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Sou Tua Mulher, em análise

Narrado numa perspectiva feminina ‘Sou Tua Mulher’, de Julia Hart, disponível na Amazon Prime, é uma original e sólida incursão no thriller policial, assente numa história de fuga, em que as figuras centrais são, a esposa de um mafioso e, curiosamente um bebé.

A cineasta Julia Hart (‘Fast Color’ e ‘Stargirl’) realizou para a Amazon Prime Video, este  ‘Sou Tua Mulher’, um thriller cujo objetivo é sem dúvida dar voz às mulheres e fazer uma pequena homenagem os dramas policiais dos anos 70 e 80: ‘O Padrinho’ (1972) ou ‘Scarface-A Força do Poder’ (1983); e mais tarde à série ‘Os Sopranos’ (2001-2007), que está na mesma linha dos filmes. Só que desta vez, o conceito de ‘filme de mafiosos’ é contado de uma forma diferente, um tanto irónica e através do ponto de vista de uma esposa infeliz, de um desses criminosos. Na maioria dos filmes deste género, as mulheres que se casam ou se envolvem com os mafiosos, — com os Corleone, o Montana ou com Tony Soprano — são rapidamente despachadas de cena ou desaparecem das suas vidas, assim que deixam de ser objeto de desejo ou se tornam um empecilho, para as suas actividades criminosas. Ou seja, elas raramente são cruciais no desenvolvimento das tramas desses criminosos e facilmente são trocadas por outras mulheres, mais apetecíveis no momento. A questão que se coloca, e que possivelmente se colocou igualmente à cineasta norte-americana Julia Hart — que se caracteriza por dar protagonismo às mulheres, nos seus filmes — é o que acontece com essas esposas sofridas, que na maioria das vezes, têm um final trágico, nas suas histórias: ou escapam-se antes que lhes ‘façam a folha’ ou são mortas por interferirem demasiado nos negócios dos maridos?

VÊ TRAILER DE ‘SOU TUA MULHER’

‘Sou Tua Mulher’, conta-nos precisamente, uma rocambolesca e até divertida história, — não sem algum nonsense — de uma dessas passivas ‘donzelas do crime’, que indefesa e com um bebé nos braços — que mal sabe cuidar — se vê perseguida, por causa dos crimes do marido, sobre os seus sócios e que obviamente querem tirar desforço.

Sou Tua Mulher
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Jean (Rachel Brosnahan), é uma loira, dona-de-casa típica de um subúrbio rico americano dos anos 70, que vive uma vida aparentemente desafogada, com o apoio do seu discreto marido Eddie (Bill Heck), que lhe dá ordens e que a usa de certa maneira, como cobertura para actividades ilícitas. Quando Eddie trai um dos seus sócios, Jean e seu bebé são forçados a fugir, com a ajuda de um velho amigo de Eddie: Cal (Arinzé Kene). Este fica encarregado de os manter a ambos seguros, não sem correr também alguns riscos. Cal acaba por desaparecer misteriosamente e Jean entretanto conhece e torna-se amiga da sua esposa Teri (Marsha Stephanie Blake). A partir daí as duas mulheres solidárias nos riscos e com crianças a seu cargo, partem numa perigosa viagem, através do coração do submundo do crime, de Eddie e dos seus ex-companheiros.

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Rachel Brosnahan (a actriz das sériesA Maravilhosa Sra. Maisel ou ‘House of Cards’) muda completamente o seu registo humorístico, depois de ter mergulhado profundamente na sua espirituosa, inesquecível e despachada Sra. Maisel ou ‘Midge’. Desta vez, a discreta, surpreendente e premiada atriz de, 31 anos, nascida em Milwaukee, EUA, oferece-nos uma cativante interpretação, que tem uma faceta bastante diferente, da também premiada série inspirada no stan up comedy; ou mesmo no seu papel de Rachel Posner, a ex-prostituta, de ’House of Cards’. A sua Jean de ‘Sou Tua Mulher’, é uma atrapalhada dona-de-casa, com uma vida desafogada, que não sabe fazer nada, — nem sequer estrelar um ovo —  e que é forçada pela primeira vez, a enfrentar o perigo e as dificuldades. Perseguida pelos inimigos do seu marido e perdendo a sua protecção, Jean (Brosnahan) é obrigada a por à prova, o seu instinto de sobrevivência, aprender a defender-se de uma morte quase certa; e com um inesperado instinto maternal a proteger o seu muito desejado e sorridente bebé. No filme, e de uma forma bastante agitada, vamos aos poucos descobrindo a capacidade de Jean para se defender e superar seus medos, sem necessidade de se refugiar na passividade ou na vitimização, relativamente a uma situação que lhe foi criada.

