A estreia do ator Zach Woods ("The Office") na realização conta com Will Ferrell no papel central |©Curtas Vila do Conde 2

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Internacional 1, em análise

O Curtas Vila do Conde 2021 marca a 29ª edição do festival de cinema deste município nortenho, com a exibição de mais de 50 obras entre os dias 16 e 25 de julho de 2021. Entre a programação destaca-se a Competição Nacional, Internacional ou Experimental de Curtas, bem como antestreias de filmes portugueses ou ainda a retrospetiva do trabalho da realizadora  Lynne Ramsay

Neste artigo analisamos as curtas-metragens apresentadas na sessão “Competição Internacional 1”, composta por três filmes de diferentes proveniências geográficas e incidentes em géneros distintos.

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1 – DAVID DE ZACK WOODS (EUA, 11′, 2020) 

Curtas Vila do Conde 2021 Competição Internacional 1
William Jackson Harper interpreta uma das personagens titulares |©Curtas Vila do Conde 2021

Um homem seriamente deprimido procura uma sessão de terapia de emergência. Contudo, ele não é o único a precisar de ajuda.

Zack Woods, o complacente Gabe Lewis de “The Office” e  o franzino “Jared” de “Silicon Valley”, estreia-se com este “David” no universo da realização. Woods co-escreve, co-produz e realiza esta curta (passe a repetição) curta-metragem, onde a estrutura de uma sessão de psicoterapia é interrompida por um episódio insólito que coloca em causa a pertinência da própria separação entre terapeuta e doente.

Numa comédia repleta de tons de ironia mordaz, Woods mostra que aprendeu com os melhores nas suas casas de comédia. Para primeiro esforço na realização de qualquer espécie de filme, “David” é sem dúvida um auspicioso arranque. A simplicidade técnica é auto-evidente, intencional e crua. Já o argumento e as breves interpretações encontram-se repletas de alterações tonais, momentos de comédia com um caráter ora mais intelectual, ora mais físico, que por vezes se tornam para lá de incisivos.

Há algo de profundamente relacionável nas emoções desreguladas de “David”, perfeitamente estruturado do início ao fim, com 11 minutos capazes de arcar com certo grau de desenvolvimento de personagens. Aplaudem-se também os esforços do veterano da comédia Will Ferrell como o terapeuta; de William Jackson Harper, evocativo do seu neurótico, emblemático e nomeado ao Emmy Chidi (“The Good Place”) como um dos David; e ainda de Fred Hechinger (do grande indie “Eighth Grade” de Bo Burnham) como o explosivo “outro David”. 

Esta curta, estreada em 2020 em Cannes em competição pela Palma de Ouro, tem vindo a percorrer um bem-sucedido percurso de Festivais ao longo do último ano e sugere que Woods não terá dificuldades em encontrar o seu próprio timing cómico.

Classificação: 85/100

2 -ESTADO DE ELEVAÇÃO DE ISABELLE PRIM (FRANÇA, 20′, 2020) 

Curtas vila do conde 2021 Isabelle Prim
“Estado de Elevação” (2020) de Isabelle Prim |©Curtas Vila do Conde 29

É a bordo de um balão estratosférico que uma adolescente protagoniza um estranho encontro no espaço. Duas investigações tentam desenredar o verdadeiro do falso. Uma é conduzida no presente, a outra no passado. Uma usa imagens, a outra o discurso. Uma olha para o Espaço, a outra para as profundezas.

“Condition D’Élévation “ é uma invulgar curta-metragem que casa o experimental e o ficcional, a imagem real e a imagem construída. Casa também a memória real e a memória sonhada e faz-se da interceção destes diversos instantes e inconsistências. Dá-se uma  sobreposição de cenas, certas mais ricas que outras ( por exemplo, a imagem recorrente do consultório de terapia enriquece a narrativa mas empobrece a componente visual de “Estado de Elevação)”.

Mais que uma condição de elevação, aqui traça-se a memória do sonho esotérico de uma jovem adolescente, alimentada a partir de imagens belíssimas de balões de alta altitude a pairar na atmosfera. O material original, o qual é combinado com as filmagens contemporâneas, exibe momentos de cortar a respiração oriundos dos arquivos do do Observatório do Espaço do Centre national d’études spatiales , os quais foram captados na década de 1960, 1970 e 1980.

À expansão do conhecimento acerca do universo vai aliar-se a descoberta da individualidade da figura feminina que une passado e presente. Esta é a sua história, fragmentada, como a de todos os que pisam o Planeta Terra. Esta é a sua tentativa de dilatar temporalidades e alimentar uma eterna sede de aprendizagem.

Classificação: 80/100

3 – DELENDA CARTHAGO DE GUILLAURME ORIGNAC ( FRANÇA, 39′, 2021) 

Curtas Vila do Conde 2021 Delenda Carthagoi
©Curtas Vila do Conde 2021

Uma cidade deserta, que pode ser Paris com os seus “boulevards”, ou uma outra cidade qualquer, desde que vazia de gente, como se todos tivessem desaparecido de repente, na qual as únicas vozes que se ouvem são as dos manequins que conversam aproveitando o silêncio, mas que são interrompidos pela presença de uma personagem que passa pelo cenário com uma mochila às costas.

De um sonho francês para uma outra quimera francófona. “Delenda Carthago” é uma utópica (ou quiçá distópica)  realidade imaginada que se faz pautar por um elevado grau de meta comentário. Esta curta metragem de 40 minutos é a 5ª da filmografia do seu autor, que aqui assume também as funções de montador e argumentista.

Aproveitando-se da desertificação das capitais, esta narrativa de ficção que fecha a Competição Internacional 1 do Curtas Vila do Conde 2021 sugere um sonho feito memória ou uma memória sonhada em que a figura do homem evapora das ruas parisienses. O diálogo faz-se agora entre manequins de lojas, os quais comunicam em línguas distintas e recordam aquele que foi em tempos o mundo do Ser Humano. Esta é apenas a premissa que lança o mote para o desenvolvimento da história mas, infelizmente, o arranque e a conclusão são mesmo os momentos altos de  “Delenda Carthago”.

Curta-metragem com duração a aproximar-se da longa, “Delenda” acaba por se tornar excessivamente vagarosa e dispersar por entre demasiadas personagens e situações. Um maior nível de contenção e capacidade de síntese teriam ampliado a intensidade dramática que aqui se vê mirrada. Não obstante, esta Paris ( tão psicadélica quanto contemplativa) é sem dúvida memorável.

Classificação: 75/100

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A programação acima foi exibida no dia 17 de julho, sábado, pelas 18h30, na Sala 1 do Teatro Municipal de Vila do Conde. O Festival Curtas Vila do Conde 2021 decorre até dia 25 de julho. Os bilhetes para as sessões podem ser adquiridos aqui. 

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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