Oslo, ©HBO

Oslo, em análise

’Oslo’, realizado pelo encenador-realizador nova-iorquino Bartlett Sher, com Ruth Wilson e Andrew Scott, sobre os bastidores dos Acordos de Paz israelo-palestinianos em 1993, estreia na HBO Portugal, este domingo, 30 de maio. Não sendo um filme brilhante é uma obra notável, para recordar uma grande momento da diplomacia e dos esforços de paz.

‘Oslo’, do encenador-realizador Bartlett Sher (n. Nova Iorque, 1959) e protagonizado por Ruth Wilson e Andrew Scott, é uma adaptação da peça, com o mesmo título, da autoria do dramaturgo J.T. Rogers. Esta peça foi vencedora de vários Tony Awards na temporada 2016/17 e baseia-se na história verídica das negociações, conversas secretas, amizades improváveis e o heroísmo silencioso de um pequeno, mas comprometido, grupo de israelitas, palestinianos e de um casal de diplomatas norueguês, que levou aos Acordos de Paz de Oslo, em 1993. Além da dupla de protagonistas o filme conta no elenco também com Jeff Wilbusch, Igal Naor, Dov Glickman, Rotem Keinan, Itzik Cohen, Tobias Zilliacus e Sasson Gabay.

Oslo
©HBO

A estreia de ‘Oslo’ na HBO (e em exclusivo) não podia ser mais estimulante e oportuna, num momento em que os conflitos entre Israel e a Palestina estão novamente na ordem do dia das notícias dos telejornais. Porém, quem passou os olhos, nas últimas semanas pelos media e pelas redes sociais, pensará como foi possível, algum dia, sentar à mesma mesa israelitas e palestinianos. E sem que isso se pudesse transformar numa caótica conversa de acusações e raivas, uns contra os outros e ainda mais conseguir-se chegar a uma acordo de paz. Enfim, o conflito israelo-palestiniano, com toda a sua carnificina e trauma, já dura há demasiado tempo, ao ponto que a maioria do mundo parece aceitá-lo, quase como algo normal e sem interesse jornalístico. Tanto é assim, que só quando há uma grande escalada da violência e derramamento de sangue, algo que costuma acontecer de anos em anos, é que subitamente o mundo, as organizações internacionais e as grandes potências mundiais, olham e procuram uma solução, para o que se passa entre Israel e a Palestina. De repente parece que tomamos consciência, de que essas são pessoas vivem diariamente — e de ambos os lados, recorde-se — com a ameaça de morte ou destruição, independentemente do seu diferenciado poderio militar e económico. ‘Oslo’ é por isso um poderoso e necessário lembrete cinematográfico, sobre o lado mais humano dessa história e um dos filmes talvez mais actuais e oportunos de todos os tempos, independentemente das suas fragilidades, como obra cinematográfica. 

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Baseado na peça de teatro, com o mesmo título da autoria de J.T. Rogers, e uma das grandes vencedoras dos Prémios Tony, da temporada 2016/17, o filme conta a história em parte recriada na ficção, das negociações secretas que levaram aos acordos de paz de Oslo de 1993, entre Israel e a (entretanto, extinta) OLP-Organização para a Libertação da Palestina, liderada então por Yasser Arafat. Independentemente do que tem acontecido a seguir, este é um momento breve e brilhante na história recente, em que acreditámos que a paz teria sido possível e passaria pelo nosso tempo. Embora, este Acordos de Oslo não tenha resultado numa paz duradoura, — ficaram comprometidos logo dois anos depois, com o assassinato de Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel — eles continuam a ser uma espécie de monumento à diplomacia e ao que pode acontecer, quando pessoas de boa-vontade, se reúnem e conversam sem preconceitos e com abertura. Por isso, esta é uma história que tem de obrigatoriamente ser contada e recontada! Especialmente agora, mais do que nunca, numa época em que temos tantos canais para os discursos inflamados e opiniões contraditórias, e talvez por isso mesmo cada vez parecemos mais incapazes de comunicarmos uns com os outros. Ruth Wilson (‘Estranha Presença’) e Andrew Scott (‘1917’) — é incrivelmente parecido com o actor português Ivo Canelas — interpretam marido e mulher, Mona Juul e Terje Rød-Larsen, os dois diplomatas noruegueses que fora de qualquer decisão governamental, decidiram organizar umas conversas secretas preliminares, entre algumas personalidades e líderes de opinião, israelitas e palestinianos e que posteriormente culminaram nos acordos, não sem antes inspirarem, algumas amizades aparentemente impossíveis. Essas negociações ‘não oficiais’, decorreram discretamente, numa idílica propriedade, nos arredores de Oslo, num ambiente neutro, longe dos media (e dos EUA!), onde esses inimigos de uma longa batalha, se puderam reunir como seres humanos e tentar encontrar soluções, em comum. Mais tarde os acordos foram consolidados e rectificados, pelos respectivos líderes, sob o patrocínio do EUA e do Presidente Clinton. Contudo estas conversas foram decisivas, para o culminar do acordo.

