© Luísa Sequeira e Ana Almeida

Doclisboa ’22 | O que podem as Palavras, em análise

“O que podem as Palavras”, realizado a duas mãos por Luísa Marinho e Luísa Sequeira, teve estreia mundial no Doclisboa 2022, 48 anos depois do lançamento de “Novas Cartas Portuguesas”, a revolucionária obra assinada a três por Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. Quanto a este breve documentário, levou o Prémio do Público.

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Não é surpreendente que “o que podem as Palavras”, de Luísa Marinho e Luísa Sequeira, tenha saído da 20ª edição do Doclisboa com o Prémio do Público debaixo do braço. Esta narrativa documental com um excelente ritmo, que na marca dos 77 minutos nunca parece demasiado longa ou curta, honrando a sua temática e sujeitos fílmicos, celebra, com inesperado humor de sobra, o trabalho atemporal de três mulheres à frente do seu tempo.

Com a participação especial da já falecida poetisa Ana Luísa Amaral como mediadora das conversas, as ‘três Marias’, como foram apelidadas pela comunicação internacional durante os anos 70, são entrevistadas individualmente acerca do trabalho de escrita coletiva das suas “Novas Cartas Portuguesas”, bem como sobre o pesado escrutínio que sofreram por parte do Estado Novo.

Para quem não se encontre familiarizado com a sua história, em 1972, em plena ditadura do Estado Novo, Maria Isabel Barreno (falecida em 2016), Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (falecida em 2020), publicaram uma coletânea de textos em vários formatos literários, as suas “Novas Cartas Portuguesas”, que transgrediam a ordem estabelecida pelo regime ditatorial.

Nomeadamente questionando aquele que era o papel da mulher, bem como a sua nítida serventia doméstica apregoada. Ao fim de contas, a sua inspiração surgira a partir das cartas de Mariana Alcoforado (1640-1723), uma jovem que foi mantida em cativeiro num convento durante toda a sua vida e cujas palavras foram o seu legado para a posteridade.

“Novas Cartas Portuguesas”, um marco incomparável junto da literatura portuguesa e um feito único, tocava em inúmeras temáticas sensíveis, de forma mais ou menos direta, entre elas a guerra que decorria nas colónias ou outros temas vistos como transgressores pelo regime – adultério, violação, aborto, entre outras. Assim, o livro viu-se não só de imediato banido como foi também considerado como “pornográfico” e um “atentado aos bons costumes”.

A obra literária não foi sequer julgada pela PIDE, tendo antes sido submetida ao departamento do Estado Novo que se ocupava de matérias relacionadas com violação dos bons costumes e prostituição. Arrastadas para um longo julgamento, ‘as três Marias’ rapidamente se tornaram um símbolo internacional de resistência, numa época em que os Direitos das Mulheres se procuravam afirmar à escala internacional.

A sua palavra foi transportada por vários continentes, e a pressão sobre o governo fascista português não foi pouca, à medida que a história das três autoras preencheu manchetes em jornais internacionais e impulsionou o movimento feminista da década de 1970.

“O que podem as Palavras” é uma raríssima oportunidade de ouvir o relato na primeira pessoa das três autoras  – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – entrevistadas há já cerca de 7/8 anos atrás para os efeitos deste filme. Na sessão em sala, as realizadoras Luísa Marinho e Luísa Sequeira estiveram presentes e explicaram como este filme demorou cerca de 10 anos a ser concluído devido a dificuldades orçamentais.

Não obstante a demora a chegar ao grande público, as reflexões das ‘três Marias’ são poderosas, interessantes e acima de tudo honestas (com particular ênfase para as intervenções de Maria Teresa Horta, uma personalidade contagiante e efusiva). Desde o processo de redação deste importante tratado assinado a três mãos, passando pela descrição detalhada dos interrogatórios policiais ou das repercussões do legado da sua obra, é fascinante testemunhar o dom do discurso e a abertura das três autoras.

Maria Teresa Horta Novas Cartas Portuguesas
Maria Teresa Horta em entrevista © Luísa Sequeira e Ana Almeida

Passadas décadas desde a publicação das “Novas Cartas Portuguesas”, não se coíbem de partilhar o afastamento depois da troca intensa de ideias que levou à criação do livro, nem tão pouco de enfatizar a fricção que sentiam em relação a vários temas. Com orientações políticas e ideológicas distintas e personalidades vincadas, o documentário reflete acerca da forma como ‘as três Marias’ foram capazes de abdicar da autoria de cada um dos seus textos para partilhar a co-autoria da totalidade da obra – um gesto ousado e contra o individualismo e ego literário.

Para além do conteúdo inspirador, genuinamente feminista (sem precisar de se afirmar como tal) e capaz de transmitir a intimidade das figuras entrevistadas, esta obra documental destaca-se pelo ritmo de narração prazeroso e capaz de provocar uma reação muito forte em sala.

Além disso, entre as típicas entrevistas enquadradas em plano médio frontal, há muito espaço para a diversidade. O material de arquivo multiplica-se e os elementos que vemos são complementados por uma riquíssima animação que nos ilustra o que não podemos ver – os interrogatórios, os vexames, os ataques públicos provocados pelo gesto destas mulheres das letras que “ousaram” manifestar-se contra o patriarcado da época.

O desenho a preto e branco animado atribui uma outra vivacidade à imagem que nos é ilustrada no grande ecrã, havendo uma fluidez considerável entre imagéticas coexistentes neste “O que podem as Palavras”. Sem dúvida, tanto as palavras como as imagens desta narrativa documental podem muito, permitindo a novas gerações tomar contacto com a impactante obra e legado das ‘três Marias’.

Ao fim de contas, a ‘utopia’ da igualdade de género está ainda longe de se ver concretizada e documentos fílmicos como estes, que se afirmam como conversas capazes de reavivar a memória, são mais que poderosos.

O Doclisboa decorreu entre 6 e 16 de outubro em várias salas lisboetas. Acompanhaste a programação? 

TRAILER | O QUE PODEM AS PALAVRAS NO DOCLISBOA 2022

O que podem as Palavras, em análise
Cartaz O podem palavras doclisboa 22

Movie title: O que podem as Palavras

Movie description: Em 1972, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, publicaram o livro “Novas Cartas Portuguesas”. O livro foi imediatamente banido pela polícia política e as escritoras foram julgadas por atentado à moral. O seu caso tornou-se a Primeira Ação Feminista Internacional. “O Que Podem As Palavras” é um retrato íntimo, na primeira pessoa, das extraordinárias “Três Marias”.

Date published: 19 de October de 2022

Country: Portugal

Duration: 77'

Director(s): Luísa Marinho, Luísa Sequeira

Genre: Documentário

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  • Maggie Silva - 83
83

Conclusão

“O que podem as Palavras” é uma oportunidade única de ouvir o relato na primeira pessoa de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, as co-autoras da muito influente obra literária “Novas Cartas Portuguesas”.

Pros

  • A convergência entre o registo tradicional de entrevista, as imagens de arquivo e ainda a animação cuidada presente no filme;
  • ‘As três Marias’ nas suas próprias palavras e uma reapresentação do passado perante uma nova audiência;
  • A franqueza patente nos relatos;
  • A natureza bem ritmada da obra documental;

Cons

  • A não presença física das ‘três Marias’ num mesmo espaço e a sensação de que ficou algo por dizer nesse campo.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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