"Cosas de Mujeres" (1978)| ©Doclisboa/Cine Mujer

Doclisboa’22 | Artistic Differences: Making a Face and a Fist

Entre a programação da 20ª edição do Doclisboa encontrámos, na secção “Da Terra à Lua”, uma prolífica colectânea de quatro filmes mexicanos do final dos anos 70 e início dos anos 80. O que os unifica é a visão verdadeiramente disruptiva e progressista sobre a figura feminina. Tratam-se de curtas criadas pelo coletivo “Cine Mujer”, nesta sessão intitulada “Artistic Differences: Making a Face and a Fist“. 

Numa sessão projetada na sala 3 do Cinema São Jorge, no âmbito da secção “Da Terra à Lua” do 20º Doclisboa, “Artistic Differences: Making a Face and a Fist” exemplifica, através de quatro curtas-metragens, o trabalho do coletivo Cine Mujer, o qual se encontrou operacional entre os anos de 1975 e 1986, criando cinema pioneiro e abertamente feminista no México – pela primeiríssima vez.

Este coletivo fundado no México em 1975 teve como principal motor impulsionador o maio de 1968 em Paris. Foi Rosa Martha Fernández, estudante em França, quem trouxe o movimento revolucionário de volta para o seu país, onde contactou com outras activistas dos direitos das mulheres. Em conjunto, criaram um trabalho coeso, marcante e que merece uma exibição e redistribuição ampla.

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Este grupo, formado por estudantes do Centro Universitário de Estudos Cinematográficos, realizou filmes que se revoltavam inteiramente contra o dogma da sociedade mexicana reinante. Inclusive, mesmo perante o olhar de quem vêm em 2022, as temáticas díspares e complementares abordadas na sessão “Artistic Differences: Making a Face and a Fist” continuam a ser igualmente pertinentes, urgentes, chocantes e pouco comuns.

Dizer que estas obras se encontravam à frente do seu tempo é um eufemismo. Não chega para expressar o gesto notável que aqui é recordado por força do trabalho não só do Doclisboa, como da sua colaboração com outras entidades. Neste caso, o programa resulta de uma parceria com a entidade Artistic Differences, um projeto Break Out do UnionDocs – Center for Documentary Art (organização internacional norte-americana sem fins lucrativos) e ainda com o apoio do Festival Internacional de Cinema de Valdivia (no Chile, que em 2022 prestou homenagem às realizadoras deste coletivo).

Artistic Differences: Making a Face and a Fist abre com Y si eres mujer
(Guadalupe Sánchez Sosa, México, 1976, 7′)

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©Doclisboa/Cine Mujer

Uma reflexão sobre o papel da educação na concepção dos papéis de género.

Como a sinopse indica, esta curta que combina animação em stop motion, recortes e imagem real problematiza a questão dos papéis de género. O filme de Guadalupe Sánchez Sosa é de longe o mais curto e simples dos quatro apresentados nesta sessão, sem se destacar particularmente no âmbito da mesma. Em particular porque a própria reflexão em torno de papéis de género se faz de uma forma bastante óbvia e sem nuances. Mas, por outro lado, tal não era um diálogo comum em 1976, o que torna esta peça artística pertinente, mesmo considerando toda a sua simplicidade.

O filme problematiza a forma como a mulher é condicionada desde o nascimento e, não sendo inovadora (para os nossos padrões atuais, lá está), é sem dúvida um pontapé de entrada adequado para esta competente e bem programada sessão.

70/100

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Vicios en la cocina, las papas silban (Beatriz Mira Andreu, México, 1978, 24′)

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©Doclisboa/Cine Mujer

Beatriz Mira, cineasta brasileira radicada no México, filma o trabalho doméstico realizado por mulheres no final de uma década marcada por numerosos movimentos políticos e sociais, incluindo grupos feministas que contestavam as mulheres terem sido relegadas da esfera pública e, portanto, restringidas à esfera doméstica. Nas suas lutas e debates, empunhavam o lema “o que é pessoal é político”.

A sessão “Artistic Differences: Making a Face and a Fist” prossegue com “Vicios en la cocina, las papas silban”, um pequeno tratado acerca de domesticidade feminina que tem o poder invulgar de nos colocar na pele da protagonista do documentário. A serventia familiar a que a nossa heroína se resignou traz-lhe contentamento e melancolia em igual medida e, ao observarmos o seu dia-a-dia e ouvirmos a narração na primeira pessoa, sentimos uma total imersão no seu mundo.

