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História dos Óscares | Cartas de Cyrano de José Ferrer a Peter Dinklage

As principais adaptações de Cyrano ao grande ecrã conseguiram nomeações para os Óscares. Vamos conhecer o seu impacto.

Hollywood gosta de remakes e isso não é de hoje, como bem sabemos. O cinema gosta de voltar ao passado para contar algo sobre o presente, o que continua a agradar espectadores em todo o mundo. Por isso não estranhámos quando vários remakes ou novas adaptações de obras literárias conseguiram entrar na corrida aos Óscares 2022.

Nos nomeados ao Óscar de Melhor Filme encontramos “West Side Story“, de Steven Spielberg, “CODA“, de Sian Heder, “Dune – Duna”, de Denis Villeneuve e “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas“, de Guillermo del Toro, todos com tramas e personagens que nos são familiares. Foram capazes de trazer personagens do tempo dos nossos pais e avós para os nossos dias, contextualizando-a com as questões que a modernidade – ou melhor, a América – obriga.

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“Cyrano” | © MGM

Além dessas excelentes obras, há outro filme na corrida aos Óscares 2022, adaptado de uma das obras mais célebres do teatro, que já ganhou vida no cinema de outros tempos. Falamos de “Cyrano”, de Joe Wright, um dos grandes títulos da temporada de prémios 2021/2022. Concorre a 4 BAFTA Awards, incluindo Melhor Filme Britânico, venceu 3 prémios no Festival de Cinema Capri-Hollywood, incluindo Melhor Ator (Peter Dinklage), e está nomeado ao prémio de Melhor Ator dos Critics Choice Awards 2022.

Nomeado para o Óscar de Melhores Figurinos, “Cyrano” tem estreia marcada nas salas de cinema portuguesas a 24 de fevereiro. Mas porque razão o filme de Joe Wright não está nomeado a outros Óscares? Será uma questão de gosto da Academia? Será que nos dias de hoje já não há espaço para as dedicatórias de Cyrano de Bergerac à sua tão doce e amada Roxanne?

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Vamos conhecer as principais adaptações de “Cyrano” para o cinema, o impacto que tiveram no seu tempo e na história dos Óscares, e vamos responder às tuas grandes dúvidas sobre a ausência de “Cyrano” das categorias principais nesta que será a 94ª edição dos prémios da Academia.


Quem foi Cyrano de Bergerac? Da realidade para a peça teatral

Cyrano
José Ferrer em “Cyrano de Bergerac” (1950) © Stanley Kramer Productions

Antes de conheceres os grandes filmes que adaptam Cyrano de Bergerac consagrados pela Academia, convém conhecermos um pouco da sua trama.

Recuemos assim ao ano de 1897, quando o dramaturgo francês Edmond Rostand (1868-1918) publica a peça “Cyrano de Bergerac“, cuja estreia nos palcos aconteceu a 28 de dezembro no teatro de Porte-Saint-Martin. Na altura, Rostand era já um afamado dos circuitos teatrais parisienses e vivia alguns anos atormentado com a adaptação da vida de Savinien Cyrano de Bergerac (1619-1655). A peça inspira-se neste gascão, que morou em Paris em meados do século XVII, e com papel relevante em textos de ficção científica.

Conhecido em imagens pelo nariz longo e robusto, Cyrano de Bergerac viu a sua história romantizada por Edmond Rostand. E não era para menos. Falamos de um homem de vários talentos, além de estudioso de Física, Matemática e Astronomia, aclamado espadachim e pensador racionalista. Porém, não existem factos que provem Cyrano de Bergerac como poeta apaixonado, que não conseguia conquistar a sua amada Roxanne devido à sua aparência, utilizado a força das palavras para fazê-lo. Edmond Rostand fez nascer um mito no último grande texto do teatro romântico francês, redigido como poema. Cyrano recebeu aplausos de um povo que, de certo modo, quis erguer os ideais nacionalistas.

