Mais um filme com a dupla Colin Farrell e Brendan Gleeson. ©Searchlight Pictures

Globos de Ouro 2023: Os Espíritos de Inisherin, em análise

Estreado na competição de Veneza 79, no último verão, ‘Os Espíritos de Inisherin’, do realizador britânico Martin McDonagh é uma obra incrível e o filme-sensação da longa temporada de prémios,  já com oito das mais importantes nomeações para o Globos de Ouro 2023. Estreia prevista para 2 de Fevereiro de 2023.

Foi na competição de Veneza 79 que assistimos a este ‘Os Espíritos de Inisherin’ (The Banshees of Inisherin), um excelente regresso de Martin McDonagh, cinco anos após o premiado ‘Três Cartazes à Beira da Estrada’. Porém, agora com um filme contemplativo, uma crónica rural, sobre a quebra de uma velha amizade entre dois ‘lobos solitários’, interpretados por Colin Farrell e Brendan Gleeson, passada numa agreste ilha irlandesa que na verdade não existe. O filme recebeu o Prémio de Melhor Argumento e Farrell o de Melhor Ator, em Veneza. O britânico Martin McDonagh é um daqueles realizadores que se gosta, mesmo antes de vermos os seus novos filmes, já que todas as suas obras anteriores são de uma notável excelência e particularidade: recordo por exemplo o delicioso ‘Em Bruges’ (2008), o filme que o revelou internacionalmente interpretado também pela dupla Farrel-Gleeson. ’Os Espíritos de Inisherin’, vai aliás num registo algo semelhante, entre o engraçado e o melancólico — por isso está nomeado na categoria de Comédia/Musical, dos Golden Globes 2023 — mas agora usando uma premissa muito mais simples para gerar uma série de reflexões inteligentes e profundas, não apenas sobre amizade, mas também sobre as questões da guerra e da solidão. Em primeiro lugar tem um argumento perfeito — também está nomeado para Melhor Argumento — e é sem dúvida um dos filmes mais requintados e originais de 2022. Espera-se aliás muito mais dele na temporada de prémios até aos Oscars.

A ruptura entre Pádraic e Colm vai aumentado, da perplexidade à vingança, do amor à raiva. ©Searchlight Pictures

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Colin Farrell e Brendan Gleeson juntam-se desta vez como Padraic (Farrell) e Colm (Gleeson), dois velhos amigos que vivem numa remota e agreste ilha na costa oeste da Irlanda. Tudo parece fluir tranquilamente, até que um dia Colm, surpreendentemente decide acabar a sua amizade com Padraic, sem qualquer explicação. Este não entende o porquê e fica devastado. Padraic procura a ajuda na sua irmã Siobhan (Kerry Condon), com quem partilha a velha casa de pedra da família, mas esta luta igualmente com questões que a preocupam e que envolvem outros membros da pequena comunidade da ilha. Enquanto isso, a situação entre Padraic e Colm corre o risco de se precipitar com terríveis e dramáticas consequências. O rompimento dessa amizade é uma metáfora sobre a Guerra Civil Irlandesa que opôs os militantes do IRA contra o Governo Provisório em 1922-23, dois lados, com ideologias muito diferentes, num conflito que foi um dos mais sangrentos do século XX.

VÊ TRAILER DE ‘OS ESPÍRITOS DE INISHERIN’

Através das explosões que vemos e ouvimos ao longe, a guerra está sempre presente, em todo o desenvolvimento de ‘Os Espíritos de Inisherin’, estabelecendo um paralelo com o aparente conflito ideológico entre Pádraic e Colm, duas figuras que são impecavelmente interpretados, por um expressivo Colin Farrell e um poético Brendan Gleeson. Morando ambos numa pequena aldeia, onde há pouco ou nada para fazer além de beber cerveja e conversar, os dois amigos, passaram a vida juntos, lado a lado lutando contra o tédio do dia a dia. Mas quando o velho Colm, violinista e compositor, começa a enfrentar sua própria mortalidade, inevitavelmente chega à conclusão de que deve fazer algo de diferente com a sua vida, além de se embebedar todos os dias e dizer asneiras, na companhia do gentil e desajeitado Pádraic.