Tal visão do trabalho doméstico merece ser exaltada pela sua preciosidade, raridade e qualidade geral enquanto objeto documental que tenta captar a essência de quem filma. Sem dúvida, Beatriz Mira é bem sucedida e em menos de meia hora consegue criar um grau de empatia considerável para com a figura que observamos. No fim, a sua mágoa, tão particular e revestida em quietude, torna-se também a NOSSA mágoa.

80/100

Cosas de mujeres (Rosa Martha Fernández, México, 1978, 45′)

Os anos 1970, no México, foram marcados pelo nascimento do movimento feminista e pelo surgimento de um novo cinema independente. O colectivo Cine Mujer surgiu da iniciativa de várias alunas do Centro Universitário de Estudos Cinematográficos para realizar um trabalho sobre o aborto no México, que eventualmente resultaria neste filme. O caso de uma jovem estudante que vive uma gravidez indesejada e é submetida à humilhação de um médico que pratica a operação clandestinamente. Acaba por ser hospitalizada devido a complicações e lá encontra o testemunho de outras mulheres que fizeram abortos.

A principal impulsionadora do Cine Mujer, Rosa Martha Fernández, é precisamente quem assina a obra mais impactante da sessão de curtas “Artistic Differences: Making a Face and a Fist”. “Cosas de Mujeres” é um filme muito incómodo acerca do flagelo que fora o aborto ilegal no México do final dos anos 1970. Munido de estatísticas oficiais em abundância, mas também de muita emotividade, “Cosas de Mujeres” sabe colocar o dedo na ferida.

Embora a obra apresente uma estrutura bastante inesperada, oscilando entre o documental puro e duro, filmando cenas em hospitais e clínicas e incluíndo entrevistas de quem passou pelo cruel processo de um aborto clandestino, inclui também uma outra secção dominante pouco esperada: a encenação de uma situação que aconteceu a tantas mulheres – uma jovem estudante que se ausenta de casa para procurar onde abortar e acaba por ficar à mercê de um médico que não zela pelo seu bem-estar depois da intervenção ilegal.

Enquanto elemento exemplificativo, esta “encenação” criada pelo filme resulta muito bem para fazer a ponte para as posteriores imagens chocantes e testemunhos de médicos com os quais contactamos. Quiçá a componente encenada da curta nos permita até suportar melhor o que vem depois, por muito plástica que possa parecer de início, com as suas vibes de recriação de “true crime”.

Para lá da sua estrutura formal pouco usual, “Cosas de Mujeres” é um documento histórico de valor incalculável e que, muito infelizmente, não perde a pertinência no “hoje e agora”.

85/100

No es por gusto… (Maria del Carmen de Lara/Maria Eugenia Tamés, México, 1981,51′) fecha Artistic Differences

doclisboa DA TERRA À LUA No es por gusto...
©Doclisboa/Cine Mujer

Obra interessante de cinéma vérité, embora um pouco cíclica na exposição das suas relevantes temáticas e protagonistas, “No es por gusto” fecha a sessão “Artistic Differences” com uma reflexão bastante completa acerca do mundo da prostituição no México no início dos anos 80. Acima de tudo, este pedaço de história viva funciona como testemunho de uma forte marginalização e perpetuação de desigualdades.

O que mais impressiona é o enquadramento legal e tratamento sofrido por estas mulheres que, uma e outra vez, eram sem cerimónia despejadas em celas de prisão imundas pelo simples facto de se encontrarem a percorrer as ruas – estivessem ou não à procura de clientes, estivessem ou não na companhia dos seus filhos. Mais chocante é ainda o testemunho da chefe prisional da prisão feminina da cidade filmada, ela própria bem capaz de reconhecer a aleatoriedade associada às detenções. Connosco fica, acima de tudo, um sentimento de revolta.

A desumanização e desrespeito prevalecem mas, felizmente, as realizadoras sabem empoderar as mulheres que filmam, dando-lhes uma voz e enaltecendo-as como as sobreviventes que são – para lá da pobreza, para lá do infortúnio, para lá dos recorrentes maus tratos domésticos sofridos no passado.

80/100

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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