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Game of Thrones | Cersei Lannister, Rainha da Moda

Cersei Lannister é uma das mais fascinantes, complexas e monstruosas personagens de “Game of Thrones”, assim como uma das mais bem-vestidas também. Para celebrar os dez anos da série, olhamos para os figurinos desta personagem icónica.

Michele Clapton, a figurinista principal de “Game of Thrones”, dedicou os últimos oito anos da sua carreira a materializar o universo imaginado por George R.R. Martin na sua célebre saga de romances fantasiosos. Ela inventou modas inspiradas em culturas exóticas e estilos históricos, mas sempre manteve uma enorme preocupação com o papel dramatúrgico das roupas em cena e a necessidade de fazer de Westeros e Essos mundos credíveis. Mesmo quem desgoste a escrita da série, certamente terá pouco a criticar no trabalho exímio da figurinista.

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Em artigos anteriores, já falámos de alguns dos melhores figurinos das primeiras quatro temporadas da série, analisámos o guarda-roupa da sétima temporada e explorámos a evolução estilística de Jaime Lannister, Brienne de Tarth e toda a Casa Tyrell. Agora, com o décimo aniversário da série, decidimos debruçarmo-nos sobre as roupas de uma das personagens mais glamourosas do programa. Referimo-nos, pois claro, à inigualável Cersei Lannister, rainha dos Sete Reinos e da moda de Westeros. Pelo menos assim foi até a Fortaleza Vermelha lhe cair em cima.

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A morte desta personagem pode não ter correspondido às expetativas ou refletido a importância de Cersei para a narrativa de “Game of Thrones”, mas o mesmo não se pode dizer sobre os seus figurinos. Desde a primeira vez que vimos Lena Headey em Porto Real até aos seus últimos momentos, a atriz e sua personagem envergaram roupas que delineiam, com dramatismo e precisão, o arco narrativo da mesma, suas origens e as características que a definem enquanto uma das mais mortíferas jogadoras desta guerra pelo Trono de Ferro.

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Antes de explorarmos as especificidades de tal evolução visual, convém estabelecer alguns fatos importantes sobre Cersei Lannister. Em primeiro lugar, há que se entender que esta é uma mulher que odeia a sua feminilidade e a posição submissa que a sociedade lhe impõe devido ao seu sexo. Tirando a filha, Myrcaella, Cersei demonstra escárnio sobre qualquer mulher que apareça no seu caminho e, especialmente nos livros, os seus pensamentos refletem uma atitude justamente caracterizada como misógina.

De facto, quando era jovem, Cersei chegou a trocar de roupas com Jaime, seu gémeo e amante, fazendo-se passar por ele para desfrutar do seu privilégio masculino, nem que fosse só por umas horas. Essa relação com o irmão é, de longe a mais importante na vida de Cersei, assim como a chave para decifrar aquele que é talvez o seu pior defeito. Avaliando os seus comportamentos e reações, podemos ver na Rainha Lannister um caso de narcisismo quase patológico, que se manifesta, inclusive no tipo de amor possessivo que Cersei nutre pelo amante, seu gémeo, e os três filhos que tal união produziu.

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Por outras palavras, Cersei ama Jaime e os filhos com fervor, mas parte desse amor deriva do facto de que ela os vê como extensões de si mesma. De modo bem distinto, a esposa abusada de Robert Baratheon olha para o pai como um exemplo a seguir e muitas vezes expressa o desejo de ser como ele, de seguir os seus passos e de ser o filho que ele sempre desejou. Ironicamente, Tyrion, o irmão anão de Cersei que é odiado tanto pela irmã como pelo pai é o Lannister que mais se assemelha a Tywin, o patriarca leonino.

Nos livros, o ódio que Cersei nutre por Tyrion é parcialmente uma consequência da profecia que tem vindo a marcar a vida desta rainha usurpadora desde a meninice. Em “Game of Thrones”, a série, só é ouvida a primeira parte da profecia que refere como Cersei será rainha, como os seus filhos terão coroas doiradas e mortalhas iguais, que ela os irá perder e uma mulher mais jovem e bela lhe iria tirar tudo o que ela mais amava. Além disso, Martin também escreveu sobre como Cersei viria a encontrar a morte às mãos de um irmão mais novo. Tais presságios moldam as ações da personagem, atormentam-na e ajudam a torna-la no monstro que vemos na oitava temporada.

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Profecia, sexismo e amor narcisista são os pilares de Cersei e influenciam fortemente o seu guarda-roupa. Também se deve considerar os valores e símbolos da Casa Lannister, com seus leões doirados sobre fundos vermelhos. A ambição e o ouro, a sede pelo poder e a impiedosa violência em nome de saciar essa sede, são ideias incutidas por Tywin nos seus filhos, a geração dos Lannister que domina a narrativa. Cersei assim se define em termos de texto e história. Visualmente, Michele Clapton tentou traduzir tudo isso através dos seus figurinos.

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Para vestir os habitantes das Terras Ocidentais de Westeros, Michele Clapton tentou fugir aos maiores clichés das fantasias proto medievais. Ela fez isso através do uso de referências estilísticas raramente associadas com tais estéticas fantasiosas, assim como toques e técnicas da alta-costura contemporânea. No caso dos Lannister, a figurinista foi buscar ideias ao Japão, seu gosto pela assimetria e tecidos luxuosos com decorações requintadas.

Por norma, os vestidos de Cersei fecham quase como um quimono, se bem que com a ajuda de atilhos e cintos metálicos ao invés de obis de tecido. As mangas podem parecer as típicas mangas em forma de sino que vemos em todos os filmes de fantasia como “O Senhor dos Anéis”, mas Clapton fez questão de cortar a peça como um quimono, com mangas retangulares que caem de modo ligeiramente diferente. Também há o uso de painéis de tecido lateral e, ocasionalmente bordados ricos feitos por Michele Carragher com base em técnicas típicas da decoração de quimonos. De forma geral, este é um estilo que não parece tanto um cliché do género fantástico, mas também não é totalmente incongruente com as nossas expetativas.

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A primeira cena em que Cersei aparece em “Game of Thrones” encontramo-la a ver os ritos fúnebres de Jon Arryn nos corredores do Septo de Baelor. Esse é o único vislumbre que os espetadores têm de Porto Real nessa primeira hora da saga fantasiosa e do estilo de Cersei como rainha na capital. O resto do episódio passa-se sobretudo no Norte, em Winterfell. Demora um pouco até que o seu estilo se consolide, mas, pelo fim da temporada, já temos um “look” base para Cersei. Veja-se, por exemplo, aquele que é um dos seus figurinos mais repetidos ao longo de toda a série.

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Trata-se de outro dos seus vestidos-quimono em cores pastéis e sedas finas. Desta vez é um modelo em azul claro e detalhes dourados, atado com atilhos e um corte assimétrico. Normalmente, Cersei usa também um dos seus cintos metálicos, criando uma justaposição interessante entre a delicadeza dos tecidos e a rigidez fria do metal. O que torna este vestido numa peça tão interessante é a simbologia que está nele contida por meio dos bordados de Michele Carragher. A bordadora construiu requintados pássaros a voarem pelas mangas e ombros da rainha.

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Não há aqui leões, pois, sob o regime de Roberth e, mais tarde, sob a autoridade de Tyrion, Cersei é forçada a fazer os seus jogos de poder e manipulação nas sombras. Não há interesse estratégico em mostrar a sua ambição na imagem que ela projeta aos demais. Os pássaros, além de tudo isso, também transmitem a ideia de uma criatura engaiolada, reprimida pelos poderes dos que a rodeiam. Como bem sabemos, não demoraria muito até que Cersei destruisse essa gaiola com muito sangue e fogo verde.

É também este o vestido que Cersei enverga em algumas cenas mais íntimas e sexuais. Relativamente aos figurinos, tais momentos são de interesse, pois expõem as várias camadas do conjunto. Note-se, por exemplo, como o estilo ocidental de Westeros inclui o uso de espartilhos para conferir a silhueta de busto cónico e altivo com cintura pequena. Clapton, para evitar clichés, fugiu ao desenho de espartilhos do século XVI, que seriam mais típicos para o tipo de ambiente pseudo medieval e renascentista que a série tem. Pelo contrário, o espartilho de Cersei segue linhas mais setecentistas. Este cocktail de referências é essencial para a especificidade visual de “Game of Thrones”.

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O tipo de silhueta do vestido azul que Cersei usa na primeira temporada é repetido em muitos outros dos seus figurinos. Logo na primeira hora da segunda temporada, a viúva de Robert Baratheon é vista com aquele que poderá muito bem ser caracterizado como o figurino que melhor resume o seu estilo e personagem. Como dissemos, o modelo do vestido-quimono mantém-se, mas os materiais, as cores e os motivos simbólicos mudaram radicalmente, de modo a refletir uma maior segurança, poder e agressividade descarada por parte de Cersei. Desta vez, a leoa Lannister veste o ouro e o vermelho da sua família. As mangas do vestido estão cobertas por pesados bordados em fio metálico.

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O corpo é em vermelho com os ombros também decorados com os adornos doirados que condizem com o medalhão feito do ouro minado no Rochedo Casterly pelos vassalos de Tywin Lannister. Qualquer vestígio dos estilos Baratheon sumiram. Até a coroa com hastes de veado deixou de fazer parte do espólio estilístico de Cersei, apagando a pouca presença que os veados coroados do marido tinham na sua imagem pública. Esta é uma Cersei que começa a ganhar poder, mas ainda não chegou aos píncaros de ostentação e paranoia que iriam atingir o rubro com a presença dos Tyrell em Porto Real, na terceira temporada.

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Aí, o figurino de Cersei atingiu novos apogeus de ostentação com golas armadas e estruturas rígidas. Meio leoa orgulhosa, meio cobra encapada, a rainha-mãe também enverga inúmeras peças de armadura, símbolos de uma paranoia crescente que só se intensifica com a morte do primeiro filho no início da quarta temporada. Até seu traje enlutado revela o medo psicótico, os drapejados de veludo preto cobertos pelo motivo de punhais doirados. De facto, tão intenso é o luto e a recorrência da morte familial, que Cersei se veste em traje tradicional preto até ao fim da sexta série. Certos laivos de ouro fusco marcam presença aqui e ali, mas todo o traje nos dá a ideia de alguém derrotado, alguém inebriado pela ambrósia do desespero.

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Quando Cersei escolhe violência e vira monarca terrorista, seu figurino sofre a transformação mais radical. Ao invés de se resguardar nas silhuetas femininas que sempre lhe deram tanto asco, a filha pródiga dos Lannister passa a vestir-se como o espectro voraz do seu pai. O corte do traje assemelha-se a um gibão esticado até aos pés, os materiais pesados e ombros de metal dando a impressão que Cersei é uma rainha-guerreira. De facto, quando ela é coroada e finalmente se senta no Trono de Ferro, esta é uma governante em luto e sedenta de sangue. Seus ombros prateados parecem capazes de cortar carne, sua coroa a alucinação distorcida de um leão que ruge. A certa altura, ela até enverga uma estola de pelo preto, a juba soturna de um autêntico rei da selva.

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Este novo estilo prolongou-se pela sétima temporada, ganhando novas permutações faustosas à medida que a rainha Lannister foi conquistando proeminência narrativa. De salientar fica um desenho acetinado com saias volumosas, envergado pela rainha durante um dos seus atos mais cruéis. É como se a malvadez lhe desse vontade de festejar. Também há o seu vestido estilizado no último episódio da temporada, um estilo digno de uma vilã da Disney. Usando ideias tiradas diretamente das passerelles e da alta-costura, Clapton concebeu as costas da peça como uma escultura esquelética. A certa altura, quase parece que a espinha de Cersei está a explodir para fora do corpo, um pesadelo de vilania exteriorizada.

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Por fim, a última temporada traz de volta algum do estilo icónico de Cersei e adapta seus preceitos ao novo paradigma de rainha monstruosa. O estilo inspirado em Tywin continua, mas há uma nova proliferação de detalhes metálicos e aguçados, um regresso às cores sanguíneas e ao brilho do ouro velho. Para seus capítulos finais, a mais esplendorosa antagonista de “Game of Thrones” veste as cores do seu clã, orgulhosa e enlouquecida, uma leoa Lannister no seu máximo esplendor. É uma conclusão adequada à rainha da moda de Westeros e um fim respeitoso para um grande feito de figurinismo televisivo. Não admira que a série tenha ganho tantos Emmys pelo seu guarda-roupa.

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Qual é o teu figurino preferido do vasto guarda-roupa da rainha Cersei Lannister?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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