©Doclisboa

Doclisboa 2021 | Competição Portuguesa de Curtas

No Cinema São Jorge, Sala Manoel de Oliveira, e no primeiro sábado do Doclisboa 2021 foram apresentados, pela primeira vez nesta 19ª edição do Festival, os filmes que compõem a 2ª sessão da Competição Portuguesa de Curtas.
 
Narrativas dispares, que em comum apresentam as temáticas de passagem do tempo, preservação da memória e que trabalham, todas elas, com ambição, o som assíncrono. 
Lê Também:
Doclisboa 2021 | Mostra Origens - Práticas e Tradições no Cinema
As três narrativas apresentadas partilham ainda uma certa dramatização do objeto documental, bem como a preocupação com a apresentação de um objeto mais lírico ao invés de meramente sociológico. Deixamos, assim, algumas impressões acerca destas três curtas-metragens que, exibidas no âmbito da Competição Portuguesa de Curtas, competem também por um Prémio do Público:

COMPETIÇÃO PORTUGUESA DE CURTAS  – LUGARES DE AUSÊNCIA DE MELANIE PEREIRA

Doclisboa 2021 Competição Portuguesa de Curtas Lugares Ausência
©Doclisboa

2021 • PORTUGAL • 28’ 

As mãos questionam o que podem ter em comum com mãos cobertas de cimento, lama, poeira, usando luvas de construção civil azuis e luvas de limpeza amarelas. Essas mãos que, em vez de construírem casas, repetem imagens, esticam sons, constroem filmes.

“Lugares de Ausência”, da autoria de Melanie Pereira, é um típico filme arquivo. Com uma progressão vagarosa e um suporte que depende de poucos planos e de muitas fotografias, o voz off é a arma mais recorrente e poderosa para contar uma história familiar que se faz de memórias. Nostálgico e quente, este “Lugares de Ausência” enquadra-se na perfeição da tradição cinematográfica documental do cinema como arquivo da memória.

É narrada a história de um núcleo familiar, sem pressas, sem artefactos, com objetividade e emotividade doseadas de forma simbiótica. Não obstante, esta curta-metragem é demasiado rotineira e previsível dentro do género específico em que se insere. Não faltam pedaços de narrativa pessoal semelhantes na história do documentário, e muito em particular na história da curta-metragem, particularmente apetecível para este tipo de material.

Não obstante, “Lugares de Ausência”, por excessivamente vagaroso e familiar que possa parecer, acerta com precisão no que diz respeito à sua capacidade de representar intimidade no grande ecrã.

Nota: 60/100

MEIO ANO-LUZ DE LEONARDO MOURAMATEUS 

doclisboa 2021 competição portuguesa
©Doclisboa
2021 • PORTUGAL, BRASIL • 19’
Um rapaz senta-se numa rua movimentada de Lisboa para desenhar as pessoas que passam. Não muito distante, um casal conversa sobre a origem de uma carteira encontrada meses antes. A luz de um momento é reflectida sobre o outro.

Eis que a curta seguinte, também ela apresentada pelo seu realizador em sala, se apresentou com uma cadência distinta e oposta à anterior. Numa sequência de imagens bem ritmadas, intercaladas entre um plano fechado da lifa-lufa quotidiana e imagens de desenhos curiosos e sugestivos, é reconstruída perante o olhar do espectador uma pequena história acerca de uma carteira perdida que serve como base de reflexão para questões como migrações, racismo ou até viagens temporais.

Leonardo Mouramateus faz de facto algo notável com esta pequena curta, ao conseguir construir uma teia rica com base em pouco ou quase nada. São apenas imagens de uma rua, imagens simples, sem uma edição ou montagem por aí além, mas que resultam, essencialmente, devido à criativa força do discurso que aqui se edifica. Involuntariamente, este “Meio Ano-Luz”, documentário encenado assente na criatividade do seu autor, serve também como testemunho de uma Lisboa pré-pandémica. Uma Lisboa que não conseguiria saber tudo o que estava prestes a enfrentar. Assim, esta curta faz-se também, sem contar com isso, de documento que atesta a passagem do tempo. Onde andará agora a carteira?

Nota: 85/100

 PAZ DE JOSÉ OLIVEIRA E MARTA RAMOS 

Competição Portuguesa de Curtas 2 paz
©Doclisboa

2021 • PORTUGAL • 25’

“Paz” é nitidamente, não precisassem os realizadores de o anunciar aquando da apresentação do filme, um trabalho de continuidade. O par de cineastas José Oliveira e Marta Ramos têm vindo a desenvolver um trabalho forte junto da comunidade de veteranos do Ultramar que vemos representada no filme. Perante a inatividade criminosa imposta pela pandemia, “Paz” acabou por resultar como um exercício de homenagem aqueles que vemos no filme, alguns deles entretanto já partidos.

Por isso, não é estranho que “Paz” se faça sentir fragmentado. É mais um capítulo numa saga do que uma obra que viva por si só. Com uma bela música original aqui tocada, alguns artefactos valorosos exibidos e histórias pertinentes narradas, “Paz” tem uma estrutura que satisfaz mas que não deixa de frustrar. Queremos saber mais acerca destes homens, destes veteranos, ambicionamos também um ângulo específico que nos permita agarrar esta narrativa. Contudo, aqui são-nos apresentados ambiciosos fragmentos e não tanto um pedaço de cinema unificado e unificador.

Nota: 70/100

O Doclisboa apresenta a sua 19ª edição, em seis salas da capital, até ao próximo dia 31 de outubro. Estás a acompanhar a programação? 

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

Maggie Silva has 345 posts and counting. See all posts by Maggie Silva

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *