Love Death and Robots

Love Death and Robots, primeira temporada em análise

A nova coletânea de contos futuristas e digitais da Netflix revela-se um triunfo ao experimentar vários tipos de animação, supervisionados por David Fincher e Tim Miller. Apresentamos “Love, Death and Robots”, o primo afastado de “Black Mirror”.

É um ciclo vicioso, no qual não nos importamos de estar viciados. A Netflix estreia uma série. O falatório, online, no trabalho, na faculdade, começa. Experimentamos um episódio e depois outro. Dizemos a nós mesmos que no dia seguinte serão 2 ou 3, afinal “vê-se tão bem e tão rápido”. Dois ou três tornam-se cinco ou seis, vê-se mesmo muito rápido. De manhã, despedimo-nos da cama olhando para ela e sabendo que a desapontámos. Mas vai acontecer outra vez. A série é devorada, depois discutida, e entretanto substituída por outra.

Em 2019, a gigante mundial de streaming já teve “Sex Education”, “Russian Doll” e “The Umbrella Academy”. O momento agora pertence a “Love, Death & Robots”, das 4 aquela que tem maior potencial para se tornar um dos emblemas da companhia de Reed Hastings, e um dos regressos mais aguardados ao longo dos próximos anos.

Zima Blue - Love, Death & Robots
Zima Blue – Love, Death & Robots

Produzida por David Fincher e Tim Miller (“Deadpool”), a nova série da Netflix é uma espécie de “Black Mirror” do mundo da animação, e um descendente do longínquo “Universo em Fantasia” (1981). É animação NSFW, um frequente orgasmo visual, com tanto de excitante do ponto de vista estético como na sua beleza conceptual.

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Os dezoito episódios – variam entre 6 e 17 minutos – revelam-se uma refrescante coleção de contos, alguns originais, embora na sua maioria a adaptar material publicado, totalizando a série algo entre 3 e 4 horas.

Com “LOVE DEATH + ROBOTS” a Netflix junta ao seu menu uma série que em teoria visava agarrar um nicho de mercado ou target específico, mas pela miscelânea estilística, torna-se “um pouco de tudo, para toda a gente”. Jamais se sente o tempo como perdido, embora os episódios oscilem e muito numa análise global qualitativa.

Witness - Love, Death & Robots
The Witness – Love, Death & Robots

São vitórias a rica experimentação com diferentes estilos de animação (tanto há uma perseguição com traços de “Spider-Verse” como uma jornada de dois vendedores que lembra “Archer”) e a flutuação a nível de tom, podendo-se em sentido inverso criticar o desnecessário tratamento da figura feminina como objeto (“Good Hunting” torna-se um dos episódios mais satisfatórios precisamente por vingar essa tendência) e a relativa supremacia de quantidade e estética sobre qualidade e substância.

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Em defesa, muito do gore, da violência e da sexualidade presentes são gratuitos, mas servem o propósito de Fincher e Miller de apresentar algo cool. Dos 18 episódios, alguns parecem representar o formato perfeito para o tema, universo e história que contam, outros podiam mesmo inspirar longas-metragens, séries inteiras ou videojogos.

Coube quase sempre a Philip Gelatt converter para guiões os contos de escritores como Alastair Reynolds (o pai dos enigmáticos “Zima Blue” e “Beyond the Aquila Rift”) ou John Scalzi (o humor e ironia de “Three Robots”, “When the Yogurt Took Over” e “Alternate Histories” têm um denominador em comum), entregues depois às equipas de vários estúdios (Blur Studio, Blow Studio, Passion Animation Studios, Digic Pictures, Pinkman.TV e Unit Image, entre outros) de vários países.

