"Game of Thrones" | © HBO Portugal

Game of Thrones | A evolução estilística de Sansa

De menina mimada a Rainha do Norte, Sansa Stark teve um dos arcos narrativos mais transformativos de “Game of Thrones”. Para celebrar o 10º aniversário da série, exploramos como essas mudanças se manifestaram no guarda-roupa da personagem.

Ao longo das oito temporadas de “Game of Thrones”, a figurinista Michele Clapton teve de vestir inúmeras personagens cujas histórias sofreram reviravoltas radicais. No entanto, quiçá nenhuma outra tem um guarda-roupa tão expressivo como o de Sansa Stark, interpretada por Sophie Turner. Não é que as mudanças de Cersei ou Daenerys sejam menos impactantes, mas a sua evolução é como uma linha reta, contínua e bem definida. Ambas essas mulheres se vestiram a condizer com aspirações concretas e seu figurino é uma clara exteriorização de pressões interiores.

No caso de Sansa, a história é mais complicada. Enquanto filha de um nobre vassalo do rei de Westeros, a menina Stark não possuía nem a autonomia de uma monarca regente ou o poder de uma aspirante a imperatriz. De facto, quando a conhecemos, Sansa sonha em cumprir um papel subserviente na teia social de Westeros. Ela quer ser uma princesa casada com um príncipe encantador. Em certa medida, seu figurino tem que transmitir esse sentido de inocência, essa natureza infantil e sem poder para se afirmar enquanto personalidade forte.

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Desde início, as roupas de Sansa refletem a fusão de dois estilos dinásticos. Seus materiais e texturas remetem para o frio nortenho a que a Casa Stark, sua linhagem paterna, está acostumada. Apesar disso, o gosto pelos azuis, pelas mangas em sino e bordados delicados são marcas dos Tully, casa senhorial de sua mãe. Como filha de dois nobres, ela representa o encontro de dois sonhos familiais, uma menina definida por aqueles que a trouxeram ao mundo ao invés de uma figura individual e individualista. Nas primeiras temporadas, Sansa é sempre muito moldável enquanto elemento estilístico.

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As maiores marcas da rapariga autónoma encontram-se nos detalhes mais minuciosos dos conjuntos, nos bordados e nos decotes decorados com linho entrançado. Ao contrário de Arya, sua irmã mais nova, Sansa sempre gostou dos lazeres e preceitos femininos de Westeros. Como boa senhora tradicional, ela gosta de bordar, encontra diversão e autoexpressão na agulha ao invés da espada. Essa passividade irritou muitos fãs da série, mas mostra-nos um necessário contraste com outras personagens. Arya e Cersei, por exemplo, ora ressentem ou renegam sua feminilidade. Sansa celebra-a.

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Por conseguinte, Clapton e a bordadora Michele Carragher encheram os vestidos pseudo medievais de Sophie Turner com delicados pormenores florais e animais. Quando vai a um torneio, qual donzela virtuosa, Sansa enverga um vestido coberto com rosas delicadas. Para Clapton, isso seriam ornamentos que a própria personagem adicionaria aos seus humildes trajes do Norte. Em temporadas mais tardias, Clapton partiria mesmo do preceito que Sansa era a costureira do seu guarda-roupa.

Enfim, a menina inocente do início da primeira temporada rapidamente perdeu a inocência com a morte do seu pai às mãos de um noivo traiçoeiro. Por essa altura, já Sansa foi despida dos seus conjuntos nortenhos, quer ela quisesse ou não. Ao invés de envergar linhas Stark e Tully, ela passa a cobrir-se em sedas de Porto Real e à moda de Cersei Lannister. Os figurinos de Sansa são um registo das pessoas que a influenciaram e, tristemente, até à quarta temporada, essa pessoa foi a esposa leonina de Robert Baratheon. Os figurinos de Sansa assim a mostram enquanto prisioneira de guerra. Mesmo uma gaiola de ouro é uma gaiola.

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Um motivo que Clapton manteve presente mesmo nestes figurinos à la Lannister foi o elemento do bordado enquanto marca do indivíduo. Pegando num colar que a menina Stark havia usado desde o começo da história, a figurinista pontuou o guarda-roupa da personagem com imagens de libelinhas. Quer em fechos metálicos, pendentes, ou pequenos desenhos com linha de seda, esse inseto delicado voa pelos vestidos de Sansa. Um animal tão indefeso é facilmente esmagado pela pata de um leão. Contudo, também pode voar para segurança, adaptando-se às violências que se abatem em si.

