, ’Orfã-A Origem’, Halloween: O Final’, três filmes de terror bastante acessíveis e vibrantes; ‘A Mulher Rei’, um fresco histórico de acção com Viola Davis, o regresso de ‘Avatar’, na sua nova versão remasterizada e ‘Não Te Preocupes Querida’, um filme brilhante, leve e cheio de glamour com Harry Stiles e Florence Pugh. Qualquer coisa mais pesada ou mesmo mais difícil de definir em termos de género, torna a promoção e os resultados de bilheteira mais complicados. Parece que é precisamente o caso de ‘Amesterdão’, apesar do notável elenco de estrelas que figuram no cartaz.

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Um elenco de super-estrelas todas no cartaz. ©Fox Searchlight

Porém, ’Amesterdão’ tinha tudo para ser um grande sucesso de bilheteiras: um cartaz — na verdade, não muito feliz, diga-se de passagem — que inclui uma lista imensa com os 15 membros do elenco todos famosos, colocados sobre os raios de um sol amarelo em fundo verde e com o nome do filme impresso na parte inferior; além do trio de protagonistas temos, Robert De Niro, Taylor Swift, Rami Malek, Chris Rock, Anya Taylor-Joy, Timothy Olyphant, Alessandro Nivola, Andrea Riseborough, Matthias Schoenaerts, Michael Shannon, Mike Myers, Zoe Saldaña, sobre esse símbolo que parece o de uma estranha sociedade secreta. Mas afinal o que estão todos a fazer neste filme? Terão a resposta quando o virem! De facto, apesar de um genérico lindíssimo e de uma belíssima banda-sonora, o filme tem alguns aspectos contraditórios e menos positivos. Comecemos pelo título e com o devido respeito pelos ‘neerlandeses’ e pela bela cidade de Amesterdão, este não é o tipo de título mais apropriado para o filme de Russell. Apesar de fazer sentido no argumento é talvez demasiado genérico e pouco sugestivo para um filme que tem uma trama conspirativa, que oscila entre o sério e o humor; aliás tem uma premissa de argumento até bem interessante e desafiante para o espectador: é ambientado na década de 1930 com a eclosão do nazismo na Europa e conta a história de uma grande amizade e de um assassinato que pode ameaçar a vida dos 3 protagonistas e abalar toda uma sociedade ou melhor a sociedade americana. A trama policial segue três amigos íntimos: dois soldados veteranos da WWI e uma enfermeira (Christian Bale, John David Washington e Margot Robbie), que fizeram um pacto no passado, de se protegerem mutuamente aconteça o que acontecer. Mas, acabam por perder-se no caso de um assassinato, do qual se tornam os principais suspeitos. Para provarem que não estão envolvidos nessa morte, o grupo contará com a ajuda de determinados aliados para tentar investigar o crime, e assim se protegerem e enfrentarem o verdadeiro assassino. Mas, novamente por acaso, os três amigos descobrem uma das mais surpreendentes tramas da história norte-americana, que em parte, é baseada efetivamente numa história real. Curiosamente o filme tem também várias referências a Portugal: a enfermeira Irma St. Clair (Zoe Saldaña) é portuguesa; temos uma fado cantado por uma ‘fadista espanhola’ e por último os dois protagonistas numa cena que pisca o olho a ‘Casablanca’, viajam de barco clandestinamente para a Europa, para um país ameno à beira-mar e tolerante com os estrangeiros, e que por associações várias não será Amesterdão, mas antes poderá ser Portugal.

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Um cartaz que não deixa de ser muito estranho. ©Fox Searchlight

Voltando ao que para já é um fracasso de bilheteira nos mercados ‘anglo-saxónicos’ (EUA e Reino Unido), — vamos ver o que vai acontecer em Portugal???? — será que isto pode significar a ruína para filmes originais de estúdio, de orçamento médio ou médio-alto, pensados para chegar aos Óscares? Se ignorarmos o atual top 10 das bilheteiras na Europa, veremos que o mercado de exibição é quase inteiramente composto por este tipo de filmes, alguns até mesmo europeus, que levam público que realmente gosta de sair e ir ao cinema nas salas. Há muitos críticos do sistema e muita gente a falar do declínio de Hollywood: infantilização do público, remakes, super-heróis, falta de criatividade, etc.. Parece que desta vez não é o caso: ‘Amesterdão’ tem a ambiciosa complexidade estrutural semelhante a ‘Golpada Americana’ (2013), mas infelizmente não tem os ritmos certos e a coerência narrativa deste. O vistoso toque de realização de Russell está muito em evidência, é um facto, mas parece que há uma ponta de desespero nos seus ‘pedaços’ ou ‘vinhetas’, que se traduzem num fluxo demasiado rápido e atrapalhado, de um conto já de si bastante sinuoso e próximo da ‘banda-desenhada noir’. É um daqueles casos de um filme demasiado ambicioso, (talvez também um pouco incompreendido, veremos?????), com pretensões a obra-prima e desesperado pelas nomeações para os Óscares, para uma Fox Searchlight, reforçada pela Disney. Sejamos francos, com um enredo que é verdadeiro quebra-cabeças e às vezes muito difícil de acompanhar, não poderia ir muito longe nas bilheteiras. Porém com diz o poeta é um filme que ‘primeiro estranha-se e depois entranha-se’! Vão ver!

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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