©Netflix

O Tigre Branco, em análise

‘O Tigre Branco’, de Ramin Bahrani é um filme vibrante, com um ritmo aceleradíssimo, que tem sido adorado pela crítica e por muitos espectadores da plataforma Netflix. Era um potencial candidato a nomeações aos prémios do ano, mas para já,  ficou de fora das nomeações para os Golden Globes 2021.

‘O Tigre Branco’ é um filme que tem sido surpreendentemente aclamado pela pela crítica internacional. Esta produção EUA-Índia, é realizada por Ramin Bahrani, cineasta norte-americano de origem indiana, que tem na sua carreira filmes tão interessantes como ’99 Casas’, ‘Fahrenheit 451’ ou ‘A Qualquer Preço’, este último um drama familiar com Zac Efron e Dennis Quaid, em 2012. Em ‘O Tigre Branco’, é um regresso às origens do realizador com uma adaptação de um premiado bestseller com o mesmo título — editado em Portugal em 2016, pela Presença — de Aravind Adiga, colega do cineasta na Universidade de Columbia. Tem sido comparado e as semelhanças com ‘Quem Quer Ser Milionário’ de Danny Boyle — que ganhou em 8 categorias nos Óscares de 2009 — não são infundadas já que que há grandes aproximações ao tema e ao contexto de uma história de superação pessoal de um miúdo pobre que luta para ser alguém, na profundamente desigual sociedade indiana. Enquanto o filme de Danny Boyle que lançou o actor indiano Dev Patel, nos mostrava uma perspectiva mais lírica e fantasista este ‘O Tigre Branco’ assenta numa história bastante mais realista e dura de sobrevivência, onde o ritmo e a música também entram, mas não de uma forma tão intensa como no filme de Boyle.

Lê Também:
Warner Bros | Os filmes de 2021 que vão para a HBO Max

VÊ TRAILER DE ‘O TIGRE BRANCO’

Barlam Halwai (Adarsh Gourav, um estreante como actor como Patel) é um miúdo luminoso e esperto, ótimo aluno — um verdadeiro tigre branco, uma excepção que segundo reza a lenda, aparece uma vez em cada geração, nas classes mais baixas da India — tem de abandonar a escola para ajudar na sobrevivência da sua grande família. Aos poucos, consegue aproximar-se da família de Stork, um homem rico que funciona quase como uma espécie de senhor feudal da região — cobra taxas aos aldeões — onde Barlam habita, relativamente longe da grande capital Deli. Contudo, o jovem protagonista parece traçado para o sucesso e possuir um instinto natural para conquistar e elogiar os ricos e as pessoas que confiarem nele. Barlam acaba, por ir trabalhar para Pinky (Priyanka Chopra) e para Ashok (Rajkummar Rao) — duas grandes estrelas do cinema indiano, sendo que ela vive nos EUA e foi Victoria em ‘Baywatch: Marés Vivas’ — o filho mais novo da família e que formam um casal moderno, com uma visão e cultura mais ocidentalizada, que chegaram recentemente dos EUA.

O Tigre Branco
©Netflix

Depois de uma noite de diversão (que culmina em tragédia), na companhia dos patrões Ashok e Pinky, o motorista Barlam vai aperceber-se, quanto estes parecem estar dispostos a sacrificá-lo para salvarem a pele. E é nesse momento, quando pode perder tudo, que Barlam se liberta desse poder, para seguir o seu próprio destino. No entanto, ’O Tigre Branco’ não conta apenas uma atribulada jornada de um jovem, que quer vencer na vida a qualquer preço. É sobretudo, uma constante análise sobre o país, a Índia e a conformada mentalidade dos indianos principalmente das classes baixas: pensam sempre como servos ou criados e vivem como se o seu único objetivo, fosse passarem a sua existência a servir e agradar aos seus senhores, numa clara relação de subserviência psicológica e de inferioridade. É sabido que a grande maioria da população indiana — é uma falsidade a Índia ser a maior democracia do mundo — vive na miséria e abaixo de todos os índices de pobreza, aceitando uma espécie de constante Síndrome de Estocolmo, face aos ricos, elites e castas superiores.

O Tigre Branco
©Netflix

’O Tigre Branco’ explora com realismo as contradições deste sistema social, que permanece há séculos e ainda na Índia contemporânea, centrando-se no período do pós-crise económica de 2008, quando o livro original foi publicado. Numa altura da histórica da economia mundial, que coincide com o mesmo tipo de subserviência da Índia, em relação à China, RU ou EUA, que continuam a usar os trabalhadores indianos, com salários muito baixos, para crescerem os lucros das suas milionárias multinacionais. O jovem e activo Balram, personifica essa subserviência dos pobres em relação aos ricos e mostra-nos como estava programado desde o seu nascimento para obedecer aos ‘superiores’. No entanto, aos poucos, vai desconstruindo este aspecto da sua personalidade, para se tornar um dia patrão e um jovem empreendedor, na área das novas tecnologias. E isso significa que vai ter de caminhar por uma linha ténue entre compaixão, um certo calculismo e o crime. O filme é bastante duro e inquieto, fazendo uma combinação de vários géneros, que vão da comédia negra satírica, intercalada com momentos de um melodrama clássico, até ao suspense de um film noir.

JVM

O Tigre Branco, em análise
O Tigre Branco

Movie title: The White Tiger

Date published: 3 de February de 2021

Director(s): Ramin Bahrani

Actor(s): Adarsh Gourav, Priyanka Chopra, Rajkummar Rao

Genre: Crime, Drama , 2021, 125 min

  • José Vieira Mendes - 75
75

CONCLUSÃO:

‘O Tigre Branco’ explora além da história vibrante do jovem Balram, os esquemas de corrupção aos mais vários níveis na sociedade indiana, desde as mais baixas até às mais altas instâncias governamentais e empresariais. A manutenção deste tradicional sistema de castas, vai agravando cada vez mais esse enorme fosso entre os ricos e os muitos pobres, que são o maior problema da Índia, vista por muitos ocidentais como  uma lugar turístico, onde as pessoas vivem com uma filosofia ou uma opção despojada da vida. Mas não é bem assim!

O MELHOR: O ritmo vibrante da narrativa é bem combinada na combinações de géneros.

O PIOR: Tem o lado um bocadinho ingénuo, sobretudo no que diz respeito ao lado mais negro da narrativa.

JVM

Sending
User Review
2 (1 vote)
Comments Rating 5 (1 review)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

José Vieira Mendes has 571 posts and counting. See all posts by José Vieira Mendes

Leave a Reply

Sending