Não Olhem Para Cima © Niko Tavernise / Netflix

Não Olhem Para Cima, em análise

Mal a temporada de prémios começa, cinéfilos sabem que os famosos Oscar-baits com elencos estelares serão lançados praticamente todas as semanas até ao fim do ano. É assim que Hollywood funciona e, para ser justo, o “efeito de recência” é real (pesquisem no Google se necessário). Seguindo essa linha de pensamento, “Não Olhem Para Cima” preenche todos parâmetros-padrão, enchendo o seu elenco e equipa técnica com pessoas premiadas.

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Adam McKay (“Vice”) aventura-se novamente na comédia satírica, contratando uma montanha de atores excecionais para elevar uma história totalmente surreal. Admito que sou muito particular com sátiras. Ou estas realmente acertam em cheio os temas abordados ou genuinamente transformam o filme numa visualização desconfortável.

Felizmente, a Netflix consegue um candidato digno para os meses importantes que se seguem. Ao misturar um cometa “destruidor de mundos” convencional com tópicos altamente debatidos, como política, economia, religião, questões ambientais e muito mais, “Não Olhem Para Cima” é incrivelmente… parvo, até os espetadores começarem a perceber o quão provável de tudo isto acontecer na vida real. McKay entrega-se de corpo e alma a todas as piadas e referências, tentando demonstrar de forma exagerada como cada tipo de media, pessoa, país, etc., reagiria a um evento de nível de extinção. Algumas sequências são executadas de maneira brilhante e hilariante, arrancando fortes gargalhadas do meu público, incluindo eu próprio. Outras erram o alvo, deixando todos desapontados.

Não Olhem Para Cima
©NOS Audiovisuais

Obviamente, o que funciona ou não depende muito do que os espetadores consideram interessante. Pessoalmente, política e religião são dois dos tópicos mais insignificantes na minha vida, mas algumas das minhas maiores risadas originam de piadas relacionadas com estes assuntos. Nos casos de tentativas de sátira bem-sucedidas, o argumento de McKay atinge o seu pico quando a história mergulha na Internet. Desde a criação espontânea de hashtags aleatórias às reações absurdas nas diferentes redes sociais, é honestamente bastante preciso com o que provavelmente aconteceria. Além disso, sendo eu próprio engenheiro e homem de ciência, alguns preconceitos e estereótipos sobre esta área de trabalho são muito bem tratados, o que me deixou satisfeito e divertido.

Por outro lado, o problema principal não só é inerente à minha nacionalidade portuguesa, mas também ao facto de não possuir conhecimentos suficientes sobre a política e economia dos EUA. Para além de considerar estes temas frustrantemente monótonos, repetitivos e frequentemente manipulados, as sequências com Meryl Streep (“Mulherzinhas”) e Jonah Hill (“Richard Jewell”) – que retratam o POTUS e o Chief of Staff, respetivamente – parecem algo ridículas demais para o meu gosto. Definitivamente, a caricatura menos eficiente do meu ponto de vista, que devo admitir não é exatamente uma perspetiva confiável para leitores americanos. Mark Rylance (“Os 7 de Chicago”) compensa parcialmente este problema, já que a sua interpretação de Peter Isherwell, uma representação de todos os Elon Muskes / Steve Jobses / Bill Gateses deste mundo, origina alguns momentos engraçados dentro da Casa Branca.

 

Quem realmente brilha neste filme são Leonardo DiCaprio (“Era uma vez em…Hollywood”) e Jennifer Lawrence (“A Agente Vermelha”) como Dr. Randall Mindy e Kate Dibiasky, respetivamente. Os seus arcos de personagem demonstram como as pessoas podem mudar drasticamente quando enfrentam situações difíceis. O Dr. Mindy é um astrónomo educado e muito experiente, que possui níveis de stress intensos com os quais DiCaprio brinca lindamente. Dibiasky é um aluna de doutoramento que acredita ser a única pessoa sã no planeta, mas o seu vocabulário expressivo e postura assertiva fazem-na soar e parecer louca para o público geral. Os atores carregam totalmente este filme, especialmente DiCaprio, que é absolutamente excecional. Cate Blanchett (“Thor: Ragnarok”), Tyler Perry (“Em Parte Incerta”) e Rob Morgan (“The United States vs. Billie Holiday”) também são fantásticos.

