"Nada nas Mãos", de Paolo Marinou-Blanco, conquista no mais inóspito dos cenários |©Curtas Vila do Conde

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição nacional 1, em análise

O Curtas Vila do Conde 2021 marca a 29ª edição do festival de cinema centrado, largamente, no melhor do formato da curta-metragem. 

Neste artigo analisamos as curtas-metragens apresentadas na sessão “Competição Nacional 1”; criações inteiramente produzidas em Portugal para ver em Vila do Conde, Porto e Lisboa. 

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1 – NADA NAS MÃOS DE PAOLO MARINOU-BLANCO ( PORTUGAL, 14′, 2021) 

29º Curtas Vila do Conde
“Nada nas Mãos” (2021) | ©Curtas Vila do Conde

Uma comédia negra acerca de um agente funerário deprimido que encontra consolo entre os mortos de quem cuida.

Caetano (Dinarte Branco,  do estupendo “Mil e Um Noites” de Miguel Gomes) é um agente funerário a passar por uma gravíssima depressão na sequência da morte da sua amada e grávida esposa, um dos casos mais falados de morte a tirar selfie do ano em que tal derradeira tragédia se abateu sobre a sua vida.

Numa curta-metragem com uma fotografia excepcionalmente acima da média quando falamos desta formato e da sua presença no cinema nacional, eis que “Nada nas Mãos”, uma irresistível comédia negra, se mune quase de um realismo mágico, uma amálgama entre o real e a fantasia. Um produto que escapa à quase incapacitante sucessão de obras de neo-realismo.

Não aqui, em “Nada nas Mãos” fugimos inteiramente do banal.  Isto porque a companhia predileta de Caetano é mesmo os cadáveres que lhe aparecem na sua mesa de preparação, todos eles tão consciencializados para a próxima fase que se avizinha. Todos eles comunicativos, mas tão “cheios de pressa”.

Este universo é fugaz e seríamos capazes de passar muito mais do que breves (perto de) 15 minutos no seu seio. Esta narrativa escrita e filmada por Paolo Marinou-Blanco (do premiado “Good Night Irene”) poderia, com a maior das facilidades, resultar também no formato de longa-metragem.

Enquanto solução curta, é um triunfo. Nunca a solidão foi tão sedutora e eis que, dada a opção, também nós conversaríamos com os mortos para que estes nos confessassem quão solitário é, verdadeiramente, morrer.

Classificação: 90/100 

2 – MIRAFLORES DE RODRIGO BRAZ TEIXEIRA ( PORTUGAL, 18′, 2021) 

Miraflores curta Curtas Vila do Conde 2021
©Curtas Vila do Conde

Três crianças à procura de uma história. Um grupo de amigos a festejar. Uma igreja invulgar, uma piscina abandonada e uma árvore caída numa rotunda. O que há de mais inabalável num lugar: o cenário que nos rodeia ou as memórias talhadas nos seus recantos?

Carta de amor ao subúrbio Miraflores, que aqui vê toda a força do seu anonimato desarmada. Num gesto de falso documentário (mas não mockumentário), os (alegados) jovens deste local ilustram-nos como é a sua vivência, operando uma profunda transformação no espaço. Eis que este é preenchido por afeição, memória, crescimento, e evolução.

Esta é a primeira obra de Rodrigo Braz Teixeira, uma narração contada do ponto de vista de uma nova geração; são eles atores contratados e não habitantes reais deste bairro, o que acentua o contraste entre a ficção e a suposta representação da vida em Miraflores que aqui vemos neste Curtas Vila do Conde em 2021.

“Miraflores” é uma narrativa simples, que se faz e sente fragmentada. Sem grandes pretensões, consegue atingir uma presença poética notável, oscilando entre a vulgaridade e o bucólico. São vários os rostos que alavancam os eventos, mas são as mais jovens figuras as capazes de reter atenção e enfeitar o espectador. Particular aplauso para o jovem narrador, aquele que, com toda a doçura, recupera a história de quem transporta as memórias desta localidade na sua mente e coração.

Da banda-sonora ao argumento, “Miraflores” é uma auspiciosa primeira obra feita com poucos recursos, mas com elevada intencionalidade. A visita ao  29º Curtas Vila do Conde marca a estreia mundial desta pequena dedicatória filmada.

Classificação: 75/100 

3 – MADRUGADA DE LEONOR NOIVO ( PORTUGAL, 28′, 2021) 

Curtas Vila do Conde 2021 Madrugada
©Curtas Vila do Conde

Maria, uma mulher de meia idade numa fase de transformação física e emocional, vive uma existência frustrada, transitando de forma monótona entre casa e trabalho. Sentindo-se infeliz, e prenunciando a iminência da morte, Maria sonha em silêncio e isolamento com uma regeneração física e emocional.

Numa competição repleta de estreantes, “Madrugada” remete-nos para o regresso de uma autora que revisita o Curtas pela 4ª vez, tendo inclusive sido já Menção Honrosa do Júri com “A Cidade e o Sol” em 2012. Não tivemos oportunidade de ver esta obra em particular e, por isso, deixamos o apelo para que, caso se encontrem em Lisboa, se desloquem a 19 de julho, pelas 20h30, para ver o filme em exibição no Cinema Ideal.

Promete-se uma história poderosa acerca de relacionamentos humanos e afetivos da mais elevada complexidade.

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A sessão “Competição Nacional 1” estreou-se a 17 de julho, na Sala Um do Teatro Municipal de Vila do Conde, pelas 20h30. Repete às 21h00 do dia seguinte, no Cinema Trindade, no Porto. Por fim, esta colectânea de três curtas-metragens exibe ainda a 19 de julho às 20h30, no lisboeta Cinema Ideal. 

Adicionalmente, a vasta maioria das curtas-metragens exibidas no festival podem também ser vistas online, recorrendo ao segundo ano do “Online Pass Curtas”. Esta aposta permite ver em casa, pelo reduzido preço de 10€,  mais de 200 filmes. 

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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