Os Espíritos de Inisherin
©Searchlight Pictures

É com humor e paciência, que McDonagh vai evidenciando as visões muito diferentes de cada uma das personagens sobre a vida e o legado individual, colocando-os por exemplo durante uma farra magistralmente escrita e executada a meio do filme. Pádraic, adora a sua letrada irmã Siobhán (Kerry Condon) e a companhia da sua nobre jumenta Jenny, parecendo continuar a acreditar que a nossa razão de vida está no amor e na generosidade, que partilhamos com as pessoas e animais: vivemos com as memórias dos nossos entes queridos desaparecidos e a vida que levamos depende da bondade que espalhamos para com o que nos rodeia. Já Colm, um artista frustrado, chega à conclusão de que a vida só terá sentido a partir das nossas criações e de um legado artístico que perdurará, para além de nós. Afinal o que faz sentido na nossa vida? E neste sentido o realizador convida-nos a tomar partido e a pensarmos também na resposta a esta pergunta. Igualmente, como em todas as guerras, o orgulho dos contendores leva-os a expressar as suas ideias através de danos físicos. A ruptura entre Pádraic e Colm vai aumentado, da perplexidade à vingança, do amor à raiva. A presença da sombria Sra. McCormick (Sheila Flitton), uma figura semelhante a um ‘espírito’, que persegue as personagens, parece pressagiar uma tragédia iminente. A guerra civil pode estar a quilómetros de distância, do outro lado do mar, mas na realidade a sua dor envolve também os protagonistas, aliás como todos os habitantes da ilha, as personagens secundárias do filme, também elas, excelentemente desenvolvidas: a letrada e inteligente, Siobhán é talvez a pessoa mais sensata da ilha e uma espécie de peixe fora-de-água, imune à toxicidade dos seus habitantes: a chata e insuportável (ao mesmo tempo cómica) lojista coscuvilheira e o abrutalhado chefe da policia local também são personagens muito curiosas e bem construídas. Kerry Condon, a Siobhán, maneja impecavelmente a sua personagem dando-lhe força e precisão, fazendo dela uma voz sábia, talvez a única que entende a dor devastadora da guerra além-mar, embora sinta a enorme necessidade de partir. Outra personagem fascinante do filme é Dominic (Barry Keoghan) que interpreta o papel do perdido e instável filho do policia de Inisherin: ele próprio procura na falta de perspectivas, resolver algumas coisas na sua vida, mas nem sempre da melhor maneira. Dominic, é espancado e abusado pelo seu pai e tratado como o idiota da aldeia, mas na verdade é o mais esperto de todos. São as suas hilariantes risadas e sinceros diálogos, que mostram a imaturidade do conflito e que revelam quem é o verdadeiro ‘bobo de Inisherin’. Keoghan, mais uma vez, conclui um trabalho majestoso, retratando aqui uma alma torturada que sonha com o amor. O jovem actor de 30 anos é natural de Dublin, já tinha trabalhado com Colin Farrell em ‘O Sacrifício do Cervo Sagrado’, de Yorgos Lanthimos e possivelmente iremos vê-lo em breve como Joker, no próximo filme da saga Batman, realizado por Matt Reeves.

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Os Espíritos de Inisherin
Barry Keoghan, conclui um trabalho majestoso, numa alma torturada que sonha com o amor. ©Searchlight Pictures

Assim, com um registo entre a comédia de humor negro e um toque de terror, McDonagh leva-nos através da narrativa, de ‘Os Espíritos de Inisherin’, por alguns caminhos chocantes e até mesmo imprevisíveis. Porém, usa a natureza das seus personagens, para manter sempre um ar de leveza, sem nunca prejudicar as suas estranhas e às vezes horríveis ações. É curioso como, entre cada linha existencialista, há sempre um equilíbrio perfeito entre humor e a melancolia: as piadas escondem quase sempre, um medo da solidão, da morte e do esquecimento. A bela e calorosa direcção de fotografia da autoria de Ben Davis, também ajuda, valorizando a paisagem telúrica, melancolicamente verde e agreste da ilha imaginária, mas caracteristicamente irlandesa, assim como a folclórica banda sonora de Carter Burwell. Todos estes elementos unem-se numa perfeita harmonia, para dar vida a este pequeno e complexo mundo perdido. Há também um maravilhoso discurso animalesco e irracional que nem o frio Colm consegue escapar. Durante uma das duas inesquecíveis cenas de confissão, o padre (David Pearse), meio a gozar pergunta a Colm se acha que Deus se importaria com a vida de um pequeno burro, ao qual Colm responde: ‘Não. E é por isso que talvez, estejamos errados’. McDonagh usa igualmente e com uma enorme sensibilidade a presença dos animais no filme: o cão, o burro, a vaca e outros bichos (todos excelentes atores, diga-se de passagem), para enfatizar a solidão e aprofundar as reflexões sobre a vida e o papel de todos os seres vivos no mundo em que vivemos. Voltando à metáfora central, também utiliza os bichos para mostrar como os inocentes, são sempre os mais prejudicados e os que mais sofrem com a guerra. Veja-se pela Guerra da Ucrânia. Por isso é que ‘Os Espíritos de Inisherin’, torna-se num filme incrível e absolutamente original!

JVM

Os Espíritos de Inisherin, em análise
Os Espíritos de Inisherin

Movie title: The Banshees of Inisherin

Movie description: Passado numa ilha remota ao largo da costa ocidental da Irlanda, ‘Os Espíritos de Inisherin’ segue a história de dois amigos de longa data, Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson), quando este último põe inesperadamente fim à amizade.

Date published: 13 de December de 2022

Country: EUA, Reino Unido, Irlanda

Duration: 114 minutos

Director(s): Martin McDonagh

Actor(s): Colin Farrell, Brendan Gleeson, Kerry Condon, Barry Keoghan

Genre: comédia, drama, 2022,

  • José Vieira Mendes - 90
90

CONCLUSÃO:

‘Os Espíritos de Inisherin’, do realizador britânico Martin McDonagh (‘Em Bruges’) é uma absurda, melancólica e impecável metáfora sobre a guerra e a solidão. Portanto às vezes nem sempre muito divertida e ligeira. Pádraic (Colin Farrell) é um homem simples que gosta de cuidar da sua terra, na pequena ilha irlandesa de Inisherin. O ponto alto de seu dia é sempre tomar um copo no bar local com seu melhor amigo Colm Doherty (Brendan Gleeson). Porém, num dia aparentemente como outro qualquer, Colm não lhe responde, aliás, recusa-se a estar com ele. Não quer mais ser seu amigo e Pádraic não consegue perceber porquê. Pela mão de Martin McDonagh e num filme tão engraçado quanto melancólico que usa uma premissa muito simples ‘Os Espíritos de Inisherin, procura sobretudo gerar uma profunda e inteligente reflexão sobre amizade, a natureza, a ideologia, os conflitos e o sentido da vida. É um dos filmes mais requintados de 2022.

Pros

O argumento e a forma como o realizador sabe tira partido dos seus elencos sempre carregados de estrelas escolhidas a dedo, e a quem cabem na perfeição os papéis.

Cons

Apesar de estar classificado como comédia e é de facto um filme engraçado em alguns momentos, mas que por vezes chega a tocar nos limites do absurdo e do terror. 

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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