© Sarah Colt Productions

DocLisboa ’20 | The Disrupted, em análise

“The Disrupted”, da autoria de Sarah Colt, é mais uma entre as múltiplas visões que refletem sobre a longa anunciada morte do sonho americano.

Fá-lo com ternura, compaixão e consequente humanidade neste que é o primeiro momento de uma edição especial do DocLisboa. 

Entre outubro de 2020 e março de 2021 o DocLisboa faz-se de vários momentos, orientados por uma vontade de refletir sobre a natureza do cinema e dos seus temas. As obras documentais irão multiplicar-se, sendo exibidas ao longo de vários meses. Menos filmes de cada vez, com menos tónica na competição e maior relevo dado à própria organização da programação.

“The Disrupted” engloba-se na secção “Corpo de Trabalho”, a qual nos irá acompanhar noutros momentos posteriores do Festival. É um exemplo perfeito do espírito da secção, ilustrando a resiliência das pessoas comuns e altamente reais que aqui abrem a sua porta à realizadora e se entregam quase como se a câmara não estivesse presente, com um enorme grau de franqueza.

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É, aliás, uma das grandes vantagens da obra. Muitos dos seus eventos surgem como espontâneos, irrefletidos, simplesmente pedaços de vida que acontecem de forma dinâmica e fluída. Há acidentes, discussões espontâneas e outros eventos que simplesmente compõem a vida dos personagens de carne e osso. Muito pouco dos diálogos são forçados e a maioria das situações parecem coadunar-se com o dia-a-dia dos nossos três protagonistas.

Vamos alternando entre a vivência de três “heróis” do quotidiano que pouco parecem ter em comum, mas que acabam por nos remeter para situações e valores partilhados. Em Estados diferentes e com backgrounds e níveis de educação distintos, um agricultor dono de uma exploração agrícola no Kansas, um operário de fábrica recentemente despedido no Ohio e uma motorista de Uber em Tampa, Flórida lutam pelos mesmos valores. São trabalhadores, sonhadores e otimistas por natureza.

TRAILER | THE DISRUPTED – SECÇÃO CORPO DE TRABALHO 

Carregam consigo responsabilidades e sentimento de culpa: é a quinta na família desde 1900 que não rende devido aos grandes negócios, é a remuneração cada vez mais baixa e precária dos funcionários da Uber e Lyft, é a dificuldade de encontrar uma nova ocupação lucrativa depois de perder um emprego de mais de 10 anos de permanência, que se tornara já uma certeza. São três corajosos que lutam contra uma sociedade mercantil que os desvaloriza cada vez mais.

Os nossos protagonistas não merecem nunca a nossa pena, mas antes sim o nosso respeito e é esse um dos outros grandes trunfos de “The Disrupted”, uma obra claramente capaz de dignificar o sujeito filmado. Estas pessoas reais podem ser testemunhas vivas de que o sonho americano fracassou e a classe média está a ser devorada pela arrogância corporativa mas, não obstante, estes não deixam de personificar os valores de empreendorismo e sacrifício que orientaram esse inatingível e não palpável sonho americano do “self-made man”.

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Uma longa-metragem marcada por alguma nostalgia por tempos mais simples ou pelo menos com menos ferocidade, mais calmos. Estes já não voltam e os nossos heróis do dia-a-dia encontram novos mecanismos para se manterem ativos e relevantes. É revelador e inspirador observá-los.

“The Disrupted” é uma estrelinha brilhante nesta primeira parte da décima oitava edição do DocLisboa em 2020/2021.

Caso não tenham tido oportunidade de estar presentes nas suas sessões, a boa novidade é que o filme está incluído na subscrição da Amazon Prime Video e a sua visualização é recomendação obrigatória! 

The Disrupted, em análise
The Disrupted doc 2020

Movie title: The Disrupted

Date published: 28 de October de 2020

Country: EUA

Director(s): Sarah Colt

Genre: Documentário

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  • Maggie Silva - 85
85

Conclusão

“The Disrupted” é um retrato cuidado e repleto de empatia que pensa três exemplos da falência do sonho americano. Perante o declínio da classe média trabalhadora, o sonho americano pode estar a morrer mas o sonhador e empreendedor que o formou está bem-vivo. Ao fim de contas, há um claro sinal de esperança transportado pelos protagonistas.

O MELHOR:  a escolha dos sujeitos do documentário, os quais nos parecem sempre sinceros, reais e altamente capazes de criar uma ligação com o potencial espectador;

O PIOR: Esta é uma análise extremamente micro e centrada no fator humano. Alguma análise macro da situação poderia tornar o filme mais robusto em termos teóricos e como documento histórico que testemunha como a Administração Trump falhou na sua suposta campanha de estimulação da economia e desenvolvimento de negócios;

 

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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