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Foundation, primeiras impressões

Foundation” é um “tour de force” audiovisual, que refunde a famosa trilogia de Asimov em algo entre a poesia estética e a prosa sofisticada para as massas. Depois do sucesso televisivo de “Da Vinci´s Demons”, David S. Goyer poderá estar a criar as fundações para algo verdadeiramente especial.

Finalmente, a obra magna do escritor e bioquímico americano de origem russa, ganha a sua primeira, quiçá única, recriação “live-action” visionável, após anos de intenso debate em redor dos incontornáveis obstáculos na adaptação do utópico e vasto manuscrito de “Foundation”. Estamos só a falar de um intrincado universo imaginário, cuja narrativa desembrulha-se num dinâmico e infindável horizonte cronológico de mil anos. Coisa pouca. No entanto, a grande celeuma no que diz respeito à sua materialização teve mais que ver com a natureza concetual e abstrata do seu conteúdo antológico, uma vez que a história deambula por diversas linhas temporais, cria e descria personagens e eventos, focando-se ultimamente mais em diálogos e ideias do que numa ação contínua e consistente. Até o carma ter apanhado David S. Goyer, que havia recebido pelo seu décimo terceiro aniversário uma versão de bolso da referência literária do sci-fi, com a promessa de concretizar o último desejo em vida do seu pai: recriar “o melhor trabalho de ficção cientifica alguma vez criado”. E volvidas quase três décadas desde o seu desaparecimento, permanece intacto o valioso legado de Asimov – um visionário à frente do seu tempo, que ousou viajar pelo cosmos com as conversas futuristas da sua tumultuosa experiência vivencial, lançando as fundações do que é hoje um dos géneros mais venerados por miúdos e graúdos em todo o mundo. Mas afinal, do que trata “Foundation”?

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Em traços muito gerais, “Foundation” retrata o declínio e queda da capital do Império Galático (Trantor) – uma imponente e suntuosa metrópole central, regida com punho de ferro no auge da sua grandeza, forjada pelos mesmos princípios civilizacionais até à última Roma de Rómulo Augusto (1493). Aliás, o livro de Gibbon “História do Declínio e Queda do Império Romano do Ocidente”, que Asimov desfolhou, aquando do seu destacamento na marinha americana por alturas do ataque a Pearl Harbor, pavimenta todo o espírito institucional e societário da sua novela espacial. Indubitavelmente, em plena Segunda Guerra Mundial, a coletânea de contos que originaram “Foundation”, são também um espelho do regime despótico nazi, sobretudo dos ideais antissemitas e arianos de uma raça superior. E se há setenta anos atrás, toda essa doutrina faria sentido no contexto histórico da época, Goyer foi astuto em reunir uma parcela de noções mais antiquadas e conceitos mais abstratos, reciclando-os engenhosamente para a realidade atual, demarcando-se, assim, e bem, da letra estrita de Asimov. Um bom exemplo dessa abordagem criativa, que em nada belisca o ambiente espiritual proposto pelo legítimo autor, manifesta-se no genial caricaturismo da família imperial ou “dinastia genética”. Assim, numa absoluta “auctoritas” centralizada na tríplice variação genética do Imperador Cleon I, três clones masculinos em diferentes estágios de idade (Alvorecer, Dia, Crepúsculo), governam a galáxia simultaneamente num perpétuo bromance incestuoso.

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A perversa proposta de Goyer para justificar a longevidade da trama principal, traduz-se numa visão tão absurdamente louca quanto refrescantemente deleitosa, desafiando-nos a assimilar uma inédita forma de governação em tudo repugnante na sua essência, mas estranhamente gratificante na sua representação prática. A chave de uma tal sensação pseudo-pecaminosa, encontrar-se-á na palpitante relação simbiótica dos três imperadores “irmãos” que, fazendo recorrência à célebre expressão de que a virtude se encontra no meio, faz sobressair o Dia como o líder da alcateia, trazendo-nos de volta mais um temível Lee Pace, depois de Ronan em “Capitão Marvel”. O ator natural de Oklahoma, dá vida a uma figura implacável e tirânica replicada à imagem e semelhança do último “Deus encarnado” da Etiópia (Haile Selassie), que enche o pequeno ecrã com uma presença altiva e um carisma maquiavélico. Coadjuvado pelos seus pares opostos: Alvorecer e Crepúsculo, respetivamente interpretados por (Cassian Bilton) e (Terrence Mann), que conferem à trindade um pungente diálogo tripolar repleto de avidez e narcisismo. O contrapeso equalizador deste viciado status quo, remete-nos, então, para duas outras peças essenciais que vão encaixar na proposição patriarcal: Hari Seldon (Jared Harris) – um brilhante e revolucionário matemático que apregoa o fim da prosperidade imperial, e Gaal Dornick (Lou Llobell) – uma prodigiosa rapariga dos subúrbios da galáxia (Synnax), destinada a grandes feitos. Brevemente invocada no prefácio original de 1951 “The Pschohistorians”, como uma mera voz que introduz Trantor e Hari ao leitor, Goyer, indo à boleia da novelle-vague de heroínas da cultura-pop, reverte-lhe o género e confere-lhe um corpo e uma personalidade.

