"When the Persimmons Grew" | © Subobscura Films

DocLisboa ’19 | When the Persimmons Grew, em análise

When the Persimmons Grew” é uma comovente meditação sobre o lar e sobre a figura de uma mãe azerbaijana. O filme de Hilal Baydarov integra a programação do DocLisboa deste ano.

Dizer tal coisa é um cliché, mas é verdade que existem filmes que são como poemas audiovisuais. A maioria do cinema que vemos é uma prosa narrativa, um encadeamento de ação a ser observada, que diverte e faz esquecer. Por outro lado, existem os cineastas que abordam o meio cinematográfico através de uma visão mais lírica. As imagens não existem para contar a história nesses filmes. Pelo contrário, elas rimam umas com as outras, comovendo pelas ideias que florescem na associação de diferentes estímulos, hipnotizando o espectador e deleitando-o.

Descrições como esta podem sugerir uma experiência exclusiva e pretensiosa. Cinema poético parece, por vezes, ser aquele que só encontra casa em festivais e fãs nas elites intelectuais ou profissionais críticos. Só que a poesia cinematográfica é a forma mais apropriada para se capturar os ritmos da vida. O corriqueiro e o quotidiano não são narrativas bem estruturadas, mas sim aleatoriedades que rimam e contrastam, que imergem e aborrecem. Ocasionalmente, parece que não há filmes mais próximos do real do que aqueles que fazem da realidade um verso de celuloide.

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© Subobscura Films

O cineasta azerbaijano Hilal Baydarov ganhou vários prémios em Nyon e Sarajevo por este mesmo tipo de experiência fílmica. “When the Persimmons Grew” encontra o realizador a virar a câmara para si mesmo e sua mãe, transfigurando a inação do dia-a-dia numa sequência de tableaux tão belos como parados. Assim é a primeira metade do filme, que poderá levar muitas audiências ao sono, mas também poderá maravilhar outras tantas com a sua sublime beleza pictórica.

O lar é onde se consegue sentir o passar do tempo. Assim diz o nosso realizador e coprotagonista numa das suas muitas conversas com a mãe e assim nos mostra o documentário. Há passagens tão vagarosas quanto belas que não fazem mais que contemplar farrapos de fumo numa casa fria ou as partículas de pó que brilham ao sol e pontilham o ar com pinceladas de luz. Também a mãe solitária contempla e observa sem nada fazer. Como uma personagem de Becket, ela parece viver numa espera eterna.

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Há a espera pela colheita dos dióspiros e pelo secar da fruta. Há a espera pelas estações mais cálidas e há a espera pela modernidade que vem com o filho e o júbilo que vem com os netos. A mãe de Baydarov ainda faz da ruralidade campestre o seu lar, numa casa humilde que pouco resguarda do frio e dos elementos. Segundo o cineasta, é como se ela vivesse no passado. De facto, só mesmo quando o filho e netos vêm de visita é que nos apercebemos que estamos no século XXI e não numa fantasia oitocentista.

Ela espera e nós com ela esperamos. Vemos o fumo flutuar e vemos fotografias do passado, perdidos em reminiscências que só brilham nos olhos da avó que espera a chegada dos mais novos e sua vivacidade. A montagem estica a sua espera e condensa-a, faz-nos simpatizar com ela e compreendê-la também. E depois o filho chega, após uma interminável viagem de comboio e, ao invés de trazer consigo o afeto extremoso, vem com mais conflito e antagonismo. Ele dilacera a paz com existencialismos angustiados e niilismo aceso.

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© Subobscura Films

Não há nas suas palavras a bondade da mentira ou da ficção. O realizador é catastroficamente honesto, vendo uma simples risada como oportunidade para dissecar a reação materna. Estar com ele exausta e fascina, entedia e galvaniza. Queremos ver ternura entre estas duas almas perdidas, mas só vemos a discussão pesada e passeios silenciosos. Um abraço rasga o poema soturno, um riso monocromático ressoa e, de repente, o verso ganha novo sentido. A ambivalência e amor estético que o filme tem pelo lar rural é o mesmo do filho. Afinal, ele é o realizador que orienta o olhar da câmara.

O resultado de tudo isto é uma experiência estranhamente sentimental e tocante. “When the Persimmons Grew” é uma meditação melancólica, uma contemplação funérea e afetiva sobre uma mãe que adora, uma mulher que espera e que ama. Do seu modo particular, o documentário é uma belíssima homenagem de um filho para com sua mãe, mesmo que possa parecer algo mais antagónico que isso. No fundo da discussão e do existencialismo penoso, há sempre amor e tristeza a sombrear o que vemos. Este poema não será apropriado para todas as audiências, mas é portador de uma beleza preciosa e de um sentimento poderoso.

When the Persimmons Grew, em análise
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Movie title: Xurmalar Yetişən Vaxt

Date published: 2019-10-23

Director(s): Hilal Baydarov

Genre: Documentário, 2019, 118 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Um poema, uma canção de amor a uma mãe solitária, “When the Persimmons Grew” é um belíssimo documentário contemplativo. Dá para entender como é que este filme tem vindo a conquistar a adoração de júris em vários festivais europeus.

O MELHOR: A beleza de um abraço junto a uma janela, os farrapos de fumo e o pó que pinta o ar com reflexos luminosos. O primor formalista do projeto é estupendo, sugerindo um olho que passou toda uma vida a ver as mesmas paisagens e a aprender como melhor capturar a sua essência.

O PIOR: Ocasionalmente, parece que o cineasta força os diálogos intelectuais a terem lugar, como se estivesse a forçar o quotidiano a tornar-se num filme de Nuri Bilge Ceylan.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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