Cyrano de Bergerac
Estátua de Cyrano de Bergerac em Bergerac © Pixabay

Cyrano é esse homem sensível, espiritual, corajoso e eloquente que consegue sacrificar os seus maiores desejos a favor da felicidade dos outros, mas era também um homem ousado que conseguia impor-se aos mais poderosos. No decurso da peça, o público percebia Cyrano como um nobre extremamente inteligente e de caráter puro, que poderia representar qualquer homem apaixonado.

Mesmo num tempo em que o público preferia as grandes inovações proporcionadas pela Revolução Industrial, “Cyrano de Bergerac” quase que ensinou a sociedade francesa a não esquecer os sentimentos e emoções que realmente importavam. A personagem romântica acabou por cair nas boas graças do público e domina há mais de um século a cultura popular. Os pioneiros do cinema, apresentado oficialmente em 1895, aproveitaram o sucesso da peça e quiseram transportar a história para esse medium. Do teatro ao cinema, Cyrano de Bergerac transformaria por completo a definição popular de herói.


Cyrano (1950): Cartas de amor por José Ferrer

Cyrano

O primeiro filme norte-americano a dar merecido espaço ao herói romântico foi “Cyrano de Bergerac” (Michael Gordon, 1950). A América tardou algum tempo até fazer o seu primeiro filme sobre Cyrano, isto porque, já em 1900 começam a ser produzidos curtas-metragens na Europa sobre a personagem.

Hollywood sempre foi apegada a histórias sobre pessoas com fisionomia ou aparência fora do comum. À primeira vista, um homem com um nariz comprido como Cyrano tinha tudo para ser protagonista de um filme de comédia, uma personagem que poderia ser ridicularizada pela sociedade norte-americana, veneradora dos mais ancestrais padrões de beleza. Mas, se olharmos bem, a história de Cyrano poderia servir também de ferramenta para Hollywood abraçar cidadãos mais frágeis, que normalmente temiam entregar-se aos seus amores devido às suas qualidades exteriores.

Não poderemos esquecer que “Cyrano de Bergerac” (1950) é produzido durante a Era Dourada dos estúdios, na fase do pós-Segunda Guerra Mundial. Hollywood precisava de ir buscar essas particularidades para contar histórias, e aceitar marginalizados. Não existem informações se terá sido essa a intenção de um dos maiores produtores norte-americanos, Stanley Kramer, quando decidiu adaptar Cyrano.

De qualquer maneira, foi uma produção com orçamento contido, porque Stanley Kramer tinha medo que o filme fracassasse nas bilheteiras pela estranheza que o nariz do protagonista poderia causar no público. Os movimentos de câmara e técnicas de iluminação usaram e abusaram da escuridão para esconder os cenários básicos. No total foram apenas gastos 1,1 milhões de dólares no filme, embora o nariz falso usado por José Ferrer tenha custado 1.500 dólares! Mesmo sem uma grandiosa direção artística, “Cyrano de Bergerac” (1950) acaba por ser um filme único, que merece ser celebrado nos dias de hoje precisamente pelo protagonista.

José Ferrer
Crédito editorial: Oldrich / Shutterstock.com

A entrega de José Ferrer à personagem de Cyrano de Bergerac é notável, e o ator foi aclamado da crítica na altura da estreia (em Portugal estreou a 20 de julho de 1951). O texto traduzido do francês por Brian Hooker e com argumento de Carl Foreman é tratado de uma forma corriqueira e popular, no verdadeiro sentido da palavra.

José Ferrer torna Cyrano de Bergerac um homem do povo, um homem que quer amar e ser amado. Acaba por haver uma delicadeza na forma como José Ferrer atua, e sobretudo como declama os poemas de Cyrano. Apesar daquele nariz ser peculiar e exageradamente hilariante, Ferrer esconde a caracterização ridícula, pela forma como se mostra dolorosamente consciente da aparência facial e das fragilidades sentimentais da personagem. Ou seja, com ele percebemos que há um homem por detrás do seu nariz e é o interior que realmente importa.

Para os Óscares 1951, a única nomeação de “Cyrano de Bergerac” foi precisamente para José Ferrer. Concorreu ao lado de Louis Calhern (“The Magnificente Yankee”), James Stewart (“Harvey”), William Holden (“O Crepúsculo dos Deuses”) e Spencer Tracy (“O Pai da Noiva”). Foi Ferrer que venceu e, apesar da sua interpretação não ser a mais lembrada desse ano, acreditamos que a Academia deu um pequeno grande passo que ainda hoje o merece colocar no topo da história dos Óscares.

José Ferrer foi o primeiro latino nomeado ao Óscar

José Vicente Ferrer de Otero y Cintrón nasceu em 1912 em San Juan no Porto Rico, filho de porto-riquenhos com descendência espanhola. Com 6 anos mudou-se com a família para Nova Iorque, onde seria educado num colégio suíço. Cedo despertou o talento para as artes, mas o seu salto para o cinema tardou alguns anos.

A estreia aconteceu com “Joana d’Arc” (Victor Fleming, 1948). Com esse desempenho foi nomeado ao Óscar de Melhor Ator Secundário na edição de 1949. Graças ao desempenho, tornou-se no primeiro latino na corrida a um Óscar de interpretação. O currículo shakesperiano prévio às suas aparições no cinema terão sido uma mais valia para este ator que não sofreu tanto racismo como outros conterrâneos. Antes do filme, foi José Ferrer a interpretar Cyrano de Bergerac na Broadway, tendo sido agraciado com um Tony.

José Ferrer foi o primeiro latino vencedor do Óscar

Resultado da vitória? José Ferrer tornou-se o primeiro ator latino a vencer o Óscar. Apesar do feito, não esteve na cerimónia. Estava em Nova Iorque para os ensaios da sua peça “Twentieth Century” com Gloria Swanson, também ela nomeada nesse ano. A atriz Helen Hayes foi responsável por apresentar o prémio e o discurso de José Ferrer é ouvido ao fundo, graças a um circuito de rádio instalado na época. O ator agradeceu o voto de confiança da Academia e disse à audiência que não os iria decepcionar.

Na realidade, este é um período complexo da história da sétima arte e José Ferrer estava a ser investigado pelo Comité de Atividades Antiamericanas (HUAC – House Un-American Activities Committee) por possíveis filiações comunistas. Além de ator talentoso, Ferrer era um defensor dos direitos dos norte-americanos: lutou contra a segregação nos EUA, participou em reuniões políticas para solucionar a crise atómica e condenou o comportamento da HUAC em Hollywood. Lutava pela liberdade de expressão, mesmo que, algumas vezes, fosse rotulado de ator arrogante.

Depois da vitória do Óscar de Melhor Ator, regressou à Broadway, mas seriam precisos mais dois anos para voltar ao cinema, com “Anything Can Happen” (George Seaton, 1952), onde deu a vida a um imigrante. Mais importante foi a sua participação em “Moulin Rouge” (John Huston, 1952), com o qual obteve a sua terceira e última nomeação aos Óscares, na edição de 1953. Ferrer estava a ter mais sucesso que outros latinos e hispânicos. Não só cresceu nos EUA – com domínio da língua -, como as suas bases teatrais, referidas anteriormente, ajudaram-no a não ser relegado a papéis latinos estereotipados.

José Ferrer em “Lawrence da Arábia” (1962) © Horizon Pictures

Não quer dizer que não tenha feito o papel de estrangeiro, desse indivíduo nascido noutro país com cara pintada. Foi uma das tantas ‘vítimas’ do brownfacing, a prática recorrente pela indústria norte-americana. Aconteceu em filmes onde desempenhava personagens árabes, como “Lawrence da Arábia” (David Lean, 1962), na pele de um bei turco. Outras vezes, interpretou personagens europeias, com sotaque notavelmente carregado. Mas certamente não foi tão menosprezado como Rita Moreno, também ela porto-riquenha e célebre artista de Óscares, porque não representou latinos e hispânicos no cinema.

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Woody Allen
José Ferrer ao lado de Woody Allen em “Uma Comédia Sexual numa Noite de Verão” © Metro-Goldwyn-Mayer Studios Inc.