Eu Sou Tua Mulher
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O facto de ‘Sou Tua Mulher’, ser narrado através dessa necessária perspectiva feminina torna-o precisamente numa sólida e original incursão num género de filmes que  dá primária a figuras masculinas e violentas, em detrimento da força e poder das mulheres. O filme fervilha numa atmosfera de tensão opressiva e consegue manter-nos sempre interessados no seu desfecho, quanto mais não seja através das absurdas situações e do sorriso inocente do bebé, que obviamente não tem nenhuma noção do que se está a passar. Destaca-se ainda em ‘Sou Tua Mulher’, o bom gosto e rigor pelos detalhes da época dos anos 70, — que vão desde o guarda-roupa glam, à decoração e design da casa, passando pelos conhecidos temas da banda-sonora desses tempos —; e também  pelas suas cuidadas opções técnicas, em todos os aspectos, da fotografia, aos movimentos de câmera, quer nas cenas mais pousadas, quer nas de acção e perseguição de carro.

Sou Tua Mulher
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Às vezes até faz lembrar um pouco os filmes de Quentin Tarantino. Talvez na segunda parte, a realizadora, opte por caminhos um pouco mais convencionais, no que diz respeito à lógica dos filmes policiais (ou de gangsters), tornando-se numa proposta, das quais parecia querer mesmo afastar-se no início. Obviamente é a progressão da personagem feminina e da sua ‘fuga para a frente’, que força o enredo e o leva a um resultado talvez um tanto ou quanto previsível. Certos clichês do género policial, talvez fossem desnecessários, pois acabam por ofuscar um pouco o fascinante desafio que nos é colocado logo de início. Ou seja como se revela uma mulher inofensiva e indefesa perante o perigo e como vem ao de cima o seu extraordinário instinto de sobrevivência? Uma mensagem enorme que, apesar de tudo, não passa obviamente despercebida neste filme bastante interessante de se ver e partilhar, também com as nossas esposas e maridos.

JVM

Sou Tua Mulher, em análise
Sou Tua Mulher

Movie title: I'am Your Woman

Movie description: A Amazon Prime lançou, diretamente este ‘Sou Tua Mulher’ (I'm Your Wife), de Julia Hart, um drama policial atípico que explora o outro lado da moeda ou melhor das esposas do mundo da máfia.

Date published: 22 de February de 2021

Director(s): Julia Hart

Actor(s): Rachel Brosnahan, Bill Heck, Arinzé Kene, Marsha Stephanie Blake

Genre: Thriller, Drama, 2020, 120 min

  • José Vieira Mendes - 70
70

CONCLUSÃO:

Em ‘Sou Tua Mulher’, Jean (Rachel Brosnahan) é uma mulher casada que leva uma vida confortável, dedicada ao marido Eddie e seu filho pequeno, muito desejado. Até o dia em que seu marido, um criminoso, decide trair os seus sócios e Jean é forçada a fugir com seu filho a reboque, não sem que surpreendentemente venha ao de cima o seu extraordinário instinto de sobrevivência e de protecção maternal.

O MELHOR: a notável interpretação de Rachel Brosnahan, diferente, mas não surpreendente, tendo em conta os seus trabalhos anteriores;

O PIOR: A segunda parte do filme, torna-se mais convencional no género gansters e o final revela um resultado bastante previsível.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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