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É isso mesmo que Sansa faz, adapta-se para sobreviver. Ela pode estar cativa dos Lannister, mas jamais arrisca o pescoço, usando a sua subserviência performativa como arma. Não é o lavoro mais fácil do mundo, especialmente quando se considera o abuso constante. Clapton mostra isso mesmo ao salientar as constrições da rapariga, seus figurinos ao estilo da capital jamais trocados por modelos maiores. Ao longo da segunda e terceira temporada, as roupas vão ficando cada vez mais justas, o espartilho passando de uma ferramenta de suporte para um objeto de mortificação corporal.

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O apogeu da influência Lannister é o primeiro vestido de casamento de Sansa, quando seus cárceres a forçam a partilhar matrimónio com Tyrion. Das cinzas fuscas que haviam definido o seu guarda-roupa em Porto Real, Sansa passa a vestir um damasco de cinza claro e ouro pálido. É como se o cinzento dos Stark fosse consumido pelo ouro dos Lannister. A condizer com a lógica, as faixas cruzadas em forma de arnês sobre o peito da noiva remetem para a sua história de vida até àquele momento. Como que troçando da rapariga, Cersei terá concebido a indumentária para assinalar a derrota dos lobos do Norte.

Ao longo da faixa sedosa, Carragher bordou seres caninos a serem trucidados por leões orgulhosos. Também há uns quantos peixes foragidos, animais dos Tully, quiçá nadando para longe do massacre. O fio metálico domina o ornamento, especialmente no que se refere aos reis da selva e do Rochedo Casterly. Na nuca, Sansa tem um leão que ruge, marca de propriedade que é tão dolorosa como um desenho de ferro quente sobre pele. A mensagem desta fatiota é clara. Os Stark foram derrotados pelos Lannister e agora, até esta inocente rosa do Norte se tornou parte do espólio leonino. É uma humilhação em forma de moda.

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Depois desse evento triste, o figurino de Sansa pouco muda. Afinal, quando é que ela teria oportunidade ou poder para alterar seu guarda-roupa? Só o advento do casamento de Joffrey com Margaery lhe altera radicalmente a condição. Depois de um colar seu ter sido usado para transportar o veneno que matou o rei fedelho, Sansa foge de Porto Real e passa a maior parte da quinta temporada com o mesmo traje cinzento e capa encapuzada. Assim é até à morte da tia monstruosa. Aí, Sansa finalmente reconquista autoridade e assume-se como uma nova mulher.

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Em jeito de luto e de sedução, Sansa concebe um novo vestido para a ocasião de seu interrogatório sobre o fim da tia às mãos do Mindinho. Inspirando-se nesse pérfido manipulador e no símbolo aviário da irmã de sua mãe, Sansa exibe-se em sedas pretas e penas de corvo. Clapton conjeturou que ela poderia ter recolhido as penas caídas dos pássaros mensageiros, afigurando-se um novo vestido, mais justo e decotado. É uma provocação e um grito de independência.

Além do mais, é uma celebração dos seus poderes únicos enquanto jogadora do xadrez social de Westeros. Ao pescoço, Sansa passa a usar um círculo negro com uma corrente enrolada. Na ponta do fio metálico está uma agulha. Arya pode ter uma espada para se defender, mas Sansa precisa de outras armas. A moda, a mentira, o veneno da verdade mal contada e da submissão ilusória são as armas desta loba Stark. Qual espectro ensombrado, este figurino mostra-nos que a rapariga inocente morreu e em seu lugar nasceu nova pretendente ao trono.

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Apropriadamente, os restantes figurinos de Sansa nas temporadas que se seguem respeitam o gosto pelo preto do luto, pelas penas de corvo e pela influência de Mindinho. Na sexta temporada, ela até aparece com uma houppelande que é quase cópia exata da peça envergada pelo traiçoeiro proxeneta. Trata-se de moda medieval levada aos extremos da fantasia realista. Se Maléfica fosse uma figura ancorada em preceitos naturalistas, potencialmente vestiria o mesmo estilo angular e escuro desta Sansa renascida.

