‘Crepúsculo’, em análise

Depois do Leão de Prata, com ‘Nova Ordem’ (2020), — um filme cru e profético em relação à repressão e às crises da democracia em vários continentes — o mexicano Michel Franco, — estreou no último Festival de Veneza de 2021, ‘Crepúsculo’, um filme sobre as férias de uma misteriosa família, que chega agora às salas nacionais. Estreia na próxima quinta, 28 de julho.

Não é por acaso que ‘Crepúsculo’ se passa em Acapulco’, disse Michel Franco a propósito deste seu último filme, que também poder-se-ia chamar ‘era uma vez em Acapulco’. E na verdade tudo começa num charmoso hotel da cidade, onde o próprio Franco passava as suas férias quando era criança. Daí o filme ter qualquer coisa de autobiográfico ou basear-se, talvez numa história que o realizador conheceu ou ouviu falar, passada nessa estância mexicana de veraneio, frequentada por muitos turistas britânicos e americanos. O filme, mostra-nos ainda diversas perspectivas de Acapulco, sobretudo revela-nos um curioso estudo sobre a diversidade social e um leque de personagens, as suas dinâmicas, num esboço de algo, que bem poderia ser bastante mais ambicioso, do ponto de vista do formato: uma série de televisão por exemplo; ou até mais simplificado, numa curta-metragem de prestígio de cariz existencialista, a lembrar por exemplo O Estrangeiro, de Albert Camus. Porém, o sol, a praia, as margaritas e depois a cerveja ocupam um lugar primordial, ajudando a ‘derreter’ de uma forma bastante agressiva e direta, a relação entre essas personagens, que vamos descobrindo aos poucos, no decorrer de uma história que fica entre o trágico e a reflexão sobre o que é realmente o sentido da vida.

© 78ª Festival de Veneza 78
Sundown | © 78ª Festival de Veneza

Outras das perspectivas. centra-se numa análise social do choque cultural e de um claro confronto entre duas culturas muito distintas: a (rica) britânica e a (pobre) mexicana; mas também da luta pela sobrevivência dos locais, que vivem dos mais diversos expedientes, das profundas desigualdades entre ricos e pobres, que resulta numa violência expressa, que está disseminada, na generalidade dos países da América Latina, dependentes em parte do turismo. A história gira à volta de uma rica família inglesa que está de férias: Alice (Charlotte Gainsburgh) e Neil Bennett (Tim Roth), estão na companhia de dois jovens adolescentes: Colin e Alexa. A família vai desfrutando do mar e do sol mexicano, até que uma notícia desagradável de Inglaterra, obriga-os a interromper subitamente as férias. Mas não será a única reviravolta que esta família vai sofrer, para que o seu ponto do equilíbrio e a sua relação comecem a ser postas em causa. Porém, há desde o início algo estranho com Neil, ainda mais quando ele fica sozinho no México, após vários e inesperados contratempos. Não chegamos a saber porque decidiu ficar, porque mente que se esqueceu do passaporte no hotel ou que finge que não tem ninguém, chamando-o do outro lado do telefone. Neil decide assim administrar tudo pacientemente, com muitas horas sentado numa cadeira bebendo cervejas, como um  típico turista inglês, torrando ao sol e, com os pés na areia de uma praia, muito frequentada e popular de Acapulco.

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Porém, fá-lo sempre de uma forma bastante discreta, sem se embebedar, mas ao mesmo tempo, com uma atitude bastante crível e segura. Encontra um lugar barato para se hospedar, arranja uma bela namorada e opta por uma existência tranquila, onde ninguém lhe faz perguntas, a não ser se quer mais uma cerveja. Infelizmente, os problemas no México estão sempre ao virar da esquina e na praia pública, as coisas são por vezes bastante violentas: um homem é baleado em plena luz do dia e ninguém parece ficar surpreendido. Neil parece indiferente a tudo e querer começar uma nova vida, pensando que o passado não virá um dia resgatá-lo. A história muda também repentinamente de território, quando descobrimos que afinal Neil e a sua irmã, são herdeiros de uma grande fortuna no Reino Unido, e donos de vários matadouros. 

Crepúsculo
Tim Roth passa os dias na praia a beber cervejas. ©Alambique Filmes

Curiosamente os matadouros há muito tempo que fazem quase parte do subconsciente do realizador revelado nos seus filmes. ‘Crepúsculo’ parece à partida diferente dos filmes anteriores de Michel Franco, mas na verdade estão lá todos os seus temas, quase todos pensados à volta das dinâmicas familiares: hipócritas e baseadas em relações que são mantidas no limite, por causa do dinheiro ou interesses materiais ou então em relações assentes nos contrastes e desigualdades sociais. Porém em ambas existe uma violência contida, que pode explodir a qualquer momento. É verdade que todos os seus filmes são muito diferentes, mas que sempre apontam para um mesmo sentimento de desespero e crítica à sociedade contemporânea. Foi assim no seu duríssimo Depois de Lúcia, o seu segundo filme, que trata do fenómeno do bullying e de uma dinâmica familiar marcada por uma tragédia. E sempre são à volta das questões de família, muito disfuncionais e com muitos segredos sórdidos, como em As Filhas de AbrilMichel Franco adora ainda explorar as psicologias de pessoas, colocadas em condições extremas, num processo que culminou por exemplo em Nova Ordem e agora de uma forma mais subtil em ‘Crepúsculo’.

Crepúsculo
Na praia do hotel é muito mais seguro que na praia pública.©Alambique Filmes

Tim Roth, que já tinha trabalhado com o realizador mexicano precisamente em ‘Crónica’ (2015), entrega-se agora a uma surpreendentemente contida interpretação de Neil. Dir-se-ia que Franco tem a capacidade de trazer à tona os aspectos mais ternos do actor, que se tornou famoso sobretudo pelos seus papéis de mau-da-fita, embora ultimamente tenha tentado inverter esse aspecto. Mesmo sem sabermos nada sobre a sua personagem esta torna-se deveras inquietante, mesmo que o final não lhe seja o mais favorável: o crepúsculo de um destino de um homem, que aguarda pacientemente a sua redenção ou libertação. Um filme raro e estranho que assenta sobretudo na credível e espontânea interpretação de Tim Roth. 

JVM

Crepúsculo, em análise
  • José Vieira Mendes - 60
60

CONCLUSÃO

Em ‘Crepúsculo’, tudo começa num charmoso hotel em Acapulco, cidade onde o próprio Michel Franco passava as férias quando criança. Lá, acompanhamos os  turistas britânico de apelido Benett, um homem (Tim Roth) e uma mulher (Charlotte Gainsbourg), com dois jovens adolescentes, que se divertem, comendo, nadando e apanhando sol ao mesmo tempo que e bebem umas margaritas. Porém esta família está prestes a receber uma chamada muito preocupante de Londres, que vai interromper esse gozo de férias. É estranho e ao mesmo tempo não tão estranho assim, que Franco volte a explorar as questão das desigualdades sociais e da violência potencial, que pode surgir a qualquer momento, quando os privilégios se cruzam com uma completa falta de perspectivas. Porém é também um filme existencialista sobre uma homem que aguarda pacientemente o seu ‘crepúsculo’ de vida. 

Pros

A surpreendente e contida interpretação de Tim Roth no papel de homem pacifico que aguarda pacientemente os estranhos desígnios do destino.

Cons

O filme parece um esboço inacabado de um argumento ou um prelúdio para uma saga familiar, em série de televisão; ou então uma curta-metragem de prestígio esticada ao limite (83’), em tons existencialistas e autobiográficos.

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