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Indie Lisboa ’21 | Ecos da Vermelha, em análise

“Ecos da Vermelha”, filme final de Mestrado de Bruno Teixeira, teve estreia absoluta na 18ª edição do IndieLisboa. A 22 de agosto, pelas 18h00, os intervenientes de um pedaço da história nacional reuniram-se no Cinema São Jorge para recordar as suas preciosas narrativas de resistência. 

A longa-metragem de Bruno Teixeira, apresentada pela primeira vez ao público na presente edição do IndieLisboa, presta tributo à terra natal do seu realizador, imortalizando na grande tela as histórias de resistência ao fascismo que desde a década de 30 têm passado de boca em boca pelos habitantes de Vila Franca de Xira, em tempos apelidada de “A Vermelha” pelas forças fascistas. Numa sala repleta de rostos que mais tarde veríamos projetados na tela, o realizador foi recebido com notável carinho por parte dos seus sujeitos fílmicos.

Entre algumas imagens filmadas, ora arquivos da Câmara Municipal de Vila Franca, ora imagens da RTP, e mesmo muitas fotografias de arquivo, capturadas desde a década de 1930 até à altura da revolução, “Ecos da Vermelha” divide-se em capítulos, em passado e presente, em entrevista frente à câmara e imagens da vida quotidiana, para assim recordar a resiliência de um povo que recusou subjugar-se ao fascismo. É estranho ponderar, para aqueles que nasceram depois da Revolução dos Cravos, que a tão ambicionada e suada liberdade tenha sido atingida há tão pouco tempo. Que tantos dos que lutaram por ela ainda estejam vivos, a fazer da sua voz testemunho de um passado a não esquecer.

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Por isso mesmo, “Ecos da Vermelha” é acima de tudo um pedaço de memória. Um arquivo que, através da presença da canção e da poesia, não se vê livre de intento artístico, mas que funciona, também devido à sua linearidade na construção narrativa, muito mais como um documento histórico, como um alerta, uma peça chave na resistência que nunca deixa de ser necessária. Não existem filmes suficientes que pensem o tempo do fascismo em Portugal, e todos eles são mais do que bem-vindos.

Ecos da Vermelha 2021
©Bruno Teixeira/ IndieLisboa

Ao tentar reconstruir tempos que já lá vão, Bruno Teixeira filmou mais de 20 horas de material de entrevista. Depois de o montar, continuava com cinco. O corte final acaba por pouco ultrapassar as duas horas, narrando a história de um povo de forma vagarosa e detalhada. Episódios como as cheias de 1967, a criação da Escola Técnica ou a constituição das atividades culturais do Ateneu acabam por ocupar bastante espaço, quiçá mais do que aquele que seria necessário para transmitir a história de uma cidade que transbordava Cultura e Resistência.

É notória a paixão de Teixeira pelo tema e por todos os muitos intervenientes, tanto que os deixa falar livremente, sem entraves. Contudo, fá-lo sempre em moldes algo limitativos. Ao invés de dialogarem entre si, o que é raro ao longo do filme, cada um dos muitos entrevistados está preso na sua própria revisão do passado. Nunca nos sentimos verdadeiramente transportados para o seu presente, embora a minúcia nos permita compreender, do ponto de vista intelectual, todos os eventos que sucederam. Falta apenas alguma emotividade, compensada pelo rigor do relato.

“Ecos da Vermelha” tem, consequentemente, um grande valor como documento educativo. Tal como o clássico “Torre Bela” (1975) ou a sua reflexão “Linha Vermelha” (2021). Todavia, os eventos de Vila Franca de Xira não partilham da mesma celebridade dos momentos vividos na Herdade de Torre Bela. Assim, a urgência de transmissão da informação torna-se ainda maior.

E ao contrário de outras obras focadas na resistência ao regime, ao contrário de digamos, a obra de Susana de Sousa Dias, que em longas como “48” (2010) ou “Luz Obscura” (2017) revela os horrores da tortura e da perseguição do Estado Novo, “Ecos da Vermelha” nunca deixa de se referir ao regime, à PIDE, a Salazar e a todas as limitações à liberdade, mas sem entrar em detalhes acerca de prisões políticas e suas vicissitudes.

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Antes, prefere-se manter o foco no associativismo, no espírito de cooperação entre camaradas, nas mil e uma iniciativas que foram capazes de manter uma localidade e os seus habitantes curiosos, cultos e esperançosos contra todas as expectativas. Esta não é uma obra cinzenta acerca dos desafios do regime salazarista, não é um lamento acerca de todos os que perdemos para o esforço da Guerra Colonial, é antes uma homenagem sentida aqueles que lutaram, incessantemente, pela libertação que teimou a chegar mas que por fim se concretizou.

Bruno Teixeira traça os ecos de todos estes protagonistas, com bastante cuidado e admiração, embora quiçá com alguma falta de vigor devido ao conservadorismo da montagem. Se “Prazer, Camaradas!” (2019), por exemplo, esticou um pouco a corda no que toca à teatralidade, “Ecos da Vermelha” mantém-se dentro dos limites e das expectativas fílmicas a cada instante. Não deixa, contudo, de ser um pedaço corajoso de cinema de resistência, sempre atual e essencial perante uma alarmante escalada dos extremismos de direito. Não ao Fascismo, agora e para sempre, dizem-nos estes ecos!

 

O Indielisboa ’21 decorre na capital entre os dias 21 de agosto e 6 de setembro, com sessões de vencedores a 7 e 8 de setembro. Entre a programação traz diversos destaques, com as suas variadas secções desde a Competição Internacional, Nacional, passando pelos Novíssimos, Retrospectivas, IndieMusic, Silvestre, Boca do Inferno e muito mais…

Ecos da Vermelha, em análise
Bruno Teixeira Ecos da Vermelha Indielisboa '21

Movie title: Summer of Soul (...Or, When the Revolution Could Not Be Televised)

Movie description: A Vermelha era Vila Franca de Xira, assim intitulada pela PIDE, durante a época do Estado Novo. Este filme traz-nos ecos de uma cidade que continha uma multiplicidade de locais — fossem casas particulares ou institucionais — usadas pela resistência antifascista da altura. Estes, e os responsáveis pelos mesmos, são agora revisitados e entrevistados.

Date published: 22 de August de 2021

Director(s): Bruno Teixeira

Genre: Documentário, 2021, 137 minutos

  • Maggie Silva - 77
77

CONCLUSÃO:

“Ecos da Vermelha” é um relato metódico de um povo e da sua resiliência durante o dificílimo século XX em Portugal.

O MELHOR: A nítida compaixão, preocupação e atenção aos sujeitos fílmicos entrevistados. A dedicação do realizador face ao seu tema.

O PIOR: A natureza previsível da estrutura narrativa, bem como a falta de capacidade de síntese.

 

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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