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Nada disso quer dizer que o sofrimento da menina Stark tenha terminado. Forçada a casar-se com mais um homem asqueroso, violada na noite de núpcias, abusada sem piedade por mais um clã todo-poderoso, Sansa volta a modificar o traje. Para este segundo matrimónio, ela assume-se como a Senhora Stark, Dama de Winterfell, descendente orgulhosa de Catelyn. Com saia volumosa, lãs espessas e uma estola de pêlo branco, ela é como uma loba altiva, mas os peixes prateados da casa materna brilham-lhe no ventre. Não obstante sua dor, Sansa está a reclamar o seu lugar enquanto líder legítima do Norte.

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Outra miséria se segue, outra fuga encapuzada, outra odisseia de humilhação. No fim das provações está Jon Stark e a salvação fraterna. Quando cavalga para Winterfell decidida a matar o marido abusador e reconquistar o castelo da sua família, Sansa é a loba enfurecida que dá cara ao escudo Stark. Em veludos verdes e bordados animalescos, ela é uma visão de impiedade, de raiva justificada e belicosidade feminina. A partir de agora, Sansa não será mais vítima. Nem de maridos, nem do Mindinho, de ninguém.

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Para as sétima e oitava temporadas, Clapton vestiu Sansa como uma rainha da fortaleza, figura soturna que veste preto e peles de lobo. Mais do que qualquer um dos filhos de Ned Stark, ela exibe grande orgulho para com a tradição familiar, para com a identidade cultural do Norte. Mais ainda que Catelyn, mais ainda que Ned, Sansa é a filha pródiga do seu reino, envergando tecidos pesados e metal militarista. Ela está pronta para a batalha e ao seu pescoço a agulha afiada continua a reluzir. É uma ameaça e uma promessa de justiça.

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Michele Clapton também teve em atenção os traumas que haviam cicatrizado a alma e o corpo de Sansa. Como que no terror de ser tocada, a senhora Stark cobre toda a pele em texturas aguçadas e trajes angulares. Os ombros altivos são rematados por destaques retilíneos, a cintura protegida com um cinto na cor de sangue seco ao qual uma corrente se prende. A própria figurinista referiu-se ao pormenor como uma espécie de cinto de castidade com que Sansa protege o corpo e a integridade. Longe de ser uma peça de opressão misógina, esse cinto aqui se afirma como uma forma de Sansa reclamar propriedade sobre sua sexualidade, sobre seu poder, sobre si mesma.

Quando a guerra rebenta no Norte, exércitos de mortos e de vivos colidindo às portas de Winterfell, o figurino de Sansa chega ao seu apogeu de líder militar. Faixas de cabedal cruzam-se sobre o peito, uma couraça negra que é tão estilizada que mais parece alta-costura ao invés de fantasia medieval. Há uma aspereza alienante nesta nova conceção de Sana, uma autoridade que assusta, mas também merece aplausos. Mesmo antes de ser coroada, Sansa já se veste como uma Rainha do Norte.

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Com tudo isso dito, nada é mais majestoso que o vestido de coroação de Sansa Stark. Para sua última cena na série, Sophie Turner enverga um dos melhores figurinos de “Game of Thrones”, um culminar da narrativa de Sansa que a própria Michele Clapton já assinalou como um dos seus trabalhos preferidos. Trata-se do Reino do Norte de Westeros cristalizado na forma de uma indumentária real, desde as folhas vermelhas das árvores sagradas até aos lobos belicosos que uivam na coroa. O próprio tecido foi escolhido por representar a cor dos Stark, a prata do escudo, e ter em si uma textura vegetalista, sugestão das florestas do Norte agreste.

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No peito, Sansa veste uma couraça estilizada, ramos emaranhados, traços de vento gélido materializados em prata. A gola é bordada com motivos naturalistas e a capa é rematada por uma cabeça de lobo feita em fio de prata e bordado tridimensional. As escamas peludas que desenham o lobo heráldico estão patentes na textura das costas, e a corrente com a agulha continua pendente à cintura. No cimo de tudo, reluz a coroa prateada com dois lobos entrelaçados. Os Stark valem pela união, o Norte ganha quando está unido pela causa conjunta. Enquanto suprassuma figura política de “Game of Thrones”, Sansa acaba a série vestida como um ícone de liderança justa. Longa vida à Rainha do Norte!

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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