Beyond the Aquila Rift - Love, Death & Robots
Beyond the Aquila Rift – Love, Death & Robots

O compêndio tem de tudo um pouco. Nomeadamente, três robôs a deambularem por uma cidade deserta em busca de uma melhor compreensão sobre os humanos (extintos) que os criaram, um grupo de agricultores a tentar impedir uma invasão alienígena, uma mulher a controlar remotamente uma criatura concebida para gladiar pela sobrevivência e até um iogurte desenvolvido por cientistas que acaba por tomar a Casa Branca. Sim, um iogurte.

Poucas vezes banal (“Blindspot”, “The Dump” e “Sucker of Souls” são os capítulos mais fracos, acrescentando-se numa segunda linha o congelador de “Ice Age” e “Helping Hand”, um mini-“Gravidade”), LD+R é arte, expressa com diferentes personalidades e pensada para diferentes efeitos. É uma obra simultaneamente madura e infantil, trágica e cómica, profunda e superficial.

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Matar Hitler 6 vezes em 7 minutos, uma das quais com gelatina, serve de desculpa para a existência de “Alternate Histories”, “Suits” pisa um ambiente que evoca “Um Lugar Silencioso” e sobre “Lucky 13” (sempre bom ver Samira Wiley) e “Shape-Shifters” não há tanto assim a dizer. Ou seja, em 18 episódios, 9 deles são especiais, não sendo exagerado considerar que alguns tinham mais do que qualidade e técnica, revelando capacidade para ficar connosco no pós-experiência, para competir pelo Óscar de Melhor Curta de Animação da Academia.

“Sonnie’s Edge” e “Three Robots” são adequadas cartas de apresentação da série, mostrando uma bipolaridade complementar. Primeiro, um obscuro e grotesco retrato cyberpunk, e depois um descontraído, querido e irónico tour capaz de usar 3 robôs pós-apocalípticos para dizer algumas verdades sobre o comportamento humano.

Fish Night - Love, Death & Robots
Fish Night – Love, Death & Robots

“The Witness” e “Fish Night” são concertos de cores tocados a diferentes ritmos, e confesso que a satirizante história do sábio laticínio tem “crescido” em mim. Depois, “Good Hunting” é um dos episódios que, recorrendo a um estilo mais clássico, melhor equilibra a tríade de elementos que dá o nome à série.

O fotorrealismo ou realidade distorcida ganha especial destaque no soviético “The Secret War” e no marcante “Beyond the Aquila Rift” mas o maior destaque desta que se espera que seja a primeira de muitas temporadas é “Zima Blue”. Em apenas 10 minutos, o 14º episódio faz da primeira entrevista em 100 anos de um artista misterioso e ambicioso na escala dos seus projetos de assinatura invulgar, uma profunda reflexão sobre arte, realização e auto-descoberta, graças a uma narrativa circular com um twist perfeito que faz coexistir num retângulo azul claro as noções de prazer, significado, simplicidade e origem. Quando Zima apresenta a sua obra-prima, “Love, Death & Robots” encontra a sua.

TRAILER | “LOVE, DEATH AND ROBOTS”

Já experimentaste “Love, Death and Robots”? Qual o teu episódio preferido da primeira temporada?

Love, Death & Robots - Temporada 1
Love Death & Robots Poster

Name: Love, Death & Robots

Description: Uma coleção de 18 contos multigénero que experimentam diferentes estilos de animação.

  • Miguel Pontares - 81
  • João Fernandes - 85
  • Maria João Sá - 75
80

CONCLUSÃO

O MELHOR - "Love, Death & Robots" é um compêndio cool de animação NSFW. É um orgasmo visual e criativo, e um triunfo que pode tornar-se um dos emblemas da Netflix nos próximos anos. Experimenta vários estilos e géneros, e flutua no tom, sendo madura e infantil, trágica e cómica, profunda e superficial. "Zima Blue" é uma obra-prima.

O PIOR - É privilegiada quantidade e estética sobre qualidade e substância. O gore, a violência e a sexualidade parecem por vezes gratuitos, acabando "Good Hunting" por servir de vingança para o tratamento que a série dá à mulher enquanto objeto.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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