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E assim que lhe pomos a vista encima, ficamos magneticamente enfeitiçados pelo penetrante olhar terno e vulnerável da novata afro-hispânica de vinte e seis anos, que emana aquela aura de ingenuidade e curiosidade própria da jovialidade de quem acabou de atingir a maioridade. Aliás, a jovem atriz confessou rever-se inteiramente no papel de Gaal, já que também teve de abandonar a sua família para perseguir o seu sonho na área da representação. De igual modo, a lenda agora reinventada por David S. Goyer, apresenta-nos uma protagonista cujo inteleto é demasiado evoluído para permanecer amordaçado na tacanha mentalidade provinciana, que ao desembarcar na cidade farol de toda a civilização, impulsiona na pequena Gaal e em todos nós, aquele deslumbramento a quem foi concedida permissão para abrir uma porta proíbida. Assim, o impossível universo convertido por Goyer do espesso e desgarrado parlapié coloquial de Asimov, ergue-se agora em todo o esplendor digital, mas desengane-se quem pense que é tudo fabricado na velhinha tela verde. Não é. Na verdade, Goyer, que trabalhou com Nolan na trilogia Batman, segue o seu éthos no que à criação de sets práticos diz respeito, optando por incorporar, na medida do possível, cenários reais em detrimento dos artificiais. É evidente que a projeção de complexos modelos de supercidades tecnológicas, delimitadas por majestosas construções quilométricas com elevadores que sobem e descem pela vastidão do espaço, não conseguiria abdicar da tradicional montagem poligonal, aqui plasmada com enorme pujança visual. Mas Goyer faz questão de nos fazer um périplo europeu por um punhado de paragens geográficas para encher os seus planetas de cor, cheiro e textura.

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A esse respeito, a exuberante reprodução do planeta “Terminus” – um árido e gélido calhau rochoso filmado entre a Islândia (Reykjavik) e as Ilhas Canárias (Caldera de Los Arrabales), funciona como um limpa-pára-brisas de toda a virtualização que torna “Foundation” em algo existencialmente palpável. Na gíria de Asimov, “Terminus” é uma espécie de terra esquecida nos arrabaldes imperiais, que acolherá o decretado exílio de Seldon e Dornick na fundação da chamada “Enciclopédia Galática” – um arquivo cultural destinado a preservar a história de toda a humanidade, após um milénio de trevas. Daqui poderão antever os anticorpos gerados pelas herméticas convicções de Hari Seldon, que incorporadas na eloquente pessoa de Jared Harris, conferem nervo e relevo emocional à casual narrativa de “Foundation”. A típica ligação mentor/pupilo rege de forma apaixonante o grosso das dinâmicas argumentativas, permitindo de igual modo a invocação daquele lado mais fantasioso e místico, eximiamente absorvido por Goyer de “Da Vinci´s Demons”. Ele é mestre em alimentar a inata e insaciável curiosidade do espetador, extorquindo do papel de Asimov os artefactos e objetos mais sobrenaturais como o “Primeiro Radiante” ou a “Cripta”. Este último merece destaque na “psicohistória” de Seldon, já que associa uma outra protagonista resgatada dos escritos de “Foundation”. Estamos a falar de Salvor Hardin (Leah Harvey), que passa do livro como um homem de chefia anti-violência para a televisão como uma destemida guerreira.

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Da pequena amostra inicial a que tivemos acesso, “Foundation” arrebatou-nos como à muito não acontecia, num concorrido segmento que parecia estagnado. A rotulada obra infilmável, ganha aqui uma corajosa adaptação ou “remix” como explica Goyer, que apanha o melhor da trilogia, numa reinterpretação imageticamente mais ambiciosa e argumentativamente menos retorizada, respeitando sempre a essência daquele que é considerado por muitos, o épico pai de toda a ficção científica. Ainda será cedo para retirarmos ilações conclusivas, mas quase que nos apetece afirmar que, “Foundation”, poderá muito bem vir a ser a produção ficcional sci-fi mais importante desde a criação de “A Guerra das Estrelas”.

“Foundation” é a primeira adaptação visionável da revolucionária obra literária de Isaac Asimov, que inspirou todos os grandes autores de ficção científica que lhe seguiram. É uma reinterpretação livre, por isso tentem consumir esta enigmática série televisiva com algum distanciamento do original. Já disponível na plataforma AppleTV+.

Foundation | Primeiras Impressões (Apple TV+)
Foundation Primeiras Impressões Póster

Name: Foundation

Description: Baseada nos premiados romances de Isaac Asimov, Fundação retrata um grupo de exilados na sua monumental jornada para salvar a humanidade e reconstruir a civilização em plena queda do Império Galático.

Author: Miguel Simão

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  • Miguel Simão - 90
90

CONCLUSÃO

“Foundation” é uma das maiores e mais ambiciosas produções televisivas até à data, com a marca sem precedentes de oitenta episódios a ser cogitada por Goyer para a Apple TV+. Com um budget estimado nos quarenta e cinco milhões para a primeira ronda de capítulos, “Foundation” acalenta ser o novo “Game of Thrones” espacial. Para já, o seu visual futurista arrojado polvilhado por um persuasivo discurso mundano de cariz filosófico, que gravita em torno de forças transcendentais, prende-nos irremediavelmente à sua órbita.

Pros

  • Reinterpretação livre da obra de Asimov
  • Altíssimos valores de produção
  • Enredo acessível e atual
  • Personagens marcantes
  • Elementos visuais realistas
  • Luxuoso guarda-roupa
  • Sonoplastia orquestral

Cons

  • CGI por vezes ostensivo
  • Algumas conversações triviais
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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  1. Johnny 6 de Outubro de 2021

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