Enfim, José Ferrer foi um dos mais abraçados artistas da história do cinema. A maioria das celebridades latinas não teriam alcançado a fama sem o sucesso de José Ferrer. Graças a ele, e às suas conquistas na Broadway e em Hollywood, barreiras foram quebradas. Um dos seus últimos desempenhos foi no filme “Uma Comédia Sexual numa Noite de Verão” (1982), de Woody Allen.

O que é feito do Óscar de José Ferrer?

Awards Season Academia
Óscares da Academia © LibreShot

estatueta dourada de José Ferrer teve um final triste. Fora doada pelo próprio ator à Universidade do Porto Rico, mas seria roubada em 2000 (!!!), quando o teatro do estabelecimento passou por obras de reabilitação. Ainda hoje não se sabe o seu paradeiro.

Em 2016, o seu filho Miguel Ferrer (1955- 2017) revelou ao The Hollywood Reporter, a enorme vontade de querer recuperar a estatueta. Aliás, pediu mesmo à Academia um novo Óscar, contudo a mesma terá recusado por não substituir as estatuetas de personalidades entretanto falecidas. No comunicado, Miguel Ferrer dizia:

Através de Benicio Del Toro, que é um grande amigo meu e cujos pais moram em Porto Rico, conversei com vários jornais e ofereci uma recompensa em dinheiro. Não obtivemos resposta. Suspeito que esteja no fundo do oceano.

Entrei em contacto com a Academia para uma substituição e ficaria feliz por pagá-la, mas eles responderam “se o Óscar estiver perdido ou roubado e o vencedor estiver vivo, nós o substituímos. Se o vencedor já faleceu, é uma pena não o poderemos fazer”. Acho que a Academia anda aos trambolhões em si mesma a tentar ser culturalmente inclusiva.

É irónico que o meu pai tenha ganho um Óscar em 1951, tenha sido o primeiro hispânico a ganhar um Óscar e a Academia continua a ser tão intratável hoje.


Cyrano (1990): Cartas de amor por Gérard Depardieu

Cyrano de Bergerac critica
Cyrano de Bergerac

Gérard Depardieu é hoje um dos nomes mais polémicos do cinema, a quem sucedem-se um conjunto de denúncias de atos de violação e agressão sexual. Apesar de ser mais um nome da lista cancel culture, Gérard Depardieu foi em tempos um verdadeiro bon vivant, tantas vezes celebrado pelas indústrias cinematográficas francesa e norte-americana. Muito tem a ver com a personagem de Cyrano de Bergerac.

Em 1990, Depardieu foi o protagonista da mais célebre versão de Cyrano de Bergerac no grande ecrã. A longa-metragem realizada por Jean-Paul Rappeneau foi mais próxima do texto original, e obteve estrondoso sucesso nas bilheteiras. Com um orçamento de 15,3 milhões de dólares – a mais cara produção francesa até então -, “Cyrano de Bergerac” (1990) conseguiu arrecadar un surpreendentes 41,3 milhões. Não se trata apenas de uma produção opulenta – foram necessários mais de 2000 atores e figurantes! -, mas de uma trama que nunca nos separa dos três protagonistas: Cyrano, Roxanne (Anne Brochet) e Christian (Vicent Perez). As emoções são colocadas à flor da pele, sustentadas num argumento de Jean-Paul Rappeneau e Jean-Claude Carrière, que teve o cuidado de preservar o verso alexandrino de Rostand. A estranheza do público para com o nariz não é a mesma que “Cyrano de Bergerac” (1950), pois o seu comprimento foi reduzido em alguns centímetros.

Todo o cuidado estético, valeu uma onda de prémios para “Cyrano de Bergerac”. O primeiro foi no Festival de Cannes, no qual Gérard Depardieu recebeu o prémio de Melhor Ator. Em 1991, recebia 13 nomeações aos prémios César – das quais acabou por vencer 10 incluindo Melhor Filme e Melhor Ator. Por último, foi honrado pela Academia em 1991.