Ruth Wilson
Ruth Wilso, em ‘Oslo’, ©HBO

Neste filme, que procura aproximar-se o mais possível do que se passou, o dramaturgo J.T. Rogers tentou adaptar da melhor maneira, o seu próprio material dramático; ou melhor a sua premiada peça de teatro, prestando atenção obviamente, ao que funciona e o que não funciona no cinema. Retirou quase uma hora da peça original e alguns momentos menos importantes e interessantes, mantendo a ação mais focada nos interesses e discussões entre israelitas e palestinianos. Dai que, ‘Oslo’ tente não parecer uma peça de teatro — aliás como por exemplo ‘Uma Noite em Miami’ ou mesmo ‘Ma Rainey: A Rainha dos Blues’. Porem apesar de não ter o mesmo calor e intensidade dos palcos, o filme acaba por ter um registo bastante íntimo e teatral,— os Actos aparecem quase marcados e intercalados pelas sequências filmadas, reais e fictícias, dos combates no terreno —, e mais do que atraindo o espectador, com grandes aparatos da linguagem cinematográfica, coloca-o mesmo dentro das discretas negociações de paz. Quase toda a ação de ‘Oslo’ acontece em salas de reuniões, onde os protagonista se reúnem, fazendo o possível para deixar para trás as memórias e os traumas da história. Estas narrativas cinematográficas, entre paredes, são geralmente muito difíceis mas a realização não é brilhante, mas relativamente eficaz graças à grande qualidade dos actores, quase todos eles à excepção dos protagonistas, vindos do teatro. O filme coloca-nos perante um drama, que aconteceu há 30 anos atrás e mantêm-nos (quase como os participantes) numa tensão quase total; isto é a sentirmos, o que eles estão sentindo: frustração, emoção, desilusão, quando as coisas parecem estar a desmoronar-se e longe de uma solução. Apesar de sabermos o que vai acontecer no final. Digamos que apesar de alguma teatralidade, o filme agarra-nos sobretudo por ser um enorme testemunho do esforço desses homens de boa-vontade. Contudo, recorde-se que estamos no domínio da escrita de ficção e da criação, embora tudo tenha sido certamente escrito, com base numa aprofundada investigação do autor.

Andrew Scott
Andrew Scott em ‘Oslo’, ©HBO

O poder deste filme, está igualmente na forma como trata toda esta complexa temática. Os israelitas e palestinianos, que participaram nestas reuniões não são figuras conhecidas, definidas por clichés ou caricaturas de políticos e activistas. Neste drama, não há bons, nem maus, soldados ou terroristas, judeus ou muçulmanos. As personagens, não sairam de contos ou pretendem ser as figuras de parábolas de ensinamentos, para o resto do mundo. São seres humanos, pessoas reais, que possuem crenças complexas e diversas, que lutam para sobreviver e procuram defender os seus ideias.

