IndieLisboa | Os Jovens Baumann

16º IndieLisboa | Os Jovens Baumann, em análise

Os Jovens Baumann” é um estranho mistério brasileiro sobre um inexplicável desaparecimento. Este é um dos muitos filmes oriundos do Brasil a marcar presença nesta edição do IndieLisboa.

No verão de 1992, um mistério nunca resolvido abateu-se sobre Santa Rita d’Oeste, no sul de Minas Gerais. Toda uma geração da família Baumann desapareceu. Oito jovens sumiram e com eles foi-se também o futuro de uma dinastia que há tempos imemoriais tinha dominado a região. Com fazendas prósperas e campos cheios de café, os Baumann eram uma elite invejável, existindo sempre num pódio marmóreo de prestígio e privilégio. Nada disso os salvou, no entanto. Oito primos, oito jovens em busca de prazer e divertimento, de um refresco para as tardes quentes do verão brasileiro, foram-se.

Para trás, só ficaram gravações em VHS de onde ninguém conseguiu alguma vez desenterrar uma pista que fosse. Com o passar dos anos e o desespero de um futuro roubado, os pais da geração que se esfumou no nada, partiram e abandonaram a terra em que os seus antepassados tinham esculpido, à força o seu legado e riqueza. Tal foi a vontade de fugir ao cenário do mistério, da perda absoluta, que os pais não levaram nada consigo, nem mesmo as últimas imagens dos filhos que nunca mais viram. Em 2017, as fitas de cassete chegam às mãos de uma realizadora.

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O fim de uma dinastia.

Assim é a premissa de “Os Jovens Baumann”, um projeto da cineasta brasileira Bruna Carvalho Almeida que segue o modelo do filme found footage, sendo quase inteiramente composto por filmagens em fita de VHS feitas sem nenhuma estrutura cinematográfica em mente.  Já antes de 1999, existiam projetos feitos nestes parâmetros, mas foi “O Projeto Blair Witch” que realmente catapultou a popularidade de tais engenhos cinematográficos. As sagas “Atividade Paranormal” e “Cloverfield” ajudaram a perpetuar a presença de tais propostas no mainstream, adaptando as fórmulas a sensibilidades e tecnologias do século XXI. Repare-se, contudo, que todos estes títulos de referência, são filmes de terror assumidos. “Os Jovens Baumann” é algo mais complicado.

A história, como será óbvio, é completamente fictícia, mas é abordada como uma tragédia real por todo o discurso fílmico, mesmo a narrativa em que a realizadora fala sobre o mistério com nostalgia, como se esta fosse uma lenda local com a qual ela cresceu. Isso, a construção formal, o facto de as “vítimas” serem jovens a divertir-se durante o verão e a inevitável conclusão meio trágica, apontam para um exercício de terror em linhas clássicas. Só que Almeida parece fazer tudo para negar ao espectador os prazeres típicos de tais exercícios de medo. O propósito aqui não é amedrontar, mas obrigar à reflexão.

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De um certo ponto de vista, “Os Jovens Baumann” está mais próximo de “O Leopardo” de Visconti e o “Salão de Música” de Ray do que de “Atividade Paranormal”. Também esses filmes viram o desaparecimento de príncipes e aristocratas, homens ricos e poderosos, descendentes de quem consolidou seu poder sobre a terra que habitavam. É claro que, nesses casos, o que desaparece é o poder e o espaço esculpido no tecido da ordem social. Quando se tornam obsoletos, estes homens são obrigados a confrontar que a sua existência é uma irracionalidade no mundo presente, um fragmento de um sonho passado do qual o resto do mundo já acordou. São histórias de apocalipse do estatuto e do privilégio.

Nunca vemos os jovens Baumann acordar para estas verdades, mas vemo-los desaparecer de modo ainda mais absoluto que os protagonistas desses épicos históricos de Itália e da Índia. Além disso, a sua condição obsoleta é-nos transmitida pela linguagem visual do filme. Veja-se como Almeida está sempre a destacar a imensidão da paisagem natural, a sua beleza e a ausência de vida humana além dos oito primos. Eles são os herdeiros de tudo o que a vista alcança, mas há algo de obsceno e antinatural em ver tais maravilhas serem propriedade de quem nada fez para as merecer, de quem não trabalha a terra, de quem não aprecia o que tem e só se preocupa com os prazeres próprios.

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Um filme necessariamente ambíguo que nunca oferece respostas fáceis ao espectador.

Não há aqui nenhum julgamento moral ou vilificação dos jovens, simplesmente um olhar crítico sobre as dinâmicas entre os fazendeiros e a terra que eles reclamam para si, que exploram e que resguardam das outras pessoas menos afortunadas. A história do seu desaparecimento, especialmente quando é narrada em voz-off, tem a qualidade de uma tragédia clássica sobre uma grande e longa dinastia amaldiçoada por uma força misteriosa e vingativa. Depois de tanto terem tentado esculpir um legado eterno através da riqueza e da terra cultivada, os Baumann foram obliterados. Só restam imagens em VHS de má qualidade, em degradação, espectros que lentamente vão esvanecendo e com eles levam as últimas memórias da dinastia caída.

Admitimos que esta leitura política e socioeconómica de um filme tão preso aos modelos e fórmulas do terror found footage pode ser muito rebuscado e até fugir às reais intenções da realizadora. “Os Jovens Baumann” nunca tenta oferecer respostas fáceis ou resolver os mistérios que levanta, pelo que é um objeto marcado pela ambiguidade, uma obra aberta a inúmeras interpretações. Essa é uma das suas maiores qualidades, assim como um dos seus potenciais pontos fracos. Para muitos, o filme será insubstancial, leve ao ponto da inconsequência, um cocktail tonal de comédia naturalista e ominoso suspense que não tem nenhum final dramático para rematar a experiência do espectador. No entanto, para quem esteja disposto a dialogar com o filme e a dele descortinar algum significado, “Os Jovens Baumann” pode ser um pequeno baú do tesouro, cheio de valor cinematográfico e algumas ideias inquietantes de justiça cósmica.

Os Jovens Baumann, em análise
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Movie title: Os Jovens Baumann

Date published: 2019-05-11

Director(s): Bruna Carvalho Almeida

Genre: Drama, Musical, Biografia, História, 2018, 71 min

  • Cláudio Alves - 78
78

CONCLUSÃO:

“Os Jovens Baumann” é uma peculiar proposta de cinema brasileiro que vai buscar temas ao épico histórico e gramática visual ao cinema de terror. Um mistério pouco ortodoxo, cheio de humor e atuado com grande naturalismo, este é um filme estranhamente apelativo.

O MELHOR: A loucura brincalhona do final, que deverá deleitar muitos espectadores.

O PIOR: A loucura incompreensível do final, que deverá frustrar tantos outros espectadores.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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