No geral, “Não Olhem Para Cima” é bastante agradável e os seus inúmeros cameos – um ator em particular está a divertir-se à grande este ano com este tipo de presença – certamente deixarão o público encantado. No entanto, não ficarei surpreendido se as pessoas reagirem de uma forma extremamente negativa ou extremamente positiva. McKay deita tudo para fora, logo ou irão chorar de tanto rir ou chorar de tanta frustração. Por fim, devo elogiar a performance vocal impressionante de Ariana Grande na sua incrível canção original “Just Look Up”, em colaboração com Nicholas Britell (“Cruella”), compositor do filme. Não podia pedir mais ao final perfeito que, aliás, guarda duas cenas pós-créditos essenciais.

NÃO OLHEM PARA CIMA | JÁ DISPONÍVEL NOS CINEMAS | ESTREIA NA NETFLIX DIA 24 DE DEZEMBRO

Não Olhem Para Cima, em análise
não olhem para cima

Movie title: Não Olhem Para Cima

Movie description: Dois astrónomos de baixo nível devem fazer um press tour gigante para alertar a humanidade sobre a aproximação de um cometa que destruirá o planeta Terra.

Date published: 8 de December de 2021

Country: EUA

Duration: 138'

Director(s): Adam McKay

Actor(s): Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Rob Morgan, Jonah Hill, Mark Rylance, Tyler Perry, Ron Perlman, Timothée Chalamet, Ariana Grande, Scott Mescudi, Himesh Patel, Melanie Lynskey, Cate Blanchett, Meryl Streep

Genre: Comédia, Ficção Científica, Drama

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  • Marta Kong Nunes - 85
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  • Rui Ribeiro - 75
  • Cláudio Alves - 35
70

CONCLUSÃO

“Não Olhem Para Cima” aborda de forma hilariante praticamente todos os temas atuais dignos de discussão através do argumento satírico de Adam McKay que, sem dúvida, deixará os espetadores incrivelmente satisfeitos ou extremamente chateados, dependendo da opinião de cada um sobre determinados assuntos. Possuindo um elenco absolutamente fenomenal, a Netflix consegue aqui um candidato a prémios ousado e divisivo. Repleto com alegorias, referências e piadas diretas sobre todos os tipos de media, governos, tópicos sociopolíticos e questões ambientais, McKay não se contém, algo que pode ser um fator decisivo na resposta do público. O elenco oferece prestações inacreditavelmente boas, mas sem os protagonistas Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, os espetadores definitivamente olhariam para baixo, para os seus telemóveis, em vez de prestar atenção ao filme. Uma obra divertida para assistir nesta época natalícia.

Pros

  • Maioria das sátiras hilariantemente bem-sucedidas, nomeadamente a abordagem às redes sociais e à Internet no geral.
  • Prestações fascinantes, especialmente dos protagonistas Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence.
  • Música original de Ariana Grande poderá ter algum peso (merecido) na temporada de prémios.
  • Final perto da perfeição.

Cons

  • Independentemente da opinião de cada espetador sobre determinados assuntos, é inevitável que algumas sátiras não tenham qualquer impacto positivo.
  • Segundo ato pode tornar-se demasiado repetitivo.
  • Não deixa de seguir algumas fórmulas habituais do típico enredo de “fim do mundo”.
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Manuel São Bento

Um jovem engenheiro de 28 anos com uma paixão tremenda por cinema, televisão e a arte de filmmaking. Opiniões baseadas numa perspetiva imparcial de quem não vê trailers desde 2016. Membro de associações de críticos internacionais como GFCA, IFSC e OFTA. Aprovado no Banana Meter. Redes sociais através de @msbreviews.

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