Oslo
©HBO

‘Oslo’ faz ainda questão de destacar não há uma única narrativa e nenhuma delas é a verdadeira, de ambos os lados. Não ignora de que se trata de um conflito feito de um emaranhado de histórias que foram inflamadas, ao longo da história da civilização, pela guerra, pelo colonialismo, pelo Holocausto e também pelos media. Não há salvadores, nem salvados neste filme. Desde o início, somos claramente informados de que esta não é uma história sobre Mona e Terje, que se lançaram por sua própria iniciativa — e que estiveram e observaram no terreno das guerras entre os dois lados — para salvar de si mesmos, os pobres povos do Médio Oriente, que milénios lutam entre si. Mona obriga mesmo Terje a dizer em voz alta que apenas ‘facilitará’ essas reuniões e que não terá qualquer intervenção, participação nas decisões finais. É um assunto entre eles! ‘Oslo’ diz-nos mesmo que os noruegueses, estão lá num papel secundário, não como protagonistas e sempre disponíveis para seguir ou aceitar as sugestões, daqueles que estão no centro desta guerra que se eterniza. Há ainda uma atenção plena neste retrato das negociações, que rompe com o pensamento colonialista (e imperialista) tradicional,  realçando, aquilo que deveriam ser o activismo e a diplomacia internacional e não a intervenção armada ou os interesses económicos e estratégicos.

Oslo
Recriação de imagens reais dos combates. ©HBO

‘Vocês lutam e matam-se uns aos outros há 50 anos. As vossas mães, filhas e filhos morreram e nada mudou. O mundo tem lavado as mãos desse conflito, porque não acredita que vocês possam mudar. Ninguém vem mais para vos para ajudar. Portanto isso estás nas vossas mãos’. Estas palavras, ditas nos diálogos pela Mona Juul (Ruth Wilson), soam tão verdadeiras hoje, quanto há três décadas atrás. São aliás uma nota terrivelmente deprimente em como nada mudou e quão pouco progresso foi realmente feito para se conseguir um entendimento e a paz, entre israelitas e palestinianos. Os problemas dessas duas nações só podem ser realmente resolvidos por eles próprios. Como cidadãos globais responsáveis, nosso papel é apoiar, facilitar e, tentar a todo o custo reduzir a escalada de violência e de desforço de parte a parte. E se o pudermos fazer, pelo menos estando bem informados, talvez possamos contribuir com algo significativo. Este filme, embora longe de ser brilhante do ponto de vista cinematográfico pretende talvez dar mais amplitude e impacto mundial à famosa e premiada peça estreada na Broadway. É um filme para quem ama o Teatro!

Oslo, em análise
Oslo

Movie title: Oslo

Date published: 29 de May de 2021

Director(s): Bartlett Sher

Actor(s): Ruth Wilson, Andrew Scott, Jeff Willbush

Genre: Ficção, 124 minutos, 2021

  • José Vieira Mendes - 55
55

CONCLUSÃO:

’Oslo’ é efectivamente um filme sobre um tipo de heroísmo silencioso, que pode realmente mudar o mundo. Não é uma grande obra cinematográfica, mas é muito bem intencionada e transmite-nos uma importante mensagem a nós que estamos do lado de fora do conflito. Principalmente sobre aquilo que muitas vezes deveria ser dito e apoiado pelos media, pelas organizações internacionais e pela grandes potências mundiais. ‘Oslo’ é sobretudo um filme-lembrete de que sem paternalismos, mostra que é possível e sem interferências, que israelitas e palestinianos pelo menos se sentem à mesa das negociações. Aceitarem-se e viverem em paz é mais difícil. Mas mesmo assim ainda é possível.

O MELHOR: A possibilidades de ver no cinema este memorável momento da diplomacia internacional, que deveria ser um exemplo hoje;

O PIOR: Apesar do esforço em contrário a demasiada teatralidade de um filme, que não utiliza completamente recursos da linguagem cinematográfica. 

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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