Beau Knapp em "Mosquito State" (2020) |©Royal Road Entertainment

IndieLisboa ’21 | Mosquito State, em análise

O IndieLisboa ’21 proporciona ao público a oportunidade de assistir, através da sua disruptiva secção “Boca do Inferno”, a filmes dominados por temáticas atípicas e situadas junto dos reinos do fantástico e terror. É nesta programação que podemos encontrar o perturbador e Kafkiano “Mosquito State”. 

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Esta obra, exibida na 18ª edição do IndieLisboa a 2 de setembro no Cinema Ideal, chega ao Festival de Cinema de Lisboa para a sua estreia a nível nacional. “Mosquito State”, uma co-produção entre a Polónia e os Estados Unidos, teve estreia mundial no Festival de Veneza, quase há um ano, a 5 de setembro de 2020, onde venceu com o maior mérito possível o prémio de Melhor Fotografia para Eric Koretz (“Siberia”, “Comet”).

O Bisato D’Oro foi atribuído a “Mosquito State”, reconhecendo-o como: “Um trabalho magistral que dá vida a uma realidade Kafkiana, tornando-nos incapazes de escapar aos nossos sonhos e pesadelos. Um filme cheio de metáforas e visões que, graças à sua fotografia, dá estranhas, mas decisivas e extremas, emoções.”

Still Mosquito David Cronenberg 
©IndieLisboa/Shudder

Passado alguns dias, o filme passou pelo também conceituado Festival de Sitges, onde concorreu a Melhor Filme e venceu em duas categorias que prestam homenagem ao trabalho ao nível dos Efeitos Visuais. Este pesadelo que presta homenagem à “A Metamorfose” de Kafta e à “Mosca” de David Cronenberg, sem nunca se tornar uma cópia descarada ou um mero pastiche, longe disso, tem precisamente como maior trunfo a sua invulgar e impecável paisagem visual.

Enquadrável como uma obra que circunda os géneros do drama, thriller, mistério e terror, “Mosquito State” é uma obra que assenta fortemente em terror do corpo e comentário e crítica social. A história situa-se cronologicamente em agosto de 2007, o que não é nem um acaso nem ingénuo. Estamos no pico da especulação e, no seio do sucesso aparente de Wall Street, encontramos a vida de Richard Boca (Beau Knapp).

Richard é um analista de dados bem-sucedido e obsessivo. Os seus modelos matemáticos regem a forma como interage com o mundo, vivendo em semi-isolamento na sua exuberante Penthhouse com vista para o Central Park. A sua existência rege-se por padrões calculados ao milímetro e, por isso, não é surpreendente que tudo comece a vacilar a partir do momento em que os modelos computacionais se começam a comportar de forma errática.

Como sabemos, a crise financeira está prestes a estalar, mas Richard parece ser o único capaz de o prever a partir do seu “honeybee” – o modelo matemático que criou e que trouxe abundante lucro à empresa para a qual trabalha. Sendo ele próprio uma sanguessuga do mundo moderno, Richard está prestes a chegar ao seu ajuste de contas…

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Coincidindo com esta aparente falência do seu modelo matemático e dos dados que regem a sua vida, Richard é mordido por um mosquito e depressa enxames e enxames de mosquitos começam a proliferar no seu apartamento, uma infestação perfeitamente sincronizada com o seu aparente esgotamento. Consumido pelo seu trabalho e pelo eminente sentimento de catástrofe, Richard move-se entre o seu apartamento e o seu escritório com uma fervorosa determinação. Não obstante, o seu mundo começa a desabar progressivamente e o seu corpo e alma são consumidos pela infestação de insetos sanguessuga.

Quando conhece a bela Lena (Charlotte Vega) e depois de ser picado por um mosquito especialmente determinado, Richard desenvolve fixações perigosas e que o levam até à vertigem neste que é de facto um “Mosquito State” eminente e contagioso.

E apesar de a narrativa apresentar um ritmo vagaroso, a repulsa física causada pela reprodução da multidão de mosquitos e a transformação que se opera no protagonista nunca nos permitem relaxar. Com sucesso, “Mosquito State” é um espectáculo decadente, tenso, tenebroso e memorável. No mínimo bizarro e suportado pelos seus efeitos visuais arrojados, o filme resiste à simples categorização e, apesar de não agradar a gregos e troianos, sem dúvida sabe como reivindicar a sua pertinência através de um inegável efeito de choque.

 

TRAILER | MOSQUITO STATE (2020) NA SECÇÃO BOCA DO INFERNO DO INDIELISBOA ’21

O Indielisboa ’21 acontece na capital até dia 6 de setembro, com sessões de vencedores a decorrerem nos dias 7 e 8. Quanto a “Mosquito Vision”, pode ser visto apenas hoje, dia 2 de setembro, na sala 1 do Cinema Ideal e pelas 20h00. 

Mosquito State, em análise
Poster Mosquito State IndieLisboa Boca do Inferno

Movie title: Mosquito State

Movie description: A narrativa do filme desenrola-se em Agosto de 2007, num luxuoso apartamento com vista para o Central Park nova-iorquino, onde Richard Boca (ele próprio um “mosquito” de Wall Street) começa a ser atormentado por ocorrências arrepiantes e hordas dos vampíricos insetos.

Date published: 2 de September de 2021

Country: EUA, Polónia

Duration: 100'

Director(s): Filip Jan Rymsza

Actor(s): Beau Knapp, Charlotte Vega, Jack Kesy,, Olivier Martinez

Genre: Ficção, 2019, 90 minutos

  • Maggie Silva - 80
80

CONCLUSÃO:

“Mosquito State” é um pesadelo kafkiano que resiste à interpretação fácil e que promete abalar os sistemas de crenças do seus espectadores.

O MELHOR:

A estupenda fotografia e efeitos visuais. Terão insetos alguma vez sido tão bem representados e honrados no grande ecrã?

A excêntrica prestação de Beau Knapp;

O PIOR: 

O final enigmático e ambíguo adequa-se, na perfeição, à narrativa metafórica que aqui é apresentada. Contudo, a conclusão deste pesadelo não deixa de se fazer com maior brevidade do que aquela que poderíamos ter desejado;

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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