Cyrano de Bergerac critica
O filme é uma dança entre realismo cinematográfico e artifício teatral. © Alambique Filmes

Mesmo passados 32 anos desde a estreia, “Cyrano de Bergerac” (1990) continua a ser importante, colocado naquela lista de filmes internacionais que, lá de vez em quando, conseguem ser agraciados com nomeações às estatuetas douradas. Foram 5 as categorias em que esteve nomeado: Melhores Figurinos, Melhor Direcção Artística, Melhor Maquilhagem e Melhor Filme de Língua Estrangeira (França). Se na época a Academia tivesse 10 em vez de 5 nomeados ao Óscar de Melhor Filme, “Cyrano de Bergerac” (1990) talvez seria nomeado à categoria principal. A produção devolve Cyrano às suas origens teatrais, mas também parisienses – num filme falado em francês, que nada fica a desejar em relação aos épicos produzidos em língua inglesa em Hollywood.

“Cyrano de Bergerac” (1990) venceria o Óscar de Melhor Guarda-Roupa / Melhores Figurinos, da mente da italiana Franca Squarciapino. Mais do que vestimentas vivas – foram criadas mais de 2.000 peças de roupa -, Franca Squarciapino soube recuar a um tempo de extravagâncias na Paris do século XVII, a Paris dos excessos, onde as emoções muitas vezes escondiam-se por detrás de cada peça. Podes assistir a “Cyrano de Bergerac” na plataforma de streaming FILMIN Portugal.

Cyrano de Bergerac vence o Óscar de Melhores Figurinos

Nos Óscares, Gérard Depardieu concorreu contra Kevin Costner por “Dança com Lobos”, Robert DeNiro por “Despertares”, Richard Harris por “The Field – Esta Terra é Minha” e Jeremy Irons por “Reveses da Fortuna”. Perdeu o Óscar para este último, mas isso não impediu Depardieu de ser o 2º ator a ser nomeado à estatueta dourada por interpretar Cyrano.

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Não foi o primeiro francês nomeado ao Óscar de Melhor Ator – algo que coube a Maurice Chevalier pelo filme “O Grande Charco” (Hobart Henley, 1930), mas foi o primeiro ator nomeado por um papel falado em francês. Até ao momento foi o único a consegui-lo! Aqui não poderemos incluir, por exemplo, a vitória de Jean Dujardin em “O Artista” nos Óscares 2012, porque mesmo tendo sido o primeiro francês a vencer o Óscar de Melhor Ator, o seu filme teve co-produção com os EUA e aborda problemas de Hollywood. A sua única fala é dita em inglês.

Gérard Depardieu foi nomeado ao Óscar de Melhor Ator

Leia-se o excerto da crítica de “Cyrano de Bergerac” publicada por Cláudio Alves sobre performance de Gérard Depardieu, aquando do relançamento do filme nas salas portuguesas em 2018.

Ninguém fala assim e ninguém alguma vez falou assim, mas Gérard Depardieu quase que nos faz crer na ilusão. No papel que o tornou numa estrela internacional e arrecadou uma nomeação para o Óscar assim como o prémio do Festival de Cannes, Depardieu é um génio de modulação tonal, dando vida às cambalhotas de registo inerentes à peça com insana facilidade e um tipo de dicção e discurso físico que, não traindo as exigências anti-naturalistas do texto, sugerem um realismo palpavelmente humano e não a rarefeita ficção de uma vida vivida em palco e nunca fora dele. Aliás, essa constante fricção entre realismo e artifício teatral que o ator tanto personifica constitui a dinâmica central ao sucesso do filme.

Abaixo poderás ver uma entrevista a Gérard Depardieu sobre o processo de transformação para Cyrano de Bergerac. A entrevista foi feita à RTS – Radio Télévision Suisse francophone.


Cyrano (2021): Cartas e canções de amor por Peter Dinklage

A estreia da nova versão de “Cyrano” acontece no próximo dia 24 de fevereiro em Portugal. Foi essa a principal razão para a qual decidimos escrever este artigo.

Infelizmente, “Cyrano” (2021) não recebeu tanto amor nos Óscares, como aconteceu com as adaptações precedentes. Foi meramente nomeado à categoria técnica do Óscar de Melhores Figurinos, num trabalho de Jacqueline Durran (britânica) e de Massimo Cantini Parrini (italiano). Ambos não são novos nestas andanças e tratam-se de dois figurinistas bastante consagrados.

Jacqueline Durran já ganhou dois Óscares. Primeiro em 2013, pelo trabalho em “Anna Karenina” e mais recentemente, em 2020, pelo trabalho em “Mulherzinhas” (Greta Gerwig, 2019). Contabiliza 8 nomeações para as estatuetas douradas. Massimo Cantini Parrini, nascido em 1971, tem carreira bem sucedida em Itália, como colaborações com Matteo Garrone, Susanna Nicchiarelli e Daniele Luchetti. Em 2021 foi nomeado à estatueta dourada por “Pinóquio” (Matteo Garrone, 2019) e tem agora a sua segunda nomeação. Mas porque razão “Cyrano” (2021) não conseguiu mais nomeações aos Óscares? Vejamos em baixo alguns dos motivos.

Cyrano foi esquecido nos Óscares 2021?

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© MGM

“Cyrano” (2021) é uma adaptação realmente diferente de todas as outras. Em primeiro lugar, renuncia ao nariz avantajado, e Cyrano é agora um homem que goza de uma estatura particular. Em segundo lugar, o sentimentalismo do argumento de Erica Schmidt procurou transformar os monólogos e discursos mais longos em números musicais, com canções originais de Bryce Dessner e Aaron Dessner da banda The National. Foram eles quem moldaram a narrativa de “Cyrano”. A falta de promoção do filme por parte da MGM Studios, durante a campanha para os Óscares, terá determinado o quase esquecimento de “Cyrano” pela Academia.

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Não é um problema da obra, que consegue reunir as palavras de Edmond Rostand de uma forma criativa e significativamente diferente a tudo o que vimos antes. Nem será um problema da realização, afinal Joe Wright é capaz de transformar qualquer obra de teatro numa fantástica adaptação cinematográfica. Falamos de um nome cujos filmes têm chegado longe nas estatuetas douradas. Foi ele quem realizou “A Hora Mais Negra” (2017), com Gary Oldman e “Expiação” (2007), ambos nomeados ao Óscar de Melhor Filme. “Cyrano” (2021) estreou na 48ª edição do Festival de Cinema de Telluride em 2 de setembro de 2021, onde costumam ser apresentados alguns títulos da awards season.

Mas o problema de “Cyrano” (2021) prende-se efetivamente ao trabalho de distribuição. Poucos são os críticos que falam sobre ele e, se pensarmos bem, a Metro-Goldwyn-Mayer e a United Artists não estiveram preocupadas em publicitar o filme para os Óscares. O estúdio preferiu “Licorice Pizza”, do sempre prestigiado Paul Thomas Anderson; “Casa Gucci” de Ridley Scott e “007: Sem Tempo para Morrer”, de Cary Joji Fukunaga.

“Licorice Pizza” está nomeado para 3 Óscares, incluindo Melhor Filme. O filme protagonizado por Lady Gaga foi um dos dramas mais bem recebidos em termos de bilheteira na era COVID-19, com 152 milhões de dólares de box-office, mas acabou relegado ao Óscar de Melhor Maquilhagem e Cabelos. Quanto a “Sem Tempo para Morrer” conseguiu um box-office de 774.2 milhões, e conta com 3 nomeações aos Óscares.

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© MGM

Sem o nariz estranho, Peter Dinklage disse, em conversa com a Variety, que esta versão de Cyrano tocou-lhe o coração e que entendia perfeitamente a vulnerabilidade deste homem. Embora com algumas mudanças evidentes, Cyrano de Bergerac continua a ser um sujeito corajoso, com dificuldades em expressar o seu amor.

Veremos na próxima semana o que os espectadores portugueses têm a dizer sobre a personagem. São mais de 124 anos de história que continuarão a conquistar audiências